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Uda Gonzaga, la mama del Monte Serrat

17 May 2018

 

Uda Gonzaga - a Dona Uda - nasceu, foi criada, estudou, se formou, ensinou e se casou no Monte Serrat, comunidade da periferia central de Florianópolis. Na formação escolar, a marcante vivência no Instituto Estadual de Educação quando Antonieta de Barros dirigia o antigo colégio e sua irmã, Leonor, era professora de Português. Uda queria mais. Seguiu os estudos e se tornou professora. Logo, começou a dar aulas no morro, educando gerações e gerações de crianças na própria comunidade, inclusive os parentes.

 

Educadora por opção, sambista por herança. Do casamento com Armandino Gonzaga, brotou o amor pela Embaixada Copa Lord e a oportunidade de presidir a agremiação, tornando-se a primeira mulher a comandar uma escola de samba em Florianópolis.

 

Se uma palavra pudesse definir Uda Gonzaga, seria amor. É isso que ela costuma oferecer a todos que conhece. Sua história de vida, como educadora e na Copa Lord, é repleta de conquistas, todas resultantes do seu suor e daqueles que a cercam e a ajudam. Muitos são os projetos e empreitadas em que Uda se envolveu e eles têm o mesmo fio condutor: o bem ao próximo, em especial aos que vivem no Monte Serrat.

 

Por isso, o telefone na casa da Dona Uda não fica muito tempo sem tocar e, vez ou outra, alguém a chama no portão. Alguns entram sem bater. São da casa.

 

As primeiras lições no reduto de Antonieta

 

“Estudei no Instituto Estadual de Educação, no grupo São José. Os pobres estudavam lá. Tinha também o Lauro Muller e o Dias Velho, mas nesses não tinha vaga pra gente. Eu Lembro que ia correndo. Quantas vezes desmaiei no meio do caminho e pedi: ‘Gente, espera um pouquinho’. Eu me sentava no chão, na rua, o mal estar passava e eu ia para a escola”, lembra Uda.

 

Disposta a ir o mais longe possível na sua formação, perseguiu incansavelmente o sonho de ser professora. Foi educada e viu de perto Antonieta de Barros, uma referência para ela e tantas outras gerações de crianças.

 

“Tinha a Antonieta de Barros e a Leonor. A Leonor foi professora de português e a Antonieta diretora. Era “posuda” dentro daquele traje que usavam. Aquele casaco, a saia. Lá dentro ela tinha uma postura. Hoje, às vezes, a gente tem um pouquinho dela, por causa da postura. Ela tinha uma firmeza no falar, no querer e no pedir as coisas”, ressalta Uda.

 

Depois de completar o ginásio, Uda fez o curso para normalista, também no Instituto e, na sequência, cursou pedagogia na Udesc, concretizando o seu sonho maior.

 

O legado como professora

 

A primeira escola no Monte Serrat, segundo Uda, foi uma casinha velha de madeira. A professora se chamava Dilza e tinha 12 a 15 alunos. Nesta época, Uda estava empenhada nos estudos, ainda perseguindo o sonho de lecionar. O começo de tudo foi em Blumenau, mas logo ela voltaria.

 

“Eu pensava assim: morando aqui, me tornando professora, por que tinha que ir para Blumenau assumir uma escola? Quando me formei, não tinha como escolher vagas, então eu fui. Lá só tinha alemão. Imagina! Tinha muito preconceito naquela época, era início dos anos 1960. Lá, inclusive, a diretora era negra e casada com um branco. Ela me disse: ‘olha, que satisfação ter mais uma colega aqui comigo!’”, recorda Uda.

 

A escola, entretanto, ficava muito longe do local onde Uda estava morando na cidade. A família rapidamente formou consenso e Uda retornou a Florianópolis.

 

“A mãe e o pai disseram: ‘ah, não! Ela vai morrer de fome’. E voltamos”, disse Uda.

 

De volta ao seu morro, se tornou professora substituta na escola do Monte Serrat. Uma instituição modesta, com apenas uma sala de aula. Depois, o morro ganhou mais salas, construídas dentro da caixa d’água. Neste espaço, Uda educou crianças na 3ª e na 4ª série.

 

“Eu pensei: ‘meu Deus, comecei agora, como é que eu vou dar aula? Mas aí fizemos um planejamento e deu tudo certo. Os primeiros alunos foram meus parentes. Aqui, todo mundo era parente. Meu ideal sempre foi ser professora, desde pequena, quando eu brincava de ser a mãe ou a professora. Não fui mãe, mas fui professora. Deu tudo certo por isso”, analisa Uda.


Nas primeiras aulas, desafios inéditos. Os alunos - primos e parentes - os mesmos com os quais brincava a noite de pega pega e esconde esconde, não sabiam como deveriam se referir à professora. A chamariam de Uda ou Dona Uda? Ela foi taxativa: ‘Olha, aqui na rua eu sou Uda. Agora, aqui na escola é Dona Uda. E assim ficou Dona Uda até hoje’, comenta a professora.

 

Copa Lord, herança do casamento com Armandino

A História da Dona Uda e da Copa Lord começa em função de outra paixão da sua vida: Armandino Gonzaga. Quando começaram a namorar, depois de uma procissão da Nossa Senhora do Monte Serrat, ela era uma jovem obstinada a ser professora. Ele, um apaixonado por carnaval e samba. Uda, Armandino e Copa Lord formam um triângulo amoroso.

 

Antes de conhecer Uda, Armandino era de outra escola, depois, como passou a conviver com uma moça do morro da Caixa, comunidade da Copa Lord, ele também foi para o lado da amarelo, vermelho e branco. Uda, por sua vez, começou a se aproximar aos pouquinhos do carnaval. As linhas do destino decidiram que assim seria. E foi!

 

“O Armandino era Protegidos da Princesa… Aí namorou com a Uda e ficou na Copa Lord! Eu nem saía na escola de samba, mas ele logo se envolveu. Depois teve eleição e ele ficou como vice-presidente. O presidente morreu e, como o Armando era muito carismático, foi colocado na presidência e a escola progrediu muito. Isso foi em 1965… Não! 1975... Não sei mais”, Uda suspira em meio a dúvida sobre as datas e olha para o lado, como quem viaja no tempo e sente a potência das emoções do passado.

 

“Ele era uma pessoa carnavalesca! Gostava das coisas bonitas, das coisas belas. Uma escola bem colorida, bem bonita… Ele estava prontinho! Saiu uns dois anos na Protegidos, depois veio pra cá”, afirma Uda.

 

Nos primeiros anos do casamento, era Armandino quem dava sua contribuição maior a escola de samba. A escola de Uda, nesse período, era outra: a da criançada. O envolvimento dela com a Copa Lord foi gradativo. Tudo começou com a criação do grêmio feminino, do qual ela participava com outras mulheres da comunidade.

 

A vida, sorrateira que é, mais uma vez, orientou os rumos de Uda. Com a morte precoce do marido, ela foi convidada a assumir a presidência da Copa Lord e inicialmente até hesitou: “só assumo se a comunidade votar!” Não deu outra. A comunidade deferiu a ideia e a matriarca assumiu o posto a dois meses do carnaval de 1983.

 

“Eu fico pensando: ‘como fiquei na escola de samba, se eu não gostava?’ A gente ia para o carnaval, lá embaixo… Mas eu não vivenciava a escola de samba, mesmo namorando o Armandino. Nem ajudava, porque não gostava de escola de samba. Não sabia fazer nada, só estudava. Eu só me envolvi mesmo na escola de samba, após a morte dele. Por isso, fiquei”, declara Uda.

 

Mas o que uma professora desinteressada pelo carnaval poderia oferecer a uma escola de samba? No primeiro momento, ela também não sabia ao certo. As circunstâncias, as pessoas e o tempo responderam.

 

“A escola não tinha nada. Eu pensei que estava tudo acabado! O Armandino morreu e fulano não queria, outro fulano também não. Eu era diretora da escola básica aqui do morro, coordenava um grupo com crianças e adultos. Mas aí eles votaram e eu ganhei. GANHEI! Aí eu pensei: como é que eu vou fazer? Só se a comunidade me ajudar”, reflete Uda.

 

Naquele momento, la mama del Monte Serrat não tinha outra opção. Estava imersa em tentar deixar para a escola de samba um legado digno e parecido com o do marido.


“Entrei de corpo e alma! Só tinha homem, mas aqueles também foram meus alunos, pais dos meus alunos, meus parentes e moravam todos aqui no morro, então, foi mais fácil. A união da Copa Lord não caiu. Fazíamos reuniões sempre… Comecei a fazer bailes na sede e a Copa Lord chegou até o ponto em que estamos agora. Não foi fácil! Pra mim, mesmo, não foi fácil. Não sei como eu aguentei isso tudo… Não sei, acho que era ele lá no céu que me dava coragem”, supõe Uda.

 

O carnaval mais inesquecível

 

Conversar com Uda, naturalmente, é viajar por outros carnavais, afinal, são mais de 40 anos de contribuição para colocar a escola na avenida. Ainda assim, ela não hesita em escolher um entre tantos carnavais inesquecíveis. Entre o orgulho e o ressentimento, para ela, o carnaval de 1984 foi o mais marcante.

 

Uda era a presidente e, naquele ano, o enredo da Copa Lord foi O Caldeirão dos Bruxos,, que homenageava também a Franklin Cascaes. No entanto, o resultado final a desagradou e, no seu entendimento, a escola sofreu um boicote político.

 

 

“Era pra tirarmos primeiro lugar, mas… Politicamente falando, perdemos o carnaval. Para mim, foi inesquecível pela perda e também pelo motivo porquê perdemos! Não vou me esquecer nunca, o título era nosso!”, defende Uda.

 

Perda política? Uda relutou um pouco para entrar nos detalhes e explicar melhor o significado da perda política daquele carnaval, mas se abriu:

 

“Ah, vou dizer como eu sou, sinceramente. O professor Esperidião Amin era muito amigo do meu marido. Quando meu marido faleceu, tudo que a gente pedia, ele estava pronto a ajudar. Ele ajudou bastante, se não a Copa Lord não saía naquele ano, porque só ficou dívida, não tinha nada e o carnaval estava na porta! Mas com a força de vontade, minha, dos outros e a ajuda do professor, a gente saiu. Mas, naquele ano, quem estava à frente da Secretaria de Turismo era oponente político do Amin. Tinha muita disputa política”, conta Uda.

 

Aquele foi um carnaval inesquecível e o samba-enredo ficou arquivado na sua memória. Folheando um caderno com a história da Copa Lord, Uda encontrou anotações referentes ao desfile: “O caldeirão dos bruxos - enredo massacrado pela incompetência e parcialidade de um jurado”, leu antes de cantarolar o samba com o livreto em mãos e outras memórias na mente.

 

“Nós choramos, porque era o samba, era o figurino, era a harmonia, era a bateria, era tudo. Quem falar nesse enredo a vocês, escutarão mais sobre o que eu tô dizendo”, prevê Uda.

 

O carnaval de 2013 também foi especial para la mama del Monte Serrat. Naquele ano, Copa Lord resolveu homenagear as mulheres com o enredo ‘Quem você pensa que é sem a força da mulher?’ e, naturalmente, Dona Uda foi contemplada.

 

“Foi muito bonito. Tiramos em terceiro lugar. Pra mim, foi alucinante. Uma coisa que eu guardo, porque falaram sobre educação, sobre a escola e meus alunos. A educação é a minha vida. Após a morte do meu marido, as crianças é que me deram força”, diz Uda.

 

Nos últimos anos, sua participação no carnaval é mais modesta, cabe a ela coordenar a ala das baianas. Faria mais, porém, o problema na articulação do joelho segura a mama em casa. A importância dela, entretanto, cresce ano após ano. Trata-se da matriarca da escola.  Agora, contribui como pode, está muito feliz com o título de campeã em 2018, mas desapontada com a forma como o poder público enxerga o carnaval nos dias de hoje.

 

“O governo ajudava, a prefeitura ajudava, mas hoje não tem mais isso. Dizem que não têm condições, mas existe uma verba para a Cultura e carnaval é Cultura. É uma Cultura popular. É do povo. O povo é quem faz. Esse ano não sei se ajudaram e se ajudaram foi muito pouco”, lembra Uda.

 

O ano de 2005 é mais um desses carnavais inesquecíveis para Uda. A escola na época comandada por Julio e Jacaré comemorou seus 50 anos com um enredo que homenageou a Nossa Senhora do Monte Serrat.

 

“Foi a coisa mais linda. Outro carnaval que era nosso, mas por uma displicência na harmonia, aquilo que eles chamam de ‘buraco’, não deu Copa Lord por poucos décimos. A escola estava muito bonita” avalia Uda.

 

No carnaval de 2018, Copa Lord ganhou seu 20º título de campeã do carnaval de Florianópolis. A escola é a 2ª que mais vezes comemorou carnavais na capital. Em primeiro lugar está a Protegidos, com 26 títulos, depois a Copa com 20, seguida por Coloninha com 9, Consulado com 6, União da Ilha da Magia com 2 e Império do Samba com 1.

 

“Esse ano deu Copa Lord. Foi uma loucura aqui no morro. O garoto que hoje é presidente saía na minha ala quando era criança com oito, nove anos, Josué Costa, o Jô. Ele deu tudo o que tinha dele. Foi um trabalho de doação desse garoto. Não tínhamos condições de sair. Nenhuma escola tinha, porque estávamos acostumados com uma verba e, de repente, essa verba não veio e carnaval não é Cultura. Mas nós vamos brigar”, promete Uda.

 

Em breve, publicaremos a segunda parte da reportagem, Uda falará sobre a eterna Nega Tide e muitos outros assuntos sobre sua história na Copa Lord.

 

Fotos:

Bianca Taranti

Fotos antigas: 

Reprodução do arquivo pessoal de Uda Gonzaga

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