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Professor das ruas

22 Nov 2017

 

Quem foi Cruz e Sousa? Qual o nome do fundador da Academia Brasileira de Letras? Essas são apenas algumas das questões que um rapaz negro, a primeira vista um morador de rua, costuma fazer as pessoas no Centro de Florianópolis. As questões também podem envolver Antonieta de Barros, Jerônimo Coelho e outras figuras históricas que emprestam seus nomes aos palácios, ruas e escolas da ilha. Mais do que a forma como Paulo Nogueira encontrou para ganhar a vida, o ‘quiz’ é o pilar de um sonho: reintegrar-se a sociedade como professor de História.

Natural de São Paulo, recém acomodado nos 30 anos, Paulo sobrevive de conhecimento. Com a renda obtida nas aulas de História ministradas nas ruas, consegue manter o aluguel de uma kitnet em São José. A transição não foi fácil. Antes disso, precisou guardar dinheiro por quatro meses.

“Eu ganho dinheiro na rua, sobrevivendo do meu conhecimento. Muitas pessoas falam com o Paulo e perguntam: ‘E aí, o que você precisa hoje?’ Preciso comer, tomar banho, trocar de roupa. Percebi que poderia guardar os dez reais que usava para tomar banho, ou comprar uma roupa, para alugar um espaço, mas até conseguir sair, demorou muito tempo.”

Nas ruas, nem sempre é compreendido ou ouvido. Assim como algumas pessoas entendem as dificuldades, ajudam e aprendem com o professor, outras o destratam ou ignoram. O caso mais extremo foi uma agressão.

“Certo dia estava na calçada do Shopping Beira-Mar, dando uma aula de história muito boa. A filha do cara começou a me olhar, começou a chorar… Aí o pai dela bem assim: 'Prefiro gastar 50 reais com a ração do meu cachorro do que ajudar um morador de rua.' Eu respondi que ele não valia a merda do próprio cachorro. Eles foram embora e, dias depois, quando eu ainda morava na  rua, acordei com um pisão em cima do meu joelho e uma pessoa falando: 'oh quanto é que vale a merda do meu cachorro'.”

Recomeço

 

 

A vinda para Florianópolis ocorreu em situação adversa. Em São Paulo, se envolveu com o crime, "pegou cadeia", cumpriu sua pena, mas encontrou dificuldades para se reintegrar à sociedade e se libertar realmente. Ainda na prisão, aproveitou parte do tempo lendo sobre a história de Florianópolis e surgiu assim a vontade de se mudar para a capital de Santa Catarina. Depois da liberdade, Paulo ficou em situação de rua e, em 2014, se mudou para a Ilha a fim de começar de novo. Quando chegou aqui, escolheu viver de conhecimento.

“Como estava na rua, eu via muito guia turístico falando na Praça XV. Eu ia próximo deles para ouvir e memorizar. Além disso, a história da Praça XV está dentro dela, está tudo escrito ali. A história do Cruz e Sousa também está no palácio, só que as pessoas não vão atrás.”


Para se atualizar, Paulo faz pesquisas em uma lan house no Centro da cidade. Fez amizade com o dono e costuma aproveitar esse tempinho também para matar a saudade da mãe, que mora em São Paulo. Os dois estão há 13 anos sem se ver.
 

História dos negros


Paulo sabe muito sobre a história de Florianópolis, mas as perguntas que mais gosta de fazer dizem respeito a história dos negros e daqueles que se dedicaram a questionar os acontecimentos históricos que os segregaram, escravizaram e mataram.

Por que ele prefere essa temática? A resposta está na pele, mas também na percepção de que contar a história com esse viés é uma raridade em diversos espaços da sociedade e até mesmo nas escolas.

“Por ser um homem negro, senti uma deficiência no ensino público, ao menos o que eu tive, sobre pessoas negras. O que eu aprendi sobre pessoas negras começa na escravidão e termina fora da escravidão. O mundo negro, na realidade, é um mundo paralelo, a gente não conhece a história negra. Fui fazer um pouco de pesquisa, corri um pouco atrás, assimilei algumas coisas e trouxe algo de bom para mim.”

Daí então, Paulo uniu o útil ao agradável, ou melhor, usou o aprendizado para vencer a necessidade. O conhecimento adquirido na 'colinha' dos guias turísticos e na interação com as estátuas e bustos das figuras históricas espalhadas na cidade se tornaram seu ganha pão.

“Quando nós moradores de rua falamos de dinheiro, as pessoas já rotulam assim: 'oh, mais um neguinho querendo dinheiro pra fumar pedra, tomar cachaça, só que eles esquecem que eles também precisam de dinheiro pra comprar tudo, tudo.”

Sala de aula

A pedidos, a entrevista com o professor Paulo ocorreu na Travessa Raticlif, uma esquina de bares localizada no Centro de Florianópolis. Segundo Paulo, a Travessa é sua segunda sala de aula. Ali costuma abordar as pessoas e, em muitos casos, é reconhecido pelos frequentadores. Em poucos minutos, Paulo está ministrando suas aulas e, não raro, se despede da mesa com uma pergunta no ar, prometendo responder a questão na ‘próxima aula’.


“Essa aqui [A Travessa Ratcliff] é minha segunda sala de aula. Conheço o pessoal, é por isso que eu venho aqui, troco uma ideia, passo, interajo. Há três anos eu sobrevivo dessa rua aqui. Depois que a gente terminar a entrevista aqui, sabe o que eu vou fazer? Vou passar nas mesas tentando conseguir dinheiro pra comprar minha janta.”

Além das necessidades prementes de quem depende da rua para sobreviver, Paulo precisa organizar sua documentação para realizar seus sonhos. Tem dificuldades para acumular dinheiro suficiente para isso e um longo caminho a percorrer, mas sabe explicar perfeitamente o que quer.

 

 
“Eu aprendi uma coisa: o não do ser humano eu já tenho, então eu corro atrás de um sim. É por isso que, quando uma pessoa me fala não, eu corro atrás do sim de outra.”

Assim como os professores brasileiros, ensina por amor e não por grana. Sua maior ambição? Cursar uma faculdade de história!

 

“O que mais me gratifica não é a moedinha, não é o trocadinho, é alguém chegar e falar assim: 'Ganhei conhecimento'. 'Você trouxe algo bom para mim'.”

 

 

Texto: Nícolas Horácio, Maria Eduarda Mendes, Carla Nascimento

 

Fotos: Estopim Coletivo

 

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