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O Homem-gaivota

22 Nov 2017

"Com 726 quilômetros de extensão, a rodovia Osvaldo Aranha cruza o Rio Grande do Sul no sentido transversal leste-oeste. Na altura do quilômetro 522, a BR-290 é cortada por um arroio batizado pelos índios, como tantos na região. Com nascente na Serra do Caverá, o arroio Itapevi se integra a outros cursos d’água até escorrer para fora dos limites do Brasil. Início do século XX. Quase na fronteira com o Uruguai, no triângulo formado pelos municípios de Alegrete, Rosário do Sul e Cacequi, vivem Antônio Cândido Severo e sua esposa, Amazilia do Prado Severo. Na clareira de mata nativa que protege as águas do Itapevi, o agricultor, homeopata e curandeiro constrói a casa de pedra onde veria nascer nove filhos, três homens e seis mulheres (...)Primavera de 1930. (...) A notícia do recrutamento para reforço das tropas militares voa como rastro de pólvora pela campanha sulina. (...) Eurides Ignácio Antunes, filho do agricultor Antônio Ignácio Antunes e de Cândida Rodrigues Antunes, é um dos jovens convocados para sentar praça na Brigada Militar do Estado. Antes de partir, Eurides precisa despedir-se de Lahir, a namorada que vive com os pais Antonio e Amazilia, na casa de pedra à margem esquerda do arroio Itapevi (...)"

 

(LAVRATTI, Ana; Antunes Severo: O menino do arroio Itapevi, Ed. Insular, 2012).

 

 

Confesso que fico imaginando se a data do seu nascimento foi um daqueles dias em que se espalha pelo ar um clima de que algo extraordinário está prestes a acontecer, ou se tudo o que se sucedeu a seguir foi surpresa para aqueles que conviveram com ele no começo da sua caminhada. O fato é que, no dia 2 de agosto de 1932, veio ao mundo o único filho de Eurídes Ignácio Antunes e Lahir, então já viúva. Às margens do arroio Itapevi, cresceu o menino, e a despeito dos atritos e das confusões familiares, foi apelidado carinhosamente: Mozinho.

 

Radialista, jornalista, empresário e publicitário, hoje, é conhecido como Antunes Severo. Sem perder o cativante olhar e a humildade do menino de outrora foi ouvinte em primeira mão do suicídio de Getúlio Vargas, sócio fundador e diretor da A.S. Propague, professor de comunicação, marketing e vendas, e posteriormente coordenador dos cursos de pós-graduação na UDESC, chefe de gabinete na Secretaria de Imprensa e secretário de comunicação social do Governo do Estado de Santa Catarina, professor na UNISUL, na UNOESC, na UFSC, e coordenador do laboratório de Inovação e Marketing da ÚNICA (curso de administração da FESAG).  

 

Severo chegou à maturidade quase analfabeto e sem um único documento. Aos 30 anos, já empresário, fez questão de saber mais e aprofundar todos esses conhecimentos práticos. Aos 32, capacitou-se, prestou vestibular para Administração, concluiu a graduação em 1971, se especializou, em 1977, e fez mestrado em 2002 pela UDESC. 

 

Recordo, hoje, a reunião descontraída que tive tempos atrás com Antunes na Unisul, que me fez lembrar uma história que já li e reli umas tantas vezes. A de certa gaivota de nome Fernão. Ela põe na cabeça que voar não deve ser apenas uma forma de conseguir alimento e sobreviver aos predadores. O bichinho se fascina com a brincadeira de tentar acrobacias mirabolantes, a despeito do que pudessem achar ou desaprovar as outras gaivotas do seu clã.

 

Tomo Antunes como minha personificação do homem-gaivota. “Todas as coisas fáceis já foram feitas” – ele diz. Tomado pela paixão do voo, decola sua alma, guiando sua própria história de liberdade, aprendizagem e amor. Ao migrar para regiões de temperaturas mais amenas encontra em Florianópolis seu amor e sua pousada.

 

E é esse percurso que está escrito por Ana Lavratti no livro Antunes Severo: o menino do arroio Itapevi, uma biografia eternamente viva, que leio e releio com carinho. Um arranjado de acrobacias, voos rasantes, momentos de planagem, e a história de algumas das muitas gaivotas amigas que desbravaram a essência de voar ao lado de Antunes.

 

Cativaram-se, pois, como ele próprio diz: “O que serviu de solução pra mim, as escadas, os caminhos, não serve pra vocês”. E completa: “Porque se nós fossemos todos certinhos não estaríamos aqui agora, estaríamos numa caverna. Teve que aparecer um louco, filha da puta, peitudo, pra lutar contra o leão. Somos todos loucos, somos poetas, e é assim que se faz a diferença, que se evolui”.

 

Para quem, ao ler esse texto, pensa em pássaros e voos, digo: não é disso que pretendo, de fato, falar. Ou talvez, seja exatamente sobre isso. De uma forma ou de outra, recomendo que deixe passar um tempo e torne a ler para que esses escritos possam significar algo novo, de novo, e de novo. Finalizo com palavras do próprio homem-gaivota:

 

“Uma grande coisa da vida é que eu nunca fiz cesariana nas minhas ideias, elas sempre nasceram ao natural. Se tem força pra nascer, ela vai ser boa”.

 

A você, leitor, deixo meus sinceros desejos de ótimas – ou não tão boas assim, porque na adversidade também se aprende – condições de voo!

 

 

 

Foto:

Thaís Teixeira

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