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Renovação Política entrevista Marquito

16 Jun 2017

 

Neste mês de junho, mapeamos, selecionamos e queremos apresentar ao eleitor de Florianópolis jovens e novas lideranças políticas que devem figurar nos santinhos das eleições previstas, até o momento, para 2018. Alguns dos personagens que entrevistamos já disputaram e até conquistaram a preferência do eleitor nas urnas, outros não obtiveram êxito na empreitada, mas acumularam capital político e não escondem suas ambições.

 

Ao longo do mês, exibiremos entrevistas com eles e elas, fazendo a todos o mesmo roteiro de perguntas. No intuito de ouvir representantes das mais diversas ideologias, além dos nomes que a redação do Estopim convidou, pediremos indicações a todos os partidos que possuem representação na Câmara de Vereadores de Florianópolis, na Assembleia Legislativa de Santa Catarina e na Câmara dos Deputados.

 

Este recorte inicial prevê 15 entrevistas, mas não abrange a totalidade dos partidos existentes no país, até porque toda vez que você vai dormir, nasce um partido novo no Brasil. Tentando não sufocar os partidos menores, caso possuam uma liderança jovem e a sigla não tenha representação em nenhum dos espaços de poder acima citados, é possível participar da série ainda assim. Para isso, basta formalizar um pedido a nossa redação pelo e-mail: estopim.online@gmail.com

 

A série especial de entrevistas Renovação Política tem como gancho o anseio da população por caras novas e apresenta alternativas a partir da capital do nosso estado. Fora coronéis! Fora homens brancos, velhos e ricos!

 

Em continuidade à Série Renovação Política, Marquito, do PSOL.

 

| A ENTREVISTA |

 

➤ Como despertou seu interesse por política?

 

O primeiro contato que eu tive com uma organização política foi quando estudava no Instituto, onde tinha o Esquadrão Sarcástico, que era um jornal de contracultura feito por um grupo que atuava no Grêmio Estudantil. Eram pessoas questionadoras e ali foi onde eu comecei. Não participei ativamente nem do Sarcástico nem do Grêmio, mas eu sempre estava envolvido com o pessoal que era da minha sala e que participava.

 

Depois, na universidade, o movimento estudantil foi bem importante, o Centro Acadêmico, o Diretório Central dos Estudantes. Fiz parte de um grupo que teve uma gestão com o Cesinha no DCE por dois anos. Era um grupo que não tinha nenhuma ligação partidária, eram bem ligados à arte e ao movimento anarquista.

 

Eu sempre tive uma posição mais de esquerda, de questionamento do sistema. Eu fiz Agronomia, então questionava a grade curricular voltada para o mercado, para a atividade como mercadoria, questionando o modelo de agricultura.

 

Depois eu fiz a opção de trabalhar em ONG. Passei a trabalhar com agroecologia, com agricultura familiar e a questionar o modelo hegemônico. Minha base política é essa e, a partir disso, participei de conselhos, de fóruns, valorizando a participação social, o controle social nas políticas públicas e também colaborando para conseguir políticas públicas voltadas para essa visão de mundo que a gente acredita. Tudo isso é o conjunto que me construiu politicamente.

 

➤ Como conheceu o partido que está vinculado atualmente?

 

Em 2012 eu acompanhei o PSOL nas eleições municipais de São José, através da candidatura do Rafael Melo, que é o atual presidente estadual. Eu tenho aproximação com ele e compus um grupo que pensou seu plano de governo e, naquele momento, me aproximei do PSOL.Era um grupo da pastoral da juventude que foi para o PSOL.

 

Eu tive uma aproximação por afinidade, mas ideologicamente eu me identificava. A partir dali foi despertando a possibilidade de me partidarizar, até então eu tinha uma postura muito apartidária. Fui me aproximando e, dois anos depois, me filiei já em uma perspectiva de me candidatar, através de um grupo de pessoas que estavam comigo: amigos, militantes, pessoas com as mesmas causas, que colocaram uma certa pilha pra gente sair como candidato.

 

Em 2014 teve a campanha estadual eu ajudei também o PSOL. Fiquei na retaguarda no programa de governo e também depois para responder questões sobre a agricultura familiar, gestão de resíduos, segurança alimentar, fiquei ali na retaguarda preparando o Afrânio para os debates e, em 2015, eu me filiei.

 

➤ Você se considera aliado com a ideologia do seu partido?

 

Me considero ideologicamente alinhado. Me sinto contemplado com os mandatos que nós temos na Câmara Federal e aqui na Câmara Municipal também. E me identifico muito com as posturas de parlamentares e de quadros importantes no cenário nacional.

 

São referências para mim o Marcelo Freixo, o Elson Pereira, as Gabinetonas, de Belo Horizonte, que lançaram uma candidatura coletiva e elegeram três pessoas na Câmara Municipal e têm o mandato compartilhado. O Glauber, o líder da bancada do PSOL na Câmara Federal também é uma referência. Chico Alencar, Jean Wyllys, Luiza Erundina, Ivan Valente são todos quadros maravilhosos.

 

Me sinto muito contemplado com a perspectiva que o PSOL traz para a sociedade. Essa nova política de esquerda, essa possibilidade de disputar a cidade, de discutir que cidade a gente quer, que outro mundo é possível.

 

➤ O que o faz ter certeza que está com o grupo certo? Seu partido tem uma causa que também é a sua?

 

Para mim, primeiro, um grande questionamento do modelo político, mas também econômico e social. Segundo, a capacidade enquanto partido, de fazer o diálogo com a sociedade e construir junto com a sociedade. Por exemplo, a construção da candidatura do PSOL à prefeitura do Rio de Janeiro foi através de uma plataforma chamada “Que cidade queremos?”

 

Essa abordagem de construir com os setores da sociedade, discutir temas e bandeiras, como a questão LGBT, o estado laico, o questionamento ao modelo privatista dos direitos, a discussão da dívida pública, esse modelo econômico que está em beneficio de poucos e as custas de muitos. Isso me traz à bandeira que a gente trouxe para a candidatura, que está presente agora no mandato, que é a justiça social.

 

E, por fim, a ecologia, que é algo novo e, inclusive, o mandato aqui é visto pelo PSOL nacional como uma referência nesse tema da ecologia com justiça social. Sempre teve essa questão da ecologia muito preservacionista, sem as pessoas, da proteção ambiental e a gente traz a abordagem da participação das pessoas junto com o ambiente.

 

➤ Quais críticas você tem aos políticos expoentes do seu partido?

 

Internamente temos as correntes no PSOL. Eu sou independente, não faço parte de nenhuma corrente até hoje. Tem um grupo que puxa mais para um extremo e tem um grupo que puxa mais para uma postura do diálogo, tentando valorizar os quadros e os mandatos que temos e não colocando os políticos numa vala comum, enfatizando que temos mandatos que mostram que é possível fazer ações diferentes.

 

Se eu tenho uma crítica, seria a quem joga a criança junto com a água do banho e a quem faz uma crítica muito mais ao extremo e muitas vezes desqualificando a própria construção partidária, os processos eleitorais e os quadros que nós temos com mandatos. Somos poucos, muito poucos. No Brasil são 53 vereadores eleitos e apenas uma prefeitura. Eu valorizo muito o processo eleitoral. É uma visão. Tem uma visão dentro do partido que quer uma revolução.

 

A minha crítica está aí. Ela não está pronta. Eu também tenho um cuidado muito grande. Aprendi muito aqui no mandato, que é muito aberto, que a gente deve se construir sem desconstruir o outro. Acho que essas abordagens também contribuem, mas quando elas começam a confrontar elas vão erodindo o próprio partido, mas eu também estou aprendendo sobre essa dinâmica interna e essa disputa. É saudável por um lado, mas também é desgastante por outro.

 

➤ Você já possui experiência em eleições? Considera o atual sistema corroído por práticas espúrias?

 

Acho que o sistema eleitoral tem problemas gravíssimos. A intervenção e o poder econômico de grandes corporações e um processo eleitoral mercantilizado acabou levando a essa contaminação desse espaço que foi uma conquista. A gente tem hoje uma estrutura de três poderes, o Executivo, o Legislativo e o Judiciário. Todos eles passam por algum processo democrático, seja por meio de concurso, de voto ou de escolha e tudo isso são conquistas históricas da nossa sociedade para que tenhamos participação nessa escolha. Muita gente morreu, muita gente lutou, muitas revoluções aconteceram para chegar até onde chegamos.

 

Hoje, a gente perdeu a função dos três poderes, que se equilibram numa balança, e a gente perdeu quando o poder econômico contaminou esse processo de escolha ideológico, ou de projeto de sociedade, de projeto de mundo. Então, com certeza, na minha visão, ele está erodido, desqualificado, mas porque se deixou influenciar pelo poder econômico.

 

E aí o Estado, nesse caso, perdeu sua função, que é de mediar o conflito entre o interesse público e o privado. O Estado vira um braço de um interesse, porque esse interesse coloca suas peças com o poder do dinheiro. Mas a gente conhece várias expressões e alguns quadros, os do PSOL têm isso, que estão à margem desse processo, que é uma grande contaminação e, hoje, é uma fratura exposta.

 

Tenho esperança de que é possível fazer um processo eleitoral diferente. A gente tem que resgatar esses princípios básicos, do equilíbrio dos três poderes, do Estado como mediador do conflito entre o privado e o público. Se a gente resgatar isso e não ter um processo eleitoral influenciado pelo poder econômico, a gente restabelece uma forma de poder governar, administrar, legislar para garantir esse equilíbrio.

 

Isso, às vezes, é confundido com uma visão da manutenção do poder burguês, e de que quem está aqui é que tem o domínio. Acho que a nossa campanha e o fato de eu estar na Câmara, representa muito isso. Poder fazer campanha sem dinheiro, poder ter muita clareza de qual é minha função aqui e poder fazer disso um processo participativo. As pessoas participam, estão contribuindo, a equipe tem uma autonomia bem grande, não é algo centrado no vereador. A gente tem tentado construir essa nova perspectiva também.

 

➤ Cogita ou tem convicção de que será candidato nas eleições de 2018? Se a resposta for sim, qual cargo? Se a resposta for não, por quê?

 

Estamos num partido pequeno e inevitavelmente serei candidato a algum cargo, que ainda não está definido. Isso vai depender da estratégia do partido e do mandato. Nada está pronto. Estamos conversando sobre isso, sim.

 

Tenho duas vontades pessoais. Uma delas é concorrer de forma viável e a outra é ir para construir o partido. Estou disposto as duas coisas. A gente pode lançar uma candidatura para construir partido, formar chapa, mas pode lançar para deputado estadual, que tem uma viabilidade pelas bandeiras e pela repercussão do mandato como vereador.

 

Hoje estou dedicado a esta dinâmica da construção partidária e da construção das nossas agendas políticas. Então não tenho nada definido ainda, mas estou disposto. Sei que vou ser candidato pela nossa estrutura partidária e estou disposto a qualquer um dos caminhos.

 

Agora, vamos listar alguns temas e sobre cada um deles, gostaria que você falasse a primeira palavra que vem a mente:

 

Racismo

É um problema presente na sociedade de Florianópolis. Ele exclui a população negra da cidade. Os negros viviam no centro e é muito claro que foram expulsos do centro. Eles não aparecem nos bairros nobres, nas baladas, nas colunas sociais, não aparecem nas festas sociais, mas está no morro, nas periferias, está presente em várias comunidades.

 

Política antidrogas

Antes de falar de política antidrogas a gente tem que falar de quem sofre com a política antidrogas, que são periféricos, negros e negras, jovens com baixa escolaridade, então é uma política também com um recorte de classe social, de cor, de grau de escolaridade. Depois disso, desmistificar e descriminalizar algumas ações ligadas ao uso e consumo e produção de drogas.

 

Violência contra mulheres

É algo degradante e presente na sociedade, que por ser machista, é um tema invisibilizado e desconsiderado em termos de políticas públicas, de ações concretas da sociedade e, inclusive de parlamentares. Não podemos nos silenciar, temos a obrigação de fazer essa discussão e trazer luz à essa questão.

 

Corrupção

Está presente em todos os níveis da sociedade. Na política, destrói qualquer possibilidade de construir outra sociedade. O modus operandi que a gente acompanha aqui na Câmara, de votar a partir de interesses financeiros ou de poder, ou de indicação de cargos, destrói qualquer possibilidade de legislar a partir dos interesses da sociedade.

 

Mobilidade

Ela é necessária para garantia do direito à cidade, é centro para a saúde, bem estar e felicidade. Ela tem que ser multimodais e na nossa cidade temos uma capacidade enorme de poder ter sistemas hidroviários, marítimos, com ciclovias, com transporte público de qualidade.

 

Legalização da maconha

Sou a favor da produção e do autoconsumo. Tenho críticas ao modelo de produção em grande escala, mas a legalização da maconha tem que vir com um debate em torno da criminalização do uso de drogas e também sobre quem sofre a violência por conta disso.

 

 

Fotos:

Arquivo Pessoal Marquito

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