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Uda Gonzaga, Matriarca da Copa Lord

21 May 2018

 

A história de uma escola de samba é sempre a história de muitas pessoas. No caso da Copa Lord, não é diferente. Assim como Uda, Jorginho, Lô, Nego Quirido, Avez-vous e Armandino Gonzaga, um dos nomes mais importantes para a escola sem dúvidas é o de Erotides Helena, a Nega Tide. O que alguns não sabem é que o envolvimento dela no carnaval de Florianópolis começou na escola rival.

 

Nega Tide, sambista eterna da Copa Lord

 

“A Tide era Protegidos da Princesa. Houve lá alguma coisa que ela não gostou e ela veio. Me lembro tão bem, ali naquela cozinha, ela assim - ‘Gonzaga, me aceita na escola de samba?’ Ele perguntou: ‘Mas por quê?’ Pronto! Depois de explicar o motivo, ela veio, ficou até a hora da morte e se tornou essa eterna sambista”, afirma Uda.

 

“Ela não saia aqui de casa. Meu marido gostava demais dela. A primeira roupa que ele ia ver era da Tide. Depois bateria, porta-bandeira, mestre-sala e da comissão de frente. Eram as alas que ele tinha paixão. Da Tide, então, ela tinha as fantasias mais bonitas. Na morte dela...”, um longo silêncio invadiu o local da entrevista. As memórias gritavam na cabeça de Uda. “Ah… não vamos falar disso, né?” Mais uma vez, ela se emociona com as lembranças de uma perda.

 

“A Tide é a eterna rainha. Eterna sambista da escola de samba. Não só da Copa Lord, como também da Protegidos. Quando ela chegava, só aquela altura dela…" Uda interrompe a própria fala para dar lugar ao riso. “Ela chegava e todo mundo: ‘oh, lá vem ela’ e tal. A morte da Tide foi um carnaval. Era samba dali da subida de onde ela foi velada, até a sepultura dela”, destaca Uda.

 

A construção do Clube da Copa Lord

 

Dez anos depois da fundação da escola, os dirigentes da Copa Lord resolveram criar um clube no morro. O intuito era reunir os apaixonados por samba, dar-lhes uma opção de festejo na própria comunidade e ter um barracão próprio para a escola de samba.

 

Para iniciar a construção, os dirigentes, entre eles Armandino Gonzaga, "desviaram os recursos" dos seus próprios salários, levantaram a grana para comprar o terreno e as obras começaram em poucos meses.

 

Inaugurada em 11 de dezembro de 1965, a sede da Copa Lord fica no terreno vizinho à casa da professora. Duas reformas já foram realizadas no clube onde passou, e ainda passa, a história da Copa Lord.

 

“Uma noite, o Armando estava sentado aqui na frente de casa e disse: ‘ô Uda, pra onde vão esses jovens sábado, domingo?'

 

 

“Depois do carnaval, o povo ficava parado, os jovens ficavam parados. Respondi que iam aos bailes para dançar, como no Clube 8 de dezembro, no Estreito, ou no 25 de dezembro, aqui na Agronômica. Aí ele assim”:

 

'Acho que isso tá errado. Que tal se fizéssemos uma sede aqui na própria comunidade?'

 

“No outro dia, ele saiu e foi falar com um antigo vizinho, o Seu Nelinho. O pessoal da diretoria era quase todo daqui. E, então, eles saíram atrás de um terreno. Queriam aqui no Morro da Caixa, onde estava situada a Copa Lord. E conseguiram!”, ressalta Uda.

 

Em pleno funcionamento, o clube atraiu o interesse da comunidade e fez a escola progredir. Nas quintas, sábados e domingos, a estrutura era disponibilizada para as festas dos moradores.

 

A formação do Monte Serrat

 

“A Comunidade não era isso que está aqui hoje. Não tinha asfalto, era lama, barro. Eu era professora aqui e sei como as pessoas vinham. Elas chegavam, tiravam os sapatos ali perto da Copa Lord pra subir o morro”, revela Uda.

 

Segundo a professora, os primeiros moradores vieram do alto de Biguaçu. Eram as famílias Veloso, Cardoso e Barbosa, que se misturaram e se espalharam na comunidade.

 

“Criaram várias famílias e, depois, foi casando primo com prima. A família é quase uma só. Cardoso com Veloso, Veloso com Barbosa, Barbosa com Silva, depois veio Almeida, Gonzaga, da Costa. E aí se formou a comunidade que está aí. Talvez, por esse acolhimento entre as famílias que se agruparam aqui no morro, a comunidade do Monte Serrat seja tão acolhedora”, pondera Uda.

 

A mama do Monte Serrat talvez seja suspeita, mas afirma que vive na melhor comunidade.

 

“Não é porque nasci e me criei aqui, não. Eu disse ao Pe. Vilson que a comunidade do Monte Serrat é a melhor. Na acolhida, é a melhor mesmo. Não tem pessoa que venha aqui e não volte”, reforça Uda que, depois, segue elencando as qualidades do seu morro:

 

“Temos uma creche, uma Escola Básica, que hoje faz parte dos Maristas, uma escola de samba, a Copa Lord, a mais querida, e o Pe. Vilson Groh, que mora na comunidade”, finaliza Uda em meio a uma gargalhada depois de demonstrar sua convicção.

 

A primeira caixa d’água de Florianópolis

 

Nem sempre o Monte Serrat foi chamado dessa forma. Para se referir a região, muitas pessoas, até hoje, ainda usam o nome pioneiro: Morro da Caixa. É que na localidade, segundo os antigos, existiu a primeira Caixa d'água de Florianópolis. O nome Monte Serrat veio depois e é uma homenagem a Nossa Senhora do Monte Serrat, santa que está na igreja da comunidade e que é a padroeira do morro.

 

Assim como em quase todos as localidades da capital - ou seria em todas? - tanto os bairros nobres, quanto as zonas periféricas, o tráfico de drogas está presente no Monte Serrat.

 

 

“Era uma comunidade calma. Depois houve um tempo em que não foi fácil viver aqui. Eu era diretora da escola e, às vezes, alguém dizia: ‘Uda, não solta as crianças, porque mataram dois ali embaixo.’ Dois! E eram nossos alunos. A conversa na comunidade, ou das crianças vindo pra aula era essa:

 

‘Acharam um morto ali no matagal.’

 

‘Mataram um.’

 

‘Oh, mataram mais um!’

 

‘Amanheceu um morto!’

 

"Mais tarde, vieram projetos na escola. Teve o Padre Vitor Galdino Feller, no grupo jovem, com o Celinho do Copa Lord, que era o padrinho do grupo”, explica Uda. Segundo a professora, muitas pessoas se mobilizaram para reverter o problema. Uma das formas foi a organização de retiros para os jovens e ela, naturalmente, estava no rolê.

 

“Eu me dediquei muito às coisas após a morte do Armandino. Fui de corpo e alma, casei com a comunidade, casei com a escola, casei com a escola de samba. Então, por isso, não tive tempo de ter filhos, nem de me casar... Não deu tempo”, brinca Uda.

 

Nessa época, ela se dividia entre a direção da escola, a presidência do grupo jovem, a diretoria da Copa Lord. Um convívio diversificado com toda a gente do seu morro. Sambistas de todas as idades. Senhores, senhoras, homens, mulheres, meninos e meninas.

 

Chiquinho e a garrafa que rolou

 

Os retiros com os jovens do Morro da Caixa aconteciam nos finais de semana. Uda conta que iam cedo, no sábado, para a praia do Cacupé e voltavam no domingo à noite. Participavam os jovens e algumas mães que se somavam para ajudar a cozinhar, por exemplo, além de palestrantes convidados trazidos pelo Padre Vitor.

 

“Olha, mesmo com os traficantes, nós íamos. Não tínhamos medo, porque eles tinham um respeito muito grande, eu me sentia mãe deles e eles se sentiam meus filhos. Lá eles dividiam, os meninos iam pra uma casa e as meninas dormiam na outra. Eu ficava na casa com as meninas e o Padre Vitor com os meninos. De manhã cedo, todo mundo ia para a praia! Meu Deus! Tempo bom, que não vai voltar mais”, rememora Uda, que segue abrindo suas memórias e divide um episódio que põe no centro das suas recordações um traficante.

 

“Esse trabalho veio pra melhorar, tínhamos um rapaz que era o chefão, o Chiquinho. Eu dizia:

 

‘Não tragam álcool, hein, por favor. Eu confio em vocês e vão me mostrar quem são realmente.’

 

“Mas o Chiquinho levou um litro de vinho e ninguém viu. Na praia, todos estavam sentados sobre uma pedra, vendo o sol nascer. De repente, um litro de álcool cai, rola e quebra. Ele veio até mim e disse:

 

‘olha… Deus sabe o que faz. Eu trouxe isto que estás vendo, mas me arrependo.’

 

Eu disse - “não, tudo bem. Deus sabe o que faz. Tinhas que trazer pra tu sentires o que tu fez.

 

As ambições do presente

 

Dona Uda não para de alimentar sua fé em dias melhores. Faz do Monte Serrat sua causa maior e, no auge da vida, sonha em ver uma faculdade funcionando no seu morro.

 

"O que vai me encher mais ainda de orgulho é a criação da faculdade, que há uns três anos vem amadurecendo através do nosso padre. Aqui no morro já tem um formado em Medicina e outro que é advogado. Esse sempre me fala:

 

‘A Uda não me queria na aula, porque eu só tinha cinco anos e não tinha idade pra entrar, mas eu tanto insisti que ela me colocou’.

 

Pe. Vilson Groh

 

Sem amigos e parceiros, nada avança. Respeitado em muitas comunidades pelo seu trabalho social, o Pe. Vilson Groh é também um forte aliado de Uda Gonzaga nos projetos sociais realizados em benefício das pessoas que vivem no Monte Serrat.

 

“Hoje somos amicíssimos! Ele tem ideias, tem o dom da palavra. Nós ainda não entramos no coração desses jovens que estão aí. Não digo ele, porque sozinho, ninguém pode fazer nada. Mas acredito que, com os projetos do Pe. Vilson e da Copa Lord, a nossa comunidade vai mudar. Já mudou em alguma coisa e vai mudar ainda mais”, acredita Uda.

 

Os dias de hoje e as saudades

 

“Uma gargalhada? De vez em quando. Não era sempre assim, não. Me vinha um pouco de tristeza. Às vezes vinha um pouco de saudade. Perdi pai, mãe e marido aos 41 anos, restou uma irmã. Estou aqui, mas eu não me sinto só, porque a casa sempre tá cheia. Amanhã é dia. Sete horas eles já estão ali no portão chamando:

 

‘Uda, acorda que nós já estamos aqui.’

 

“São vinte e duas crianças. Eles não eram pra ficar comigo, mas acostumaram e ficaram. Dou aula de catequese, tomamos café, conversamos. Algumas meninas estão começando a namorar e aí pedem para vir aqui depois para conversarmos sobre o namoro, sobre a atitude do menino. Fico feliz, porque ela depositava confiança na gente. Catequese não é só falar de Deus, é um todo. Isso tudo é uma alegria, ajuda a viver e a esquecer. Ajuda a matar a saudade”, afirma a professora.

 

Se no final de semana a atenção é para a criançada, na segunda-feira, é o dia das baianas da Copa Lord. Não raro, as diferentes gerações estão no mesmo ambiente, a casa de Uda, trocando experiências e vivências. Aprendizado mútuo!

 

“Às vezes as crianças também participam da reunião com as baianas. Eles precisam participar um pouco também de reunião com os membros da Copa Lord para sentirem a dificuldade que é. Não é fácil botar uma escola de samba na rua”, diz Uda.

 

Promovendo esses encontros, Uda tenta solucionar inconscientemente um problema que a incomoda nos últimos anos. Para ela, a comunidade precisa se engajar mais, principalmente na Copa Lord.

 

“Tá muito dividida. Temos que trabalhar um pouco mais o social, para que a comunidade venha nos ajudar, porque sozinhos, nós não vamos fazer nada. Não vamos chegar a lugar nenhum. Ver o que tá errado. Houve o carnaval. Alguma coisa saiu errado, então vamos ver o que foi errado. Agora isso aqui foi tudo bem, então vamos ver o que foi bem”. Por quê a comunidade não foi mais participativa? Essa é uma pergunta. Por quê? A gente tem que pensar, meditar, para chegar a uma determinada compreensão e estar junto.

 

Nos raros momentos em que está sozinha, Uda diz que gosta de pensar e escrever, mas que não mostra os textos para ninguém. São anotações sobre como passou o dia, as pessoas que vê e conversa, os lugares que visita.

 

Nos últimos anos, ela se permite acordar e sair da cama quando bem entende. Dorme cedo e tenta dar atenção a 3,5 mil amigos nas redes sociais. As saídas de casa diminuíram bastante. Limitam-se a reabilitação do joelho, as reuniões da Associação de Mulheres Negras Antonieta de Barros (AMAB), do Programa Antonieta de Barros (PAB), às visitas a uma tia e as idas à igreja.

 

No final da conversa, perguntamos para Uda a quem ela gostaria de enviar uma mensagem, mesmo que a pessoa não estivesse mais entre nós. Ela pensou, pensou e, mais uma vez, foi tomada pela emoção das recordações.

 

“Meu marido, meu pai, minha mãe. Queria que os três voltassem… Ah, meu Deus! Uma passadinha aqui, comigo. Nem que seja em sonho. Ai ai… Fizeste meu coração bater mais um pouquinho.”

 

 

Fotos: 

Bianca Taranti

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