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aMaria

18 Apr 2017

 

 

Partiu-se o coração.

Comprou passagem e foi embora.

O corpo, largou em falência,

atravessando o pranto sem demora.

 

Correu à estação,

pulou pela boca a fora.

E o peito, em urgência,

gritou: E agora?!

 

I

 

Parece-me tão leve

o peso de teu coração.

Parece-me tão bonita

essa tua ingênua aflição.

 

Vista de fora

em prantos no colchão

ouço gritos em teu tórax

em vez de pulsação.

 

Fugiu! - correu ao longe - 

Foi embora o teu coração.

E, antes mesmo que perguntasses, por quê?

sumiu de ti na multidão.

 

O entregastes por inteiro,

- Eu sei. Foi sem intenção -

acabando por perdê-lo,

arremessado por outra mão.

 

II

 

Mas não chores

pois logo volta tua paixão.

Vem de cara e rosto novo,

vem calejado de decepção.

 

Volta vivo e meio murcho

- retorna roto em mansidão -

Pulsando pouco,

ainda com medo da atração.

 

Vem carente de afeto,

afetado de frustração.

Volta ao vazio de teu peito

teu infante coração.

 

Vem sensível a volúpia

de tua pele em hibernação.

Onde cada toque é torniquete

em teu cárdio em aflição.

 

Vê um colo em qualquer coxa,

vê no mundo uma opção.

Opção de estar perdida,

de carregar o peito na mão.

 

III

 

Anda assim de palma estendida

esperando que adotem teu coração.

Enquanto em ruelas e bares da vida,

afoga-o no copo sem consideração.

 

Vai vivendo a calejá-lo

já que os outros também o farão,

brincando de esfolá-lo

sem saber que deixas frágil teu coração.

 

Cavas as costelas para despetalá-lo

entre o mal e o bem querer.

Escavas o músculo a despelá-lo 

procurando a raiz de teu sofrer.

 

Mas teu peito é flor colhida,

ceifada na sacra paixão,

e depois então esquecida.

Morta, sem do caule a extensão.

 

É sepultura infértil,

solo seco em solidão.

É um deserto em eco

das histórias que não contarão. 

 

Vai vagando a procurá-lo,

o ramo de tua desiludida paixão,

mas não há mais raiz a segurá-lo

no chão morto de teu peito vão.

 

Reviras a cova para resgatá-lo,

teu pobre cárdio em decomposição.

Mas há de ter merda para germiná-lo,

para parir do podre a floração.

 

IV

 

Faz de teu peito arado,

cavas fundo na desilusão,

pois logo mais dará errado

e morrerá outra paixão.

 

O ramo de amor é fraco,

- Não sobrevive na solidão - 

dá um frágil fruto

que mal aguenta a pulsação.

 

De um tom opaco

as novas flores nascerão,

pois, a cada baque bruto,

perde a cor tua plantação.

 

Mas não faças amuradas,

não protejas teu coração.

Ora outra serão tomadas

as terras secas de tua afeição.

 

 

V

 

E quando assim for

deixe livre a pulsação,

deixe que estoure em teu peito

os rebentos em emoção.

 

Que entre em teu olho desnudo

as feições de um novo querer,

ocupando mais que tudo,

para que voltes a florescer.

 

E, às tuas terras,

declare rendição,

deixe os campos abertos

para livre consumação.

 

E se teu peito contudo,

mais uma vez, devastado for,

não levantes de novo escudo

sinta o vazio de tua dor.

 

Coração não é um órgão bruto,

foge quando imagina sofrer,

deixa-te só em absoluto

enquanto busca novas sementes para florescer.

 

 

Ilustração:

G. Pawlick / Estopim Coletivo

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