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Professor da UFSC é pré-candidato a Presidência da República

28 Sep 2017

 

Ele enxerga na atual crise política e econômica a oportunidade para a revolução brasileira e foi este cenário que impulsionou sua ambição de ocupar o cargo máximo da política brasileira. Pré-candidato a presidência da República do PSOL, Nildo Ouriques aguarda o posicionamento do deputado federal Chico Alencar, mas trabalha desde já na construção da viabilidade da sua candidatura e em dezembro disputará as prévias no partido.

 

Entre as diversas medidas que pretende implementar por meio da revolução brasileira estão a extinção do Senado, a auditoria da dívida pública e a reforma agrária. Nesta entrevista, o professor do curso economia da UFSC conta sobre sua formação acadêmica focada nos estudos sobre a América Latina e apresenta as principais ideias para o Brasil pós-Temer.

 

➤ Para começar, gostaria de fazer um retorno ao passado para falar da sua atuação no movimento estudantil. Foi nessa época que começou sua vida política? Que tempos eram esses?

 

Na verdade minha vida política começou em Joaçaba. Nasci em 1959, em 1964 tivemos o golpe, então com cinco anos eu estava submetido a uma ditadura. Em Joaçaba tinha um sujeito chamado Paulo Stuart Wright, que foi um deputado desaparecido pela ditadura.

 

A cidade era muito polarizada politicamente entre Arena e MDB. Escutávamos os debates pelo rádio, que era um instrumento público. Nasci diante desse debate sobre as grandes questões e uma família política falando mal da outra, criticando em condições muito ásperas. Isso despertou meu interesse por política.

 

Quando eu vim para Florianópolis, aos 18 anos, vim para fazer cursinho pré-vestibular. Fiquei um ano aqui, mas eu me envolvo mesmo no movimento estudantil quando ganha força a luta contra a ditadura em 1977. Entrei em Economia e não me dediquei muito tempo no primeiro ano, porque me vinculei ao grupo de pesquisa do Teatro Novo dirigido por Carmen Fossari.

 

Fizemos uma peça sobre os pescadores, eu fiz a trilha sonora e apresentamos no TAC, em Joaçaba, Criciúma. O teatro me consumia, até que o movimento estudantil começou a ficar mais intenso, e eu decidi pelo movimento estudantil. Essa demanda foi me absorvendo, teve a Novembrada, as grandes manifestações aqui em Florianópolis contra a ditadura, isso foi ganhando cada vez mais importância.

 

Liderei o movimento para criação do Centro Acadêmico do curso de Economia da UFSC, do qual fui o primeiro presidente no início da década de 1980. Depois de um ano de gestão no CA da Economia, me tornei presidente do Diretório Central dos Estudantes (DCE) da UFSC e aí me vinculei a esquerda clandestina, mais especificamente ao Movimento de Emancipação do Proletariado (MEP).

 

➤ Que tipo de luta o movimento estudantil conseguiu fazer na época?

 

Eu me vinculei por uma única razão: uma reforma curricular. Meu curso tinha uma formação tecnocrática. Um ensino baseado nos manuais de economia dos EUA, um horror. Quando vi a possibilidade de mudança, me vinculei logo. Isso que me levou ao movimento estudantil. Segundo: Nós estávamos num período em que as restrições orçamentárias para a universidade eram cada vez maiores, razão pela qual nós começamos a lutar por mais verbas na educação e sobretudo contra a política educacional do governo e, claro, a luta pela democracia. Essa era a pauta de todo o movimento estudantil. Era um movimento de massas muito representativo.

 

 

➤ Qual a sua formação acadêmica?

 

Fiz minha graduação em Economia na UFSC e fui trabalhar no Rio de Janeiro no governo de Leonel Brizola, como pesquisador da Fundação Escola do Serviço Público, onde conheci um conjunto de intelectuais, Ernest Mandel, Gunder Frank, Perry Anderson, Osvaldo Sunkel, Agustín Cueva, Ruy Mauro Marini, Theotônio dos Santos, Vânia Bambirra, René Dreifuss, todos eles, fui conhecendo essas figuras durante um ano.

 

Depois, voltei para Florianópolis para ser secretário de administração do prefeito Edison Andrino, mas saí porque o governo nao respeitou as regras do Plano Cruzado. Quando eu saí, decidi que estava esgotada a minha práxis política e resolvi voltar a estudar. Fui para o México fazer meu mestrado. No mestrado, assim como no doutorado, estudei a Teoria da Dependência. Estudei no México a América Latina, a economia mundial e a Teoria da Dependência, mais especificamente a teoria marxista da dependência.

 

A economia latino americana compõe a economia mundial, mas como uma economia dependente e não como imperialista. Os países imperialistas dominam a cena. Os EUA é a cabeça, a Alemanha na Europa e a agora a China na Ásia. Os países periféricos são dependentes. Fiz uma revisão crítica dos autores, sobretudo mostrando que aqui no Brasil o sujeito mais conhecido era Fernando Henrique Cardoso e era uma fraude intelectual, agora visível, mas na época nem tanto. Ele se atribui aqui com a imprensa o pai da teoria da dependência, coisa que ele nunca foi.

 

O grande teórico da dependência a meu juízo é André Gunder Frank e Ruy Mauro Marini, um alemão e um brasileiro de Barbacena, ao qual me vinculei, conheci e trabalhei no Rio durante um ano e me acompanhou até a morte. Ele esteve na minha defesa de Doutorado, dirigiu o centro de estudos latino americano. Tive uma colaboração muito estreita com Marini, também muito estreita com a Vânia Bambirra, com Theôtonio dos Santos, etc.

 

Estudei porque o capitalismo aqui está baseado na superexploração dos trabalhadores e na transferência de riqueza para fora. Por isso eu não me iludo com a modernização de FHC, nem com o orgulho burguês de Lula. Isso tudo para mim é nulo, porque eu tinha estudado a fundo a relação entre os países periféricos e os centrais, entre o Brasil e os EUA. Então isso é uma conversa fiada de eleição que não tem sustento teórico, nem histórico e nem político como estamos vendo agora.

 

 

Estudei muito sobre os demais países latino americanos, as principais economias, Argentina, México, Venezuela, Colômbia. Não só vivi neles como estudei e continuo acompanhando. Esses países apresentam grandes diferenças, como grandes similitudes. A América Latina é uma unidade na diversidade.

 

A renda da terra, por exemplo, é muito importante na Venezuela e na Argentina por causa do petróleo e do pampa, mas agora também é importante no Brasil, por causa do Pré-sal e do latifúndio. O setor industrial aqui está desaparecendo, como desapareceu no México com o Tratado do Livre Comércio. Mas durante um tempo o setor industrial aqui foi muito importante.

 

➤ Uma das suas principais atividades na UFSC é o trabalho a frente do IELA. Fale um pouco sobre isso.

 

Todas as grandes universidades norte americanas e europeias, da China e do Japão possuem um instituto de estudos latino americanos, mas as brasileiras, não. E é parágrafo único da nossa Constituição, artigo primeiro, a constituição de uma comunidade latino americana das nações, com integração política, econômica, cultural, científica, etc.

 

O IELA faz projetos de pesquisa; uma linha de publicação muito ousada; a televisão com pensamento crítico, as jornadas bolivarianas, nosso evento anual, que é sempre dedicado a um tema; a revista eletrônica da rede brasileira de estudos latino americanos; mini cursos com professores de outros países e nossos, enfim, uma intensa gama de atividades.

 

| A CANDIDATURA |

 

➤ Sua vinculação com o PSOL, quando começou?

 

Eu me filiei ao partido em abril deste ano, mas até hoje sou eleitor do PSOL. Votei não só em Heloísa Helena, como votei em Luciana Genro, em Plínio Arruda, o tempo inteiro fui eleitor do PSOL. E, no segundo turno, eu não acompanhava o partido e votava invariavelmente em branco. Em 2014, no segundo turno, votei nulo.

 

Decidi o PSOL porque diante do espectro partidário pensei: em qual partido posso entrar para falar em revolução brasileira? Só no PSOL, que é uma frente, um partido que está se afirmando como tal, que precisa entender que tem que ser a vanguarda política do Brasil e para isso precisa definir um programa. É nesse sentido que eu entro no partido para, de maneira mais militante, contribuir com a definição programática do partido.

 

 

 

 

A razão pela qual eu me envolvi só agora tem a ver com a crise. O que me levou para dentro do partido foi a destituição da presidente Dilma. Quando a burguesia tirou a presidente Dilma, ela abriu um espectro para a esquerda que eu julgava impossível, por isso escrevi um artigo explicando porque a burguesia não ia tirar a Dilma. Eu achava que a burguesia não cometeria essa loucura. Eu julgava uma coisa clara: a burguesia não vai destituir a Dilma, porque se não abre um espaço de luta política que não tínhamos aqui. Quando a Dilma caiu e se configurou a crise econômica e política, eu vi que era a hora da atuação partidária.

 

Isso faz parte de um momento único, não é uma coisa que está acontecendo por acaso. Se nós não estivéssemos nessa crise provavelmente eu não estaria no partido, continuaria como professor, porque o espaço para a política seria pequeno, mas agora é imenso.

 

O PSOL, como o PCB e o PSTU, os demais partidos de esquerda pequenos, têm que ter clareza no debate petucano, de petistas e tucanos, que nós temos que fazer a reconciliação entre política e verdade. Essa ideia de que política e verdade não coincidem é própria do fazer político burguês. Mas nós que atuamos numa perspectiva revolucionária, socialista, temos a função de conciliar política e verdade. Fazer a maioria do povo observar que é preciso, necessário e indispensável. Por isso entro falando sobre a revolução brasileira, que não é uma invenção, é algo em curso. Ninguém acredita no sistema.

 

➤ O que o fez decidir entrar na disputa interna do PSOL para a sucessão de Temer na presidência da República?

 

A dramaticidade da crise. Essa crise não é uma simples recessão, é uma crise profunda, como foi a crise de 1930 e a crise que pariu a ditadura em 1964. Estou falando do colapso do sistema político brasileiro e do colapso da estratégia econômica. A ideia de um Brasil industrializado e forte dançou, porque não produzimos máquinas e equipamentos. Um capitalismo que não produz máquinas e equipamentos gira no vazio.

 

Quem desabou essa estratégia foi o Plano Real, de 1994, essa estratégia é do mundo das finanças, do que eu chamo de rentismo financeiro, ou capitalismo rentístico. A afirmação do capitalismo rentista fez parir essa crise, que é uma crise financeira do estado, de valorização fictícia do capital e ela não mais permite um ciclo industrial exuberante aqui.

 

O Brasil é um país afundado na produção de produtos agrícolas e minerais, de onde vem uma certa vitalidade para fechar a conta do balanço de pagamentos, mas não desenvolve ciência e tecnologia, portanto, tem profunda dependência. Por isso a elite moveu essa guerra de classe contra nós, com a supressão das leis do trabalho, da previdência social e a perenização do gasto financeiro com a emenda constitucional 95 (PEC 247) com a delimitação dos gastos. Isso colocou claramente que a austeridade é para sempre. Não é uma coisa passageira. Tem ainda o programa de privatização e o programa de internacionalização da economia.

 

De outro lado, a massa não acredita no sistema político. A corrupção revelou algo que a população já sabia. Os dois principais partidos do país, PT e PSDB, são iguais. Ambos defendem a mesma política econômica e agora a mesma política social. Na última eleição, entre Dilma e Aécio, isso ficou muito claro, principalmente quando a presidente venceu uma eleição contra o programa dos tucanos e aplicou esse programa, aí milhões de brasileiros não entenderam mais nada.

 

A combinação da crise econômica dessa dimensão com o colapso do sistema político, que não representa mais ninguém, é notoriamente corrupto e não tem capacidade de auto regeneração, além da dúvida das pessoas sobre o STF, sobre o Congresso e o Executivo, deixa claro que o sistema tem que vir abaixo, é isso que eu chamo de a hora da Revolução Brasileira. Isso é sair armado? Não! É quando a maioria não acredita mais no sistema e abre-se a possibilidade histórica de o PSOL assumir um papel protagonista, colocando quais mudanças devem acontecer e são mudanças radicais.

 

 

➤ Quais seriam as mudanças?

 

A primeira delas é romper com o sistema de valorização fictícia da dívida. Auditoria e anulação de grande parte da dívida interna. Porque é ilegal, foi feita à revelia das leis do Brasil, porque está atravessada pela corrupção e porque é impossível que toda riqueza aqui seja colocada para os rentistas.

 

A nossa dívida quando começou com o Plano Real, em 1994, era de 64 milhões. Era nada. E começou um sistema de multiplicação da dívida, uma criação artificial da dívida com FHC, que multiplicou por dez, levando a 700 milhões, Lula multiplicou por dois, batendo em 1,5 bilhões e a Dilma por dois, chegando a 3 bilhões.

 

Precisamos de uma auditoria para mostrar todos os crimes, que é o centro da corrupção no Brasil e naturalmente parar com a ciranda financeira, estancar o rentismo. Quem quiser ganhar dinheiro que vá para o mundo da produção.

 

Além da dívida, temos que fazer a reforma agrária, porque 70% do que a gente come vem da agricultura familiar e a economia brasileira está montada numa economia de exportação, o que significa que os recursos do Banco do Brasil estão colocados para os exportadores e o fortalecimento do latifúndio e nós com pressão inflacionária. 37% da inflação brasileira é fruto de alimentos.

 

Nessa agricultura que estamos produzindo, 60% dos custos são de importação de adubo, fertilizantes, máquinas, equipamentos. A gente gasta dólar por isso aí, escraviza o país, comete crimes ecológicos, tem uma alimentação de quinta e uma dependência financeira para enriquecer os latifundiários, uma parcela minúscula da população. Vamos ter que fazer a reforma agrária para tornar o campo muito mais produtivo para o mercado interno, baratear a reprodução da força de trabalho, controlar a inflação e, portanto, é uma medida de natureza econômica da mais alta importância.

 

Temos que fechar a conta de capitais. Essa ideia atual de que os capitalistas podem colocar para fora os dólares a hora que quiserem tem que ser fechada imediatamente. Essa concepção liberal segundo a qual o câmbio tem que ser livre tem que ser interrompida imediatamente.

 

Fazer uma política científica e tecnológica de ponta, que é absolutamente indispensável em todos os setores que a gente puder fazer, dar um projeto de universidade vinculado com o desenvolvimento científico e tecnológico e restaurar as condições básicas de saúde e trabalho da população.

 

Isso não se faz sem romper com o sistema político, com os banqueiros, os latifundiários, as multinacionais e os grandes comerciantes. Eles são poderosos, mas são um número pequeno. E agora tem um adicional: o que eles podem oferecer para nós? Salários? Empregos? Não podem. Não se trata de vender ilusões, mas de enfrentar o sistema. Agora não é só possível ou desejável, é necessário. Ou é isso, ou vamos lamber as feridas eternamente.

 

Por isso a revolução se tornou real, não é um ato de vontade, não é uma criação intelectual. A maioria da população tem que escolher, ou eles ou a morte. A taxa de desemprego está em 20% e mais de 83% dos assalariados no Brasil ganham menos de três salários mínimos.

 

 

➤ O senso comum consegue compreender a dimensão desses problemas?

 

Isso está em curso. Se você observar que a população não acredita nos políticos, é uma noção clara de que não está de acordo com o que está acontecendo. No Rio de Janeiro e em São Paulo, nas eleições municipais, o número de votos brancos e nulos foi superior aos votos para os candidatos.

 

➤ Quais são as demandas sociais mais urgentes no Brasil?

 

Tudo! 70% da população não tem saneamento básico. Não tem flúor na água. Isso é uma loucura. 12 milhões de famílias estão em déficit habitacional e o índice segue crescendo. Tem um programa habitacional a ser feito aí, não o Minha Casa Minha Vida, isso é uma amostra grátis.

 

Temos ainda o problema da educação brasileira. 80% estão nas universidades privadas, de péssima qualidade, e o número de jovens de 17 a 25 anos fora da escola é superior a 40%.

 

Na indústria cultural, nós estamos liquidados. Não temos sala de cinema, que é tudo de shopping internacional. As editoras estão desaparecendo nas mãos das multinacionais. Temos que montar um projeto cultural nacional popular exuberante. Isso está articulado com cultura, ciência e tecnologia, sistema produtivo, tem que romper toda essa lógica agora, ou vamos sentar todo mundo na frente do Game of Thrones.

 

➤ Qual a viabilidade da sua candidatura?

 

O Chico Alencar foi convidado pela executiva do diretório nacional do partido e ficou de dar uma resposta em outubro segundo ele mencionou numa carta e a mim próprio. Se ele disser sim, vamos disputar a convenção. Se ele disser não, por enquanto o único candidato do PSOL sou eu.

 

Estou articulando cada vez mais, conversando com o partido, discutindo com os companheiros, mostrando porque nós temos que definir com urgência. todos os candidatos estão aí fazendo campanha, exceto o PSOL. Isso é um erro, está prejudicando o partido. eu entendo os prazos do Chico, que é um belíssimo deputado e um companheiro extraordinário, mas nós não podemos passar essa crise sem firmar cada posição.

 

Várias organizações do PSOL já estão fechando comigo. Estou circulando o Brasil, já estive em Curitiba, Brasília, vou retornar lá para conversar com deputados, com nosso povo, conversar com gente lá, correntes de pensamento interna, entrevistas, discussões, conferências, em tudo quanto é canto do Brasil. Tem uma agenda imensa que estou fazendo dentro do limite, porque tenho que dar aula. Eu tenho segunda e quarta-feira, não sou um profissional da política igual ao Lula e ao Ciro Gomes, mas eles não têm a proposta da revolução brasileira e estão comprometidos com a crise, são homens do sistema.

 

 

➤ Qual a realidade do partido em outros estados? Aqui em Florianópolis a candidatura do Elson na última eleição municipal foi muito contundente, mas qual a realidade em outros estados?

 

A nível nacional a realidade do partido é de crescimento em todos os estados da federação. O desencanto com política é tão grande que o PSOL, por ser uma novidade e por ter errado pouco e por se manter coerente e firme, é um partido que desperta grande simpatia eleitoral.

 

Isso é uma parte do processo político da revolução brasileira. Nós temos que ter uma grande ascendência eleitoral, mas precisamos também ter um programa muito claro de transformação. Esse sentido eleitoral tem que se transformar em força material, em organização política, em lucidez dos sindicatos, das organizações populares. Sem uma organização desse nível e uma consciência sobre esse programa de transformação, a revolução brasileira não caminha. A eleição é importante, mas não é suficiente. Não se faz uma revolução com eleições.

 

➤ Caso não passe nas prévias do partido, pensa em lançar candidatura em outro cargo?

 

Não. Ou sou candidato a presidente, ou serei um disciplinado militante do PSOL nas lutas sociais e nas próximas eleições. Não quero ser deputado, senador, governador e nunca disputarei provavelmente um cargo dessa natureza. Não sou talhado para isso. O que eu faria no Senado? Seria inútil. Eu vejo meu amigo Requião lá. Eu vejo o Lindberg. É preciso um talento que eu não tenho para ser deputado e senador, uma tolerância que eu não tenho para a prática parlamentar.

 

➤ Mas a presidência também vai exigir tolerância, não?

 

Não, a presidência vai exigir em primeiro lugar lucidez, em segundo lugar, compromisso e, em terceiro lugar, uma coisa fundamental, o presidente tem que ter a obrigação de convocar o povo.

 

O presidente é uma autoridade nacional, nosso regime é presidencialista. O presidente não está lá para administrar para todos, mas sim para a grande maioria do povo. O presidente não está lá para conciliar conflitos. Está lá para arbitrar interesses, em favor de uns e contra outros. E o presidente tem uma tarefa pedagógica fundamental, que é ajudar a elucidar a consciência popular através de redes nacionais, comícios, conferências, dos atos de governo. É para isso que serve um presidente.

 

A figura do presidencialismo aqui está desprestigiada, tão desprestigiada que a burguesia brasileira está tomando a iniciativa de colocar entre nós a escrotidão, o banditismo do parlamentarismo, que é entregar para aquele covil de ladrões que é o Congresso Nacional, a tarefa de escolher o primeiro ministro. Imagine o que vai sair dali. Eles estão tramando isso na surdina, mas não vai passar, porque demanda um plebiscito. O nosso povo já derrotou duas vezes o parlamentarismo e afirmou o presidencialismo.

 

O povo não acredita no Congresso e faz muito bem e o presidente tem que pressionar o Congresso. É função de um presidente pressionar o Congresso em favor dos interesses populares. O Congresso chantageia o presidente todo dia. Vamos acabar com essa cretinice parlamentar.

 

 

 

➤ O cenário mundial apresenta uma guinada extremista, a América Latina também, se não extremista, ao menos a direita. Caso o Brasil adote a revolução brasileira, é possível que isso impacte no Continente?

 

Vai impactar, mas o diagnóstico do mundo é o contrário. Nos EUA apareceu a figura de Bernie Sanderes. O personagem da política não é o Trump, é Bernie Sanders. Na França o Mélenchon. Na Inglaterra, o Corbyn. A esquerda está aparecendo de maneira inusitada de todo lado. Os ares do mundo não são de direitização.

 

O novo não é a emergência da direita, é a emergência da esquerda. Na América Latina, observe o Macri, qual a popularidade dele? No Brasil, qual a popularidade de Temer? Do Santos na Colômbia? Essa direitização é incapaz de manter o voto e mais incapaz ainda de ter apoio popular. Qual o líder de direita popular na América Latina hoje? Não tem nenhum.

 

Estamos precisando de uma esquerda mais definida, com perfil mais nítido, com programa mais claro, foi o que Sanders conseguiu, Corbyn, Mélenchon, todos esses sujeitos foram colocando coisas muito claras. Nenhum governo de direita tem popularidade.

 

➤ O professor está apresentando ideias e mudanças profundas, elas são para curto prazo, longo prazo?

 

São para o curto, médio e longo prazo. Nós só temos uma tarefa aqui, fazer a revolução brasileira. Existem tarefas imediatas, como disputar essa eleição com um programa muito claro de transformação radical do Brasil, essa é a primeira. A segunda é, se eventualmente vencermos, implementar esse programa, convocar o povo parte fazer dessas transformações. Algumas serão imediatas, como fechar a conta de capitais e instaurar uma auditoria da dívida. Isso é imediato.

 

Segundo, uma radical transformação do sistema político, acabar com o Senado, fazer um Congresso unicameral. Porque é um escândalo que a população dê poderes a um sujeito por oito anos e por que ter duas câmeras? Qual a vantagem?

 

➤ Não é importante para balancear o poder?

 

Não. Isso gera um conservadorismo maior. O parlamento não pode ser um antídoto contra o povo, tem que ser a expressão do interesse popular e, portanto, o senado é uma excrescência que esteriliza o poder do povo. O senador se elege e volta a falar com a população em oito anos, fica imune de qualquer crítica e algumas matérias passam apenas por eles, como as relações internacionais.

 

Qual o sentido de representação para São Paulo ter três senadores, como Santa Catarina e o Piauí? Vamos acabar com isso e discutir um sistema mais representativo nacional. É indefensável o Senado. Não há um argumento favorável, exceto o da classe dominante. Lá ela tem ex-governadores, gente de peso que comprovadamente está a serviço da classe dominante e da corrupção, proporcionalmente o Senado é mais corrupto que a Câmara.

 

 

➤ Professor, o roteiro está encerrado, o senhor quer acrescentar algo que não foi abordado?

 

Quero insistir sobre a importância da revolução brasileira. As revoluções se tornam viáveis quando são necessárias. A maioria da população não acredita no sistema político e é nesse sentido que se instaurou a necessidade da revolução. Só uma revolução pode mudar isso. Essa revolução é uma imensa participação das massas na política com um programa. A população não quer saber desse sistema político, mas está interessada como nunca na política, tanto que ela rechaça isso. Num país onde o voto é obrigatório, ela diz, não participo. Isso é maravilhoso, é um dado de lucidez.

 

A mídia está totalmente corrompida. A população não acredita da mídia, sobretudo o jornalismo dominante. As empresas e os grandes capitalistas estão todos os dias no banco dos réus. Os juízes não gozam da confiança pública, vide Gilmar Mendes, para dar um exemplo. O Tribunal de Contas do Rio de Janeiro está atuando em Bangu. A maior parte dos seus membros está preso. Quando nenhuma instância está funcionando, é hora de uma revolução social, mas ela não ocorre no Parlamento e nem com meia-dúzia de iluminados, é todo povo participando.

 

Na eleição, uma candidatura tem que convocar o povo e colocar para ele a sua tarefa e conversar com ele sobre isso muito claramente. É a única forma de renovar o sistema político brasileiro. Se não você vai me pedir para começar a fazer o que é viável. O que é viável é manter tudo como está, porque a elite não permite mudar nada. Mas não só isso, a elite decretou uma guerra de classes contra nós, suprimindo direitos elementares e isso é inaceitável. Eles vêm por tudo, nós vamos por tudo. Ponto final!

 

 

Fotos:

Estopim Coletivo

Fotos preto e branco:

Arquivo pessoal Nildo Ouriques

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