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Supernova

15 Aug 2017

I

 

Envolto no fino vento soprado

os pensamentos lhe apagavam a vista.

Falava só sem ser escutado,

dialogava mudo com a senhora fantasia.

 

Ocupava cheio seu metro quadrado

- corpo calvo, feito bagaço - 

Chapéu no colo, crânio destapado, 

donde as idéias lhe fugiam em embaraço. 

 

À vista, treva turva,

hora mais escura que precede o dia.

Madrugada passada da curva.

- Garoava invisível na noite fria. -

 

Não lhe havia vento, não lhe havia chuva.

Havia noite que o consumia.

Mas não podia ignorá-los,

pois no tutano, simplesmente os sentia.

 

II

 

Hiato da madrugada,

não há sinal de vida,

vazio de forma e de vulto

lhe davam a calma invertida.

 

De escuro era feito

- não o panorama, não a vista - 

mas o nó de seu peito,

surgindo oportunista.

 

Escuro, mas não qualquer escuro.

Buraco negro 

- abstrato obscuro -

Vala funda,

de sentimento imaturo.

 

Gravidade forçada

que suga para o vazio furo,

qualquer angustia apanhada,

qualquer errante sussurro.

 

E o velho peito 

faz-se de novo negror nascituro.

Tem a calma roubada

pelo silêncio noturno.

 

III

 

Não há opção em seu leito,

o sono lhe deixa inseguro.

Amarga insônia atestada,

de devaneio soturno.

 

Olhos abertos ou fechados

para ele não importa,

os neurônios assombrados

trazem-lhe igual resposta:

 

Uma angústia atrás do cárdio,

tal qual peso atrás da porta;

um calo, no músculo afixado,

uma injuria descomposta.

 

Vem certeira a galopada,

retalhando a velha aorta.

Vem tocada pela espora

a ânsia predisposta.

 

IV

 

Já não sabia mais a essa hora

o que fazer do peito ardido.

Era tanta voz, tanto alarido

- tanto fantasma,  

que da aurora vinha fugido -

 

Pela varanda afora,

deixa que venha assim corrido,

qualquer inválido, qualquer ferido

- qualquer assombro -

pelo breu revivido.

 

Orbitam-lhe agora

demônios a coagi-lo, 

feito mariposas na noite,

atraídos por seu brilho.

 

Amolada brisa lhe devora,

sobe o osso a possui-lo,

orvalha a carne ainda a noite,

com espectros em estribilho.

 

Sucumbe sem demora,

enquanto do céu escorre o piche.

Seu singelo astro de outrora 

é pintado então de azeviche.

 

V

 

Seu tórax está por fim refeito

pela madrugada impassível.

 

A antiga luz de seu peito,

perdeu em suma o combustível.

E a estrela da qual era feito,

enfim se apaga…

dando vida a um buraco negro

 

 

Ilustração:

Tan Yau Hoong 

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