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Farra do boi: tradição ou barbárie?

14 Sep 2017

Reportagem: Bianca Taranti e Nícolas Horácio

 

O esforço de ativistas que atuam na defesa animal é um alarmante fenômeno social dos tempos atuais. Um abismo de diferença separa quem realiza campanhas para combater a prática de maus tratos aos animais e os adeptos do veganismo, que não consomem nenhum alimento de origem animal. Entretanto, todos eles, comungam uma característica: amam os animais e entendem que eles também têm direito à vida. Também sobre eles, pode-se colocar uma expectativa: devem ser contrários a cultura da farra do boi.

 

Esta reportagem especial foi trabalhada durante cinco meses. Da concepção da pauta à última edição no texto, 145 dias correram no calendário juliano. Foi preciso muita persistência no trato com assessorias de imprensa, ou você acha que todo e qualquer assessor confia seu chefe às entrevistas do Estopim? Nana, nina, não!

 

Resolvemos dividir a publicação em três partes, assim como fizemos na apuração, pisando em três diferentes lugares, dois deles antes impensados: o Quartel do Comando Geral da Polícia Militar de Santa Catarina (PMSC), no 549 da rua Visconde de Ouro Preto no Centro de Florianópolis e a sede da Companhia Integrada de Desenvolvimento Agrícola de Santa Catarina (Cidasc), no 1.588 da Admar Gonzaga no Itacorubi. Mas ninguém é de ferro e conseguimos ouvir uma das nossas fontes, a advogada e ativista Barbara Hartmann, no Tralharia Antique bar e café, 104, da Nunes Machado, Centro de Florianópolis.

 

Como nem tudo é perfeito, fizemos adaptações na ideia inicial. O conflito que pretendíamos apresentar inicialmente era entre aqueles que defendem a prática como uma tradição típica dos açorianos e os que querem garantir o bem estar e proteger os animais, até mesmo em juízo e, se necessário, de madrugada. Não conseguimos! os farristas relutaram muito em falar, afinal, estariam narrando a prática de um delito.

 

Apresentando ocorrências durante todo o ano, em especial nos meses de março e abril, a farra do boi é uma prática recorrente mesmo sendo um crime previsto em lei desde 1997. Por isso, continuamos a apuração e, enquanto produzíamos a reportagem, outro conflito atravessou nossos olhos.

 

De um lado a Cidasc, com a posição do abate imediato dos bois apreendidos na farra sem identificação. Do outro os ativistas com a bandeira da defesa animal. Como intermediária a instituição policial, incumbida de dar guarida ao trabalho da Cidasc, enquanto alguns policiais militares questionam o sacrifício dos animais na maioria dos casos.

 

A ação dos ativistas

 

A intensificação do ativismo nas redes em prol da causa animal e os inúmeros registros de violência animal dos nossos tempos inspiraram a reportagem especial "Farra do boi tradição:ou barbárie?" É intrigante ver que alegando preservar um hábito da cultura e da tradição açoriana um grupo de indivíduos se encoraje a irritar, perseguir, ferir e condenar um boi a morte.

 

 

Segundo a Polícia Militar de Santa Catarina, em 2017, foram registrados, até o final de junho, 38 ocorrências de farra do boi em todo estado. A cidade de Governador Celso Ramos lidera o ranking, seguida de Porto Belo, Florianópolis, Itapema, Bombinhas e Garopaba. A farra do boi é realizada nas cidades litorâneas do estado por se tratar de uma herança cultural dos açorianos. Prática intensificada no período entre a Quaresma e a Páscoa, a farra consiste em soltar um boi em uma área cercada e provocá-lo, persegui-lo à exaustão e em, alguns casos, feri-lo.

 

“O ano de 2017 superou a quantidade de ocorrências do ano passado. Nós tivemos mais trabalho da polícia, fizemos mais barreiras. Em 2016 a gente fez só barreiras, não fez a incursão, que nos permite prender mais pessoas. A posição do comandante foi que além das barreiras, deveríamos fazer as incursões”, explica o Ten. Cel. Sandro Nunes da PMSC.

 

Cientes de que agem fora da lei, farristas arrancam os brincos de identificação dos bois para dificultar o reconhecimento da origem dos animais e as pessoas envolvidas na organização da farra. Nesses casos, a Cidasc, órgão responsável pelo controle sanitário no estado, entende que a única solução para manter o estado livre de doenças é o abate do animal. Por outro lado, ativistas propõem outras formas de ação, alegando que os animais têm direito à vida e devem ser examinados em vez de mortos.

 

 

As ocorrências de farra do boi são mais comuns nos meses de março e abril, mas elas acontecem em todos meses do ano, com menor frequência e até em datas comemorativas sem nenhuma relação direta com a tradição, como o dia das mães. A faixa etária dos que mais se envolvem na farra do boi está em torno de 25 a 34 anos, sendo que o horário de pico é entre meia-noite e duas horas da manhã.

 

Mas até que ponto machucar e torturar um animal indefeso é uma tradição que deve ser preservada? Neste ano, essa questão ganhou as redes no restante do país depois do surgimento do Coletivo Brasil Contra a Farra do Boi, criado por ativistas da causa animal com a intenção de espalhar informação na internet e combater a prática da farra do boi.

 

Se por um lado muitas pessoas insistem em realizar a farra do boi, por outro, muitos ativistas se articularam para combatê-la. Contrários a forma de atuação da Cidasc, os ativistas estão organizados no estado buscando mudanças. Além do estímulo às denúncias das ocorrências por parte dos cidadãos, eles também atuam na pressão ao poder público para que haja uma revisão do procedimento padrão de sacrifício dos bois apreendidos na farra do boi.

 

“A Cidasc é um órgão de defesa sanitária, só que hoje, não tem como ser ignorada a questão animal. Não pode um órgão estatal focar somente na defesa sanitária e não ver o animal como um ser que tem direito à vida. A Cidasc precisa se atualizar com urgência na questão de bem-estar animal e não somente isso, mas também a própria vida do animal. O Brasil é signatário da convenção internacional dos direitos dos animais. Temos ainda o artigo 225 da Constituição Federal, que trata do direito ao meio ambiente, do qual os animais fazem parte, então, implicitamente, os animais estão inclusos na Constituição”, afirma Barbara Hartmann.

 

 

A referência da Cidasc para o abate do animal é o brinco de identificação. Sempre que um animal apreendido na farra não possui o brinco, o mesmo é sacrificado para evitar a difusão de eventuais doenças. Através do brinco, a Cidasc consegue saber a idade, o sexo e as propriedades rurais por onde o animal passou.

 

“Os animais resgatados, por uma questão sanitária, são sacrificados porque a gente não tem a origem estabelecida. Os farristas não emitem documentos sanitários, eles tiram os elementos de identificação dos animais para que não seja identificada a origem do animal. Santa Catarina trabalha a identificação de todos os bovinos, porque o estado tem uma situação diferenciada para algumas doenças e a gente tem que garantir a sanidade destes animais, inclusive da população”, defende o gestor da Cidasc, Marcos Vinicius.

 

 

Brasil Contra a Farra do Boi

 

A criação do Coletivo Brasil Contra a Farra do Boi propiciou uma série de denúncias, gerando pressão e subsídio a Polícia Militar de Santa Catarina, que atua na repressão às ocorrências de farra.

 

“O Coletivo Brasil contra a Farra do Boi foi uma movimentação nacional com foco nas farras de Santa Catarina. A farra é uma prática da Grande Florianópolis e as pessoas do restante do Brasil não sabiam o que acontece. A polícia sempre fez vista grossa e os farristas são criminosos, eles ameaçam as pessoas. Com a criação do coletivo, o Brasil inteiro ficou sabendo o que acontece por aqui”, explica Barbara Hartmann.

 

Quando alguém aciona o coletivo porque ficou sabendo ou desconfia da possibilidade de realização de uma farra, o grupo divulga a denúncia e os seguidores começam a ligar para a polícia a fim de que atuem na ocorrência e impeçam a ação dos farristas. Segundo os ativistas, mais de 30 ocorrências foram evitadas em função de denúncias feitas através do trabalho dos ativistas.

 

"Nós estamos com um trabalho junto de quem está tentando reverter para que o animal não seja abatido. Muita vezes quando o animal é conduzido mesmo em situações precárias, as ONG's entendem que é possível recuperar os animais, dando as vacinas necessárias. Mas a Cidasc já foi bem clara em dizer que isso é quase impossível, porque o próprio animal se não tiver todas as vacinas durante todo o tratamento, durante os períodos certos e nos momentos certos, ele permanece contaminado”, aponta o Ten Cel. Sandro Nunes.

 

Na segunda parte da reportagem especial "Farra do boi: tradição ou barbárie?" , o Estopim mostrará o trabalho do poder público na conscientização em escolas e nas comunidades e as ações de repressão a farra do boi.

 

 

Ilustração:

G. Pawlick / Estopim Coletivo

Fotos:

Ramiro Furquim / Estopim Coletivo

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