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Rap: arte e contestação

Ele começou a vida no Bairro Grajaú, na periferia de São Paulo. No mesmo bairro onde seus pais cresceram e fizeram seus amigos, ele também encontrou sua turma. Depois, seria dali para o mundo, fazendo parcerias de sucesso e inventando novas rimas de rap. Hoje, lota shows em todo canto do Brasil e possui seu público cativo. Em 2017, mais uma conquista: participação no festival Loolapalooza, um dos maiores eventos de música do país.

 

Aqui, um pouco mais sobre Kleber Cavalcante Gomes. O filho do seu Cleon e da dona Vilani, que se apresentou primeiro como Criolo Doido, mas, considerou não estar pronto para se dizer doido. Agora, é apenas Criolo, um ser que se autodenomina amante da música, entendeu que tem muito para aprender com a vida e espera fazê-lo ainda nesta passagem.

 

Nos fundos do palco do Centro Sul, em Florianópolis, onde se apresentaria depois de Marechal, Rael e Emicida, Criolo se aproximou para conceder esta entrevista. De tênis branco e meia preta até a altura da canela, bermuda cinza e uma camisa com folhas na estampa, cumprimentou o assessor de imprensa e o repórter educadamente. Ouviu explicações sobre a entrevista e mergulhou no relato da sua carreira e história de vida, oferecendo ainda suas visões sobre o Brasil e os problemas sociais do país.

 

A pedido da reportagem, explicou sua relação com o rap e revelou ter começado a escrever aos 11 anos de idade. Aos 13, pediu uma oportunidade para cantar duas músicas em um evento que celebrava doação de roupa e de comida no Grajaú.

 

“Eu sempre vi no rap algo que eu percebesse que eu era alguém que fazia parte do mundo. A partir daquele momento que eu senti que eu conseguia expressar meus sentimentos, percebia que fazia parte do mundo."

 

O termo fazer parte do mundo para alguém da periferia tem outra carga e isso se evidencia nas letras do seu álbum de estreia (Ainda há tempo, 2006). Em canções como “É o Teste”, o artista narra os desafios da vida na periferia contra a pobreza e a desigualdade social. Em “Ainda há tempo”, tenta resgatar valores perdidos entre as pessoas, como, por exemplo, o amor, porque, segundo o rapper, “até o mais desandado, dá um tempo na função quando percebe que é amado.”

 

 

Neste primeiro álbum, é possível perceber os traços de uma produção mais caseira, diferente dos discos seguintes. Nada que abale a qualidade da mensagem. Longe disso. É pedrada atrás de pedrada. O disco foi gravado novamente em 2016, sofrendo algumas alterações.

 

O segundo álbum (Nó na orelha, 2011) ganha a contribuição do produtor Daniel Ganjaman, que trabalhou com diversos nomes do rap nacional, como Sabotage, 509-E, SNJ e Racionais MC's. O álbum emplaca hits como “Não existe Amor em SP”, uma das mais ouvidas de Criolo, presenteia fãs com criatividade na letra e na trama das músicas, como em “Linha de frente”, onde coloca Mônica, Magali e Cebolinha nas rimas, além de Cascão, que vira o rei do morro. “Samba, sambei”, canção que varia as clássicas batidas do rap, produzindo novidade e misturando estilos. Em “Grajaeux”, uma homenagem ao bairro onde nasceu.

 

“É o bairro onde eu cresci e vivi a minha vida toda. É o lugar onde meus pais também se desenvolveram e tiveram seus amigos. Eu também tive os meus, foi o lugar onde estudei, onde vi meus irmãos crescerem, enfim, o bairro é um membro da família também.”

 

 

Apesar de ser um dos responsáveis por levar o rap a novos públicos, a humildade é um dos atributos de Criolo. Na verdade, o artista discorda até mesmo da ideia de tentar colocar o rap numa posição melhor ou pior do que em outras épocas no cenário nacional. Para ele, o rap não pensa dessa forma. É uma energia musical, plural e democrática.

 

“Sou um aprendiz. O rap é uma energia e cada pessoa contribui com o tanto da sua energia. A arte tem uma coisa muito linda. Ela consegue tirar de qualquer ser humano algo de bom. Isso é muito forte. É muito especial. A arte toca a alma das pessoas. Ela toca o coração das pessoas. Por mais que o mundo diga que não e você em algum momento da vida acredite que não, a arte consegue encontrar algo de bom dentro de você e levar para o mundo. Isso é assim, contundente”, relatou Criolo antes de ser interrompido pela batida frenética que emanava das caixas de som durante o show de Emicida, seu parceiro de estrada.

 

A aproximação com Emicida, aliás, marca a gravação do terceiro disco (Criolo & Emicida, 2013), que traz um compilado de canções dos dois artistas. O trabalho conta ainda com uma participação mais que especial de Mano Brown, dos Racionais MC’s, que vem ao palco para cantar “Vida Loka parte 1”, canção capaz de emocionar qualquer marmanjo que acompanha o rap no Brasil.

 

O quarto álbum (Convoque seu Buda, 2014) reúne mais música boa, amplia e aprofunda a crítica social dos trabalhos anteriores. Lançada anteriormente no formato LP, “Duas de cinco” é uma das melhores canções do disco. Nela, Criolo chega a interpelar Focault: Quer saber o que é loucura? É ver Hobsbawm na mão dos boy, Maquiavel nessa leitura, falar pra um favelado que a vida não é dura.

 

“Toda injustiça incomoda quem tem um pouco de humanidade. Invariavelmente ela está ligada a relação que cada um tem com o poder que cai em suas mãos. Uma pessoa acaba influenciando a vida de outra sem perceber”, disse Criolo e, na sequência, alertou também para a falta de sensibilidade das pessoas para o problema social da fome e a incompetência dos governantes: “A cada dois segundos uma pessoa morre de fome no mundo. Isso já diz muito”.

 

Crítico ao sistema carcerário do país, que prende apenas negros e pobres, Criolo relacionou o problema ao atraso histórico do país, levantando a hipótese de que continuamos a repetir erros das gerações anteriores.

 

“Por que isso tá acontecendo? Será que ainda está ligado a uma questão histórica onde muitos erros foram cometidos e algumas pessoas ainda insistem em dar continuidade a esses erros? Isso dói demais”.

 

Convidado a refletir sobre política antidrogas do país, Criolo voltou a falar daquilo que considera uma prioridade. “A gente não tá conseguindo garantir um prato de comida para o cidadão brasileiro. Temos muito ainda o que evoluir em uma série de questões. A gente não consegue nem garantir um prato de comida e isso vem bem antes. Estou falando de um prato de comida.”

 

Muitos fatores contribuem com a reverberação do rap para além das periferias. A aposta na atividade independente de artistas como Criolo na internet rompeu os limites da indústria comercial e sabotou o modelo das gravadoras. A audiência e o público do rap, e nesse quesito nosso entrevistado também se destaca lotando shows por onde passa, coloca a realidade da periferia de frente para o mundo e escancara os calos da nossa gente. Criolo faz tudo isso mantendo a natureza contestadora e vibrante do rap.

 

 

Ilustração:
G. Pawlick / Estopim Coletivo

Fotos:

Divulgação

 

 

 

 

 

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