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Resignação

 

Acho que escrever é sentir. E também acho que é por essa razão que o meu processo criativo anda tão estagnado. Sempre busquei escrever para externalizar minhas emoções e tentar entendê-las a partir de um olhar de mera espectadora da minha história. Muitas vezes, ainda, a escrita resultou em desabafos longos e terapêuticos. Ocorre que tenho a impressão de que faz muito tempo que já não sinto, de fato, qualquer coisa que seja. Por inúmeras vezes tentei fazer com que as decepções não tomassem conta do cotidiano, infelizmente já envenenado pelas sequelas da falta de autorização de se permitir vibrar.

 

Porque, no fundo, a gente já sabe – ou deveria saber – que tudo é vibração de energia. A ciência já provou isso, então pode crer que não é papo de hippie hare krishna. Mas não sei, ando angustiada. Até um tempo atrás sempre formulei na minha mente que: ou a gente sente coisas boas ou a gente sente coisas ruins e que isso está intimamente ligado com o nosso meio social, a forma como a gente decide encarar esse meio e a nossa escolha de se deixar levar a cada uma dessas correntes vibratórias: a “do mal” ou a “do bem”.

 

Uma das descobertas mais desesperadoras da minha vida foi a possibilidade do não-sentir. É a completa indiferença, o constante “cagar e andar” pra tudo. A ausência de expressão facial, porque de fato nada mais te afeta, nem positiva, nem negativamente. Como se praticamente tivesse a alma sugada por dementadores de Hogwarts e, porra, juro que eu queria mesmo que fosse pura magia! Atividades prazerosas deixaram de ser interessantes, interação com pessoas só me provocam preguiça e aquela sensação de que ninguém vai me entender mesmo, então, melhor continuar no meu cantinho fazendo o que estou tão habituada a fazer: auto congelamento de sensações e emoções. Vai ver é melhor assim mesmo... De tão calejada, acho que prefiro ficar em posição fetal, deitada no chão por semanas...

 

Em algum momento incalculado, a mísera chance de sentir surgiu como uma poeira que a gente não percebe e, de repente, já está ali, cobrindo a escrivaninha. Resta tomar uma atitude: limpar a poeira, que já causou tantas alergias ou, quem sabe, desenvolver uma fórmula para tornar-se imune e conviver com ela? Que metáfora podre! Só consigo pensar em comparações ruins, em enfermidades do corpo e da mente. Se apaixonar é mesmo um grande bolo fecal esperando pra ser expelido. No meu caso, ultimamente tá mais pra uma disenteria bacteriana cuspindo água pela bunda.

 

Voltando à metáfora ordinária... Como é complicado responder essas perguntas para uma mulher que não sente. Ora, se ela não sente, então não há muito o que fazer. Foda-se a poeira. Não sabe se quer conviver com ela ou se decide erradicar sua presença, porque simplesmente já não faz sentido se preocupar com isso. No final vai ser sempre a mesma coisa: estupros diários da vida. Mas tudo bem, está tudo bem. As intempéries do coração sempre cicatrizam em algum momento. Ao menos é dessa forma que os clichês nos ensinam. Sendo assim, talvez exista a possibilidade concreta de também paralisar o processo alérgico ao pó. Ou não? Alguém ajuda essa dualidade geminiana que hoje tá foda!

 

Como responder qualquer questão sem, no entanto, pagar para ver? Foi essa frase tão senso comum que eu pensei, quando lembrei da possibilidade de sentir sem expectativas. Num desses encontros casuais de um sábado qualquer, em que a conexão entre as matérias já não permite o breque... Como uma dessas ocasiões em que a gente vê a poeira, tem consciência da sua presença, mas ignora o fato e vai deixando para limpar depois, porque no momento não está incomodando e, além do mais, eu ainda consigo respirar com pelo menos uma narina. De tão cética, decidi me atirar de forma consciente para ter a certeza de que eu estava correta ao afirmar enfaticamente que essa só seria mais uma oportunidade de não gozar nesse ato broxante que é a vida me fodendo.

 

Minha maior decepção, confesso, foi estar errada. Talvez eu ainda sinta... Talvez eu ainda goze. Mas essas surpresas sempre chocam. E me deixam com a sensação de impotência, sem saber o que fazer e para onde fugir. Já acostumada com a neutralidade que o não-sentir carrega consigo, dessa vez o desespero bateu, porque tenho a sutil impressão de que o tempo todo estive equivocada: eu sinto tanto. E ainda tenho mais um tanto pra sentir. Redescobri possibilidades adormecidas e hoje sinto como se houvesse um cano estourado dentro de mim, vazando toneladas de sensações a cada milésimo de segundo. Que gostoso... Eu já tinha esquecido o sabor açucarado disso.

 

Presentemente, optei por me permitir tentar conviver com poeiras leves, sutis e menos carregadas. No fundo é esse auto consentimento que determina tudo, inclusive o retorno da escrita e a volta dos sentidos, que só se recuperaram porque ainda existe inspiração nas minhas paixões súbitas e intensas, que tanto me fazem palpitar por sorrisos e por meu pranto enamorado.

 

 

Fotos:

Marcelle Oliveira / Estopim Coletivo

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