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A devastação do território sírio e o terror no mundo

18 Jul 2016

 

A diferença de interesses entre a Rússia e Estados Unidos provoca a mais terrível derrama de sangue, preocupação e desespero em todo mundo. O maior número de vítimas? Inocentes. O território da Síria está em frangalhos. Uma parte segue sob o braço firme e o governo do ditador Bashar al-Assad. Outra grande fatia está dominada pelo grupo terrorista autodenominado Estado Islâmico. A guerra na Síria mata os civis desse país por meio de balas e explosões, mas também os coloca em risco na travessia por mares para chegar à Europa.

 

O Estado Islâmico espalha terror e sofrimento em todo mundo e o faz de diferentes maneiras. No confronto com o ditador sírio, promove a destruição de um país, provocando a crise de refugiados que a Europa, sozinha, não consegue resolver. Como se não bastasse, o Estado Islâmico explode sua violência em locais públicos e com grande aglomeração de pessoas principalmente nos países europeus. Agora, consegue também cooptar com facilidade novos adeptos com passaporte europeu, criando inimigos internos e nefastos.

Neste cenário, o Reino Unido resolve sair da União Europeia por meio de um plebiscito e o primeiro-ministro David Cameron renuncia ao cargo. Os militares tentam um golpe contra o presidente turco Recep Tayyip Erdogan e, no Brasil, a manobra que afastou Dilma Rousseff da presidência pelas farsas da justiça impede que o país exerça seu importante papel de diálogo e promoção da diplomacia no mundo.

 

Na visão do professor de relações internacionais Baltazar Andrade Guerra, se o Brasil voltasse seu foco para a política internacional, recuperaria sua credibilidade no exterior. Somos detentores de muita popularidade na comunidade internacional, mas a crise política e econômica manchou nossa imagem. Há pessoas delegadas para sanar os problemas internos e eles parecem bastante concentrados nisto. Mas e o Itamaraty de José Serra, saberá agir globalmente?

 

E quanto aos demais países do mundo e as Nações Unidas, por que não intervém no processo de degradação da Síria? A resposta é simples e indignante: Rússia e Estados Unidos têm interesses distintos no conflito. Os EUA querem o fim do regime de Bashar al-Assad com o qual a Rússia está alinhada e as duas superpotências possuem poder de veto no Conselho de Segurança das Nações Unidas. Sendo assim, o impasse é a carta branca para mais mortes.

Enquanto isso, o Estado Islâmico se estende por boa parte do território da Síria, domina outra fatia considerável do território iraquiano, provoca uma crise imigratória sem precedentes nas costas europeias, desespera ainda mais o povo grego, assombra e mata belgas, ingleses, turcos e dilacera os franceses imaginando puni-los. Nesta entrevista especial ao Estopim, o professor Baltazar Guerra aprofunda e explica tais questões. Tenta acender os olhos dos brasileiros para a questão internacional e reclama uma solução global para o fim do conflito na Síria.

 

<  A ENTREVISTA >

➤ Qual a origem do conflito na Síria?

 

Baltazar Andrade: Acredito que haja duas principais causas. A primeira, são os conflitos no Iraque. A segunda guerra do Golfo desestabilizou toda a região, começando logicamente por criar uma espécie de vácuo de poder no Iraque, que é incapaz de controlar suas fronteiras e garantir a segurança interna, o que em boa verdade se limita quase ao controle de 60% do território já que uma parte substancial do Iraque está hoje controlado pelo autodenominado Estado Islâmico. Somando a instabilidade no Iraque com o movimento da Primavera Árabe, tivemos aí o início da contestação ao regime do presidente Bashar al-Assad, que levou a uma situação na Síria que é bem complexa em termos de poder.

 

Hoje na Síria, há uma parte do território que é controlada ainda pelo governo do presidente, uma parte grande do território, algo em torno de 30% a 40% está nas mãos do Estado Islâmico, esse percentual vem diminuindo graças a ação quer dos EUA, quer da federação Russa, que tem ajudado o governo do presidente a reconquistar seu território.

Há uma outra parte do território da Síria que está controlada por grupos rebeldes, que também lutam contra o presidente e ainda uma parte que é verdadeiramente uma terra de ninguém. A Síria é hoje um território verdadeiramente fragmentado.

 

➤ Então de um lado temos um ditador e do outro grupos rebeldes e o Estado Islâmico lutando por que exatamente?

 

Baltazar: É difícil vislumbrar nesse conflito algum grupo democrático. É um cenário em que não há bons, porque as duas maiores forças em conflito são um governo ditatorial e o Estado Islâmico, que é um grupo terrorista.

 

Nas forças rebeldes também não conseguimos francamente identificar uma liderança pró-democracia. Basicamente no território, hoje, temos uma situação terrível de guerra civil, uma verdadeira tragédia humanitária. Temos milhões de refugiados, o número de mortes estimadas é monstruoso, algo que varia entre 300 e 400 mil pessoas. É uma situação de verdadeiro caos.

 

➤ A perspectiva então não é positiva nem de um lado nem de outro?

 

Baltazar: Não. Demandaria uma intervenção sob a tutela das Nações Unidas e que obrigaria uma missão de paz no território. Seria desejável reunir esforços tanto dos EUA, quanto da federação russa e de outras nações europeias e do mundo árabe, porque há ali um trabalho que eu acredito que seja de pacificação, mas ao mesmo tempo de construção do estado.

 

É necessário haver um esforço de reconstrução nacional a desestabilização da região é tão grande, que sem uma intervenção de força de paz, não vejo que seja possível um acordo entre os grupos em disputa, principalmente os rebeldes e o governo. No caso do Estado Islâmico, é tratado como um grupo terrorista e basicamente aquilo que terá que ser feito é que o grupo terá que ser “eliminado” e seus membros levados a justiça, porque são uma ameaça a toda estabilidade do sistema internacional.

 

➤ A Primavera Árabe é um movimento que derrubou diversos ditadores. Por que o ditador Sírio Bashar Al Assad resiste com tanta força?

 

Baltazar: Provavelmente porque o governo sírio era mais forte e centralizador do que o governo no Egito, na Líbia, no Iêmen e também porque não é possível dizermos que não haja apoio popular ao presidente. Há uma parte da população que suporta o governo sírio, caso contrário, ele já teria caído.

 

 

 

➤ Que parte seria esta?

 

Baltazar: Os grupos protegidos pelo governo. É uma espécie de classe de estado que, em boa verdade, estava confortável com o establishment sírio.

 

➤ As bombas não explodem ao lado das casas deles?

 

Baltazar: Não, não explodem e a capital tem se mantido como um espaço de relativa estabilidade. Esse é um ponto e o segundo é o apoio da federação russa.

 

➤ Rússia e EUA estão diretamente envolvidos com a permanência do conflito?

 

Baltazar: Claro, as superpotências projetam seu poder em todo espaço do sistema internacional. Elas estão claramente envolvidas. Os EUA numa posição menos clara do que a Rússia, que apoia abertamente o governo do presidente.

 

Os EUA, inicialmente, queria evitar que houvesse uma escalada do conflito e que se chegasse a essa situação tremenda, mas não houve um apoio declarado a uma das partes. Houve apoio dos EUA a grupos rebeldes, mas foi um apoio relativamente discreto na sua dimensão, mas não foi discreto na condenação do regime de Bashar al-Assad. Não houve, porém, apoio militar expresso aos grupos rebeldes e a condenação dos EUA ao Bashar aconteceu no Conselho de Segurança das Nações Unidas, como nesse conselho tanto EUA como Rússia têm poder de veto, chegamos a um impasse.

 

Com esse impasse, um diplomata, se não me engano europeu, usou a seguinte expressão: a não solução do conflito no Conselho de Segurança das Nações Unidas deu a Bashar e aos rebeldes uma espécie de licença para matar. Não havendo consenso entre as superpotências, o regime de Bashar ficou mais ou menos livre para continuar a guerra civil e não chegar a um acordo de paz. Tanto o governo, quanto os rebeldes. Dos dois lados eu só vejo vilões, não há mocinhos.

 

Quando chegamos a uma situação como esta, temos um país arrasado, um estado falido e temos hoje uma gravíssima crise na União Europeia, que é a crise dos refugiados, onde 73 % dos refugiados a chegarem as costas da Europa são sírios e iraquianos, nós vemos de fato que as causas dessa tragédia humanitária que estamos a viver, infelizmente estão na segunda guerra do Iraque e na “falência” do estado sírio.

 

➤ O senhor já citou um impasse que basicamente é protagonizado por EUA e Rússia. E diante disso, aos olhos do mundo, o conflito não se resolve? Vai ficar tudo assim mesmo?

 

Baltazar: O problema de nós termos um mundo onde o Conselho de Segurança das Nações Unidas ainda tem um papel fundamental, como teve durante a Guerra Fria, e onde existem duas potências com direito de vetos a ele, não havendo consenso, não há pressão clara sobre o governo sírio, não há envio de tropas para o local, não há autorização para intervenção externa. Sem um acordo claro entre os EUA e a Rússia eu não vejo uma solução fácil.

 

➤ E eles parecem interessados em fazer um acordo, ou ao menos sentar para conversar?

 

Baltazar: Sentar para conversar já fizeram, agora, não parece que a federação russa vá fazer uma condenação clara de Bashar al-Assad. Não parece que haja desalinhamento entre Rússia e governo Sírio. E os EUA sozinho não têm capacidade para forçar um acordo de paz entre o governo sírio e os rebeldes. Infelizmente não me parece que as relações entre EUA e Rússia estejam alinhadas para chegarmos a um acordo de paz.

 

E o problema se agrava dia a dia. Agora estamos no verão europeu e isso quer dizer que vamos ter aumento do número de refugiados a chegarem a costa Europeia. O continente vive o segundo ano dessa crise de refugiados, sem uma solução a vista. Não é de se esperar que enquanto tivermos guerra na Síria e o Estado Islâmico tão forte na Síria e no Iraque, as pessoas não tentem fugir em busca de segurança.

 

➤ Por que alguns países da Europa fecham as portas para as pessoas?

 

Baltazar: Estamos a falar de um movimento de milhões de pessoas, imagine o que é administrar uma tragédia humanitária desta dimensão. As portas de entrada para a Europa hoje são o Sul da Itália, a Grécia, A Turquia, são países que estão em situações econômicas delicadas. A Grécia está no seu 7º ou 8º ano de crise profundíssima. O PIB grego nos últimos anos diminuiu mais de 30% então como é que vamos esperar que um país como a Grécia, que está com praticamente 30% de desempregados, vai poder acolher um movimento de centenas de milhares de pessoas que chegam sem nada em suas costas? O problema, a meu ver, já deveria ter sido levado pela Europa às Nações Unidas.

 

O problema dos refugiados não é só europeu. É uma situação que resulta da “falência” do Iraque e da Síria. Esses dois estados faliram por razões que não têm diretamente a ver com a Europa, que está a viver hoje um problema que não é resultado de uma ação sua. Uma ação de terceiros provocou um impacto na política, na segurança e na economia europeia e ela tem tentando reagir da melhor forma possível. Nos últimos anos, a Alemanha recebeu mais de um milhão de refugiados. Alguns países têm tido uma ação muito generosa, mas volto a dizer: há um fluxo migratório tão grande, que é difícil de ser gerido.

 

➤ O senhor entende então que certos países da Europa fechem suas portas?

 

Baltazar: Não, não entendo. Eu sou um democrata liberal. Sou a favor de um mundo onde as pessoas se preocupem com direitos humanos. Nós não podemos virar as costas para um problema como este dos refugiados. Mas é um problema que não deve ser administrado a nível de Europa, acho que tem que ser administrado a nível das Nações Unidas. Nós não podemos dizer que essa questão tem que ser administrada por França, Alemanha, Inglaterra, Portugal… Essa questão tem que ser administrada por EUA, Rússia, Brasil e pelo mundo Árabe.

 

Uma das questões que nós poucas vezes pensamos é a seguinte: qual é o papel do mundo Árabe neste conflito? Onde está a solidariedade da Arábia Saudita? Dos Emirados Árabes Unidos? Onde é que estão os países árabes, quando estamos a falar de um problema que está a acontecer no mundo Árabe? onde é que está a colaboração deles num problema tão grave? Onde eu acho que a Europa tem que ter um papel fundamental e a Europa tem estado mais uma vez a desempenhar esse papel, mas é uma Europa complicada. Estamos a falar de 28 países e em alguns deles, a população tem reagido de forma muito contrária a recepção de mais refugiados.

 

Recentemente, tivemos o Brexit. Umas das razões principais para as pessoas terem votado no Reino Unido a favor da saída da União Europeia foi por causa dos refugiados, porque as pessoas têm medo. Acham que as causas da perda dos seus empregos são os imigrantes; Acham que eles vão trazer problemas de segurança e esse medo é infelizmente justificação para coisas tão absurdas, como uma parte das pessoas do Reino Unido terem votado pela saída da União Europeia. E se pensarmos que na Inglaterra tivemos um ataque da Al-Qaeda, um ataque do Estado Islâmico; Na França os ataques do ano passado, o sentimento de insegurança, associado ao radicalismo islâmico é muito presente nas sociedades europeias.

Falei com amigos meus que são cientistas na Inglaterra e eles dizem que na mente deles está absolutamente claro que a dúvida não é se haverá outro atentado terrorista na Inglaterra. A dúvida deles é: quando haverá? Esse sentimento é presente em ingleses, franceses, belgas, onde houve atentados mais recentes. Esse medo, para nós, que estamos aparentemente distantes, às vezes parece irracional, mas o dia a dia dessas pessoas os leva a comportamentos que nós julgamos mal. Parece xenofobia e racismo, não vou dizer que não seja, mas acima de tudo a causa é medo e insegurança

 

➤ O senhor falou há pouco que era uma irracionalidade, mas não lhe parece na verdade um gesto humano instintivo?

 

Baltazar: É uma coisa terrível. Todos nós achamos que os direitos humanos são um mínimo civilizacional. Se alguém está num espaço de guerra e foge, teria direito a ser acolhido em outro espaço. Isso parece que é o mínimo. Mas, num ambiente como a França, é difícil esperar que as pessoas não tenham medo. Estão realmente assustadas.

 

Quando ouvimos relatos de que o Estado islâmico tem conseguido cooptar jovens nos países europeus com facilidade, é também uma informação assustadora. Quando vemos quem foram os responsáveis pelos últimos atentados terroristas, na maioria, são cidadãos do próprio país onde foram realizados. Os atentados na Europa têm como protagonistas criaturas com passaporte europeu. O inimigo é alguém que está dentro, foi educado em Lisboa, Londres, Paris.

 

Outra coisa que tem sido terrível é que temos assistido, nos últimos tempos, a um foco do terrorismo nos soft targets, [alvos fáceis em português]. Ninguém quer atacar uma base militar, um barco, um avião. Os ataques de agora ocorrem onde se aglomeram muitas pessoas. Ataques em restaurante, em jornais são ataques em locais onde as pessoas estão completamente indefesas e onde é difícil garantir a segurança.

 

➤ E o Brasil, que costuma ser solidário a países com dificuldades, a gente tem por exemplo o caso do Haiti, onde tivemos participação efetiva do exército. Como o Brasil tem se comportado na questão da Síria?

 

Baltazar: O Brasil tem na sua política externa aquele bom princípio da promoção da paz. Nós temos desempenhado um papel bom para nossa dimensão. Com certeza podemos nos envolver mais. A nossa imagem internacional é muito boa e isso dá ao Brasil um capital para se envolver mais em mediação.

 

O Itamaraty pode fazer mais e melhor. Nas questões de segurança, nós sempre fomos claros. Nós sempre condenados o terrorismo, a violência, os conflitos. Nunca houve um equívoco na política externa brasileira no que diz respeito a conflitos. Em relação aos refugiados, o Brasil pode ser mais ativo, colocando-se a disposição para receber pessoas.

 

➤ Tem recebido, não é?

 

Baltazar: Tem recebido, mas no diálogo com a Europa pode contribuir mais com a globalização desta discussão. Na minha visão, a Europa tem um fardo gigantesco nos últimos dois anos com a questão dos refugiados. Esse problema tem que ser revolvido globalmente.

Num diálogo entre o ocidente e Rússia, o Brasil pode ter papel fundamental, porque é parceiro da Rússia nos BRICs. Nós podemos ajudar mais a desanuviar as relações internacionais, criar mais pontes pró-diálogo. Não vejo que seja possível solucionar a questão dos refugiados contando só com ocidente e EUA. Nós temos que envolver a Rússia, a China, a Índia, a África do Sul e o Brasil pode ser mediador nesse diálogo.

 

São coisas que contam a favor do Brasil, principalmente no momento que vivemos essa crise econômica. Fazer uma diplomacia de aproximação entre blocos, entre países, fazer uma conferência reunindo o ocidente e os BRICs, estabelecendo pontes, acho que é muito produtivo e possível para nós.

 

➤ Mas olhando o cenário atual e a instabilidade política e econômica do Brasil vemos um governo interino. O senhor acredita que o Brasil avance na questão internacional ou nem conseguirá enxergar a questão?

 

Baltazar: Até agosto teremos definida a situação política para os próximos dois anos. Seja qual for o governo, precisaremos fazer um esforço para readquirir a credibilidade internacional. A imagem do Brasil foi muito maculada por esse processo. Pouca gente com quem eu falo no mundo inteiro entende o que nós passamos. Mesmo os diplomatas que estão no nosso país têm dificuldade para entender o que se passa. As instituições brasileiras continuam funcionando, mas é realmente uma situação difícil de ser explicada.

 

Não acredito que os Jogos Olímpicos tragam algum ganho de reputação, ou alguma vantagem para a nossa imagem internacional, porque no momento em que estamos em crise tão grande, tudo aquilo que poderia ser um ganho será minimizado pela confusão política. No máximo as coisas vão equilibrar-se. Para começar a recuperar sua credibilidade no cenário internacional o Brasil precisará de medidas pró-ativas. Eu acredito que as Nações Unidas sejam espaço onde o Brasil possa voltar a ganhar um pouco do prestígio que perdeu por causa da crise econômica e política.

 

➤ O senhor acredita em que desfecho para a guerra?

 

Baltazar: Uma tragédia. A destruição de um país. Infelizmente, hoje, prever o fim da guerra seria muita ousadia. Houve um acordo de cessar fogo, mas ele é desrespeitado com muito mais frequência do que seria desejável por ambas as partes. Não há ainda nenhuma real perspectiva para dizer que vamos assistir ao final da guerra. As consequências nós já sabemos: um país completamente arrasado.

 

Mesmo que cheguemos a um acordo entre rebeldes e governo, ainda temos um problema que se chama Estado Islâmico. Enquanto o Estado Islâmico não for derrotado na Síria e no Iraque, não podemos contar com a pacificação do território. Até é possível que cheguemos a um acordo de paz entre rebeldes e o governo sírio. Se as partes em conflito fossem só essas duas, poderíamos dizer que em um semestre seria possível um acordo de paz efetivo, mas com o Estado Islâmico não é. Temos aí uma terceira parte que não dialoga com ninguém. É um grupo terrorista, não é uma parte no conflito é uma parte do conflito. Mesmo que consigamos estabilizar rebeldes e governo, estamos a falar de 70% do território, mas temos um grupo terrorista nefasto, sinistro que controla 10 milhões de habitantes.

 

Há 10 milhões de pessoas que estão subjugadas a esse grupo em áreas ocupadas por eles. Estão em cidades relevantes e controlam fontes de riqueza, controlam poços de petróleo e têm disposição geográfica entre dois estados. Uma parte do Estado Islâmico ocupa qualquer coisa como um terço do Iraque e 30% do território sírio. É muito difícil imaginarmos solução da guerra na Síria sem que haja uma destruição deste grupo terrorista.

 

Com as áreas ocupadas pelo autodenominado Estado Islâmico, eles conseguem uma mobilidade muito grande entre Iraque e Síria. O ataque ao Estado Islâmico tem que ser nos dois estados e tem que ser com forças internacionais. Nem o governo iraquiano, nem o governo sírio têm o poder para derrotar o Estado Islâmico.

 

O poder aéreo é muito importante. O poder aéreo russo e norte-americano são muito importantes, mas nem Rússia e nem EUA somente com bombardeamentos conseguem destruir o Estado Islâmico. Tem que ser com forças no terreno e aí é reside um grande problema: será que EUA e Rússia conseguem chegar a um consenso para enviar uma força de paz aos dois estados? Será que têm disponibilidade de recursos e vontade para isso? Não sei se os EUA hoje têm apoio popular para intervenção em mais dois estados e para entrar em uma guerra que sabemos como é que se entra, mas não sabemos como é que se sai.

 

o Estado Islâmico nasceu da segunda Guerra do Iraque. Ele é resultado de uma intervenção supostamente motivada para destruir as eventuais armas de destruição em massa que Saddam Hussein teria, o que se provou que não existiam, e foi uma intervenção absolutamente desastrada e desastrosa do governo Bush. Uma intervenção, hoje, na Síria e no Iraque, é um ação complicada em termos estratégicos. E é uma ação impensável sem que haja um consenso entre Rússia e EUA.

 

Publicado originalmente no Facebook do Estopim em 18 de julho de 2016

 

 

Ilustração:

George Butler

Em setembro de 2013, o ilustrador britânico visitou a cidade de Azas e criou uma série como esta em que as crianças estão brincando em tanques de guerra.

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