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Ícaro and the Black Stars em Florianópolis

 A atriz Cássia Raquel, a Jenny Suppernova em Ícaro and the black Stars

 

Florianópolis não é uma cidade efervescente em termos culturais. Fica bastante atŕas de outras capitais, como o Rio de Janeiro, que tem 19 teatros apenas no Centro, enquanto a capital de Santa Catarina tem apenas três ativos: CIC, TAC e Pedro Ivo. No último final de semana, em um desses recantos onde a cultura resiste, o Estopim assistiu a um espetáculo intergalático, com foco em música preta: "Ícaro and the Black Stars".

 

O musical estreou em 2018 e é bastante marcado por seu mote: ressaltar a trajetória e os sucessos de artistas negros em diferentes épocas. E tudo começa lá em cima, com "I feel good", seguida de uma apresentação animadora dos artistas presentes no palco.

 

Dançante, provocativo e engraçado, o musical foi encenado com elenco reduzido em Florianópolis, com o Ícaro Silva, Cássia Raquel e Hananza nos microfones, além de um baterista e uma DJ.

 

Ícaro and the black stars é um tapa com luva de pelica no preconceito e nos retrocessos sociais. Possui um texto totalmente político, mas nada agressivo. 

 

A lista de artistas homenageados no espetáculo é imensa. Um mix de canções estrangeiras e brasileiras que vai de James Brown a Bob Marley, de Tim Maia a Beyoncé, passando por Marvin Gaye, Aretha Franklin, Wilson Simonal e por aí vai.

 

Trazido para Florianópolis pela C5 Produções, Ícaro And the Black Stars viaja o Brasil reforçando o talento de homens e mulheres negras na música e deixando o recado: "Eu sou preto com orgulho!"

 

No final do primeiro dia da apresentação em Florianópolis, o Estopim conversou com a atriz Cássia Raquel. Ela falou sobre o espetáculo, as recentes mudanças na Funarte com o governo Bolsonaro e os impactos delas na classe artística.

 

Estopim Coletivo: Qual é a simbologia desse musical? Gostaríamos que explicasse o caldo dessa montagem.

 

Cássia Raquel: Exaltar os artistas negros, a música negra, a cultura negra como um todo, sem necessariamente falar das coisas ruins que aconteceram. 

 

As coisas ruins se tornam piada, então, a gente só eleva, fala bem, acaba priorizando o que é bom: a nossa cultura, a nossa música, a nossa comida, os países que são majoritariamente negros e, como o Brasil é tão misturado, tem essa base e nem sempre é tão falada, nem sempre é tão colocada. 

 

Na verdade, é muito pouco falada e demonizada. Aqui, a gente coloca como um trunfo, um prêmio, celebra os artistas, tanto os que estão vivos, quanto os que partiram, mas deixaram um mundo de músicas para nós, que todo mundo ouve, que todo mundo copia. 

 

O próprio Michael Jackson, muita gente se inspira nele, então, acho mais do que justo, a gente que tem isso dentro de si, no nosso sangue, literalmente, exaltar.

 

Estopim: Vocês já estiveram em Florianópolis antes? Como fazem as escolhas das cidades para as apresentações?

 

Cássia: O musical não, mas nós já estivemos em outros trabalhos. A escolha das cidades é dos patrocinadores. A gente tem preferência por algumas cidades, onde a gente sabe que tem produções mais legais, teatros com infraestrutura ou até mesmo um público que vai entender melhor, porque a nossa peça é muito política.

 

A gente sabe o risco que a gente corre, mas quem conhece a nossa história, quem acompanha a nossa carreira, sabe também as nossas posições individuais. Se as pessoas veem só pelo que somos na TV, talvez possam levar um choque, mas também é importante esse choque, ainda mais pela forma como é dita.

 

Não é para ser um soco, não é para ser 'me engole', mas é a realidade, perceba!

 

Estopim: Como você acha que o teatro e as artes podem contribuir para as reflexões politicamente no Brasil?

 

Cássia: Na verdade, arte e cultura, de modo geral, servem para isso. Eu não acho que tudo é arte, mas qualquer tema a gente pode abordar através da arte, como a política, como a nossa cultura afro-brasileira e é uma pena que, hoje, a gente tenha perdido muito dos investimentos, da valorização, aliás, no Brasil nunca foi muito valorizado, agora, diminuiu mais ainda e a gente está resistindo.

 

Fazer esse tipo de espetáculo, em uma turnê, é quase um milagre. Não estamos com a equipe completa, nem todos os músicos estão aqui. Talvez o público que não conheça o espetáculo não sinta tanto, mas a gente que está acostumada com o molde dos arranjos, sente muita falta.

 

Agora vamos para Salvador, depois, Ribeirão Preto e também vamos fazer uma temporada em São Paulo, com valores possíveis para que a galera de todas as idades e todas as economias possam estar incluídas e se sintam a vontade. 

 

Estopim: O governo Bolsonaro pretende mexer na Ancine e, com isso, na produção cinematográfica no Brasil. Acha que mudanças como essa podem chegar ao teatro?

 

Cássia: Já mudou, o nosso novo diretor da Funarte, que é declaradamente apoiador [do governo Bolsonaro] já mexeu em muitas coisas e falou que ainda vai mexer.

 

É ameaçador, é um pouco tenso para a gente. Para mim, é contraditório ser artista e não ser uma pessoa que está ali na frente, brigando pela sociedade como um todo. Às vezes, as pessoas acham que arte é apenas entretenimento, festa, só veem o lado glamouroso, não veem o lado do investimento, o lado educacional, então, para mim, a gente já está no apocalipse.

 

Estopim: O que está acontecendo, por exemplo?

 

Cássia: Muitos espetáculos com temáticas mais esquerdistas - vamos dizer assim - não vão ser aprovadas. Espetáculos que necessitam de um investimento muito maior, de um patrocínio grande, não vão acontecer, porque o teto da Lei Rouanet reduziu e mal paga o aluguel do teatro.

 

Nós já estamos sentindo, eu estou sentindo nos cachês, por exemplo. Estamos vencendo, está sendo muito milagroso. No Rio de Janeiro, esgotamos todos os dias, isso não acontece, então, a gente tá sentindo, mas vai resistindo.

 

Temos visto também muitos artistas interessados em fazer custe o que custar. Eu tenho assistido espetáculos e os melhores, inclusive, são mais simples, de galera que está se doando.

 

Estopim: O que achou da vinda para Florianópolis?

 

Cássia: Estou muito feliz que deu certo. Vimos muitos negros aqui também, eu quero negros na plateia, no palco, negros envolvidos com tudo. 

 

Eu falo muito no blog que eu comecei recentemente, estou fazendo uma série de vídeos chamado "Doses de Loucura", onde falo sobre algumas coisas contemporâneas e em uma delas eu falei: não quero continuar sendo a única ou uma das únicas no palco como negra e se alguém me convidar para fazer um espetáculo, o público não fique perdido tentando encontrar outras negras.

 

Ter um espetáculo majoritariamente negro, que fala do negro e de uma forma alegre, é muito especial. Sinto-me muito honrada, estamos enfrentando tudo isso juntos, mas com uma equipe que tem pensamentos parecidos é mais fácil.

 

 

Reportagem e entrevista:  Letícia Dorneles e Nícolas Horácio.

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