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Precisamos falar sobre teatro negro

5 Sep 2017

 

O Coletivo Nega, em parceria com a profª Julianna Rosa, lançou em agosto o Curso de Teatro Negro em Florianópolis. Dividido em cinco módulos, o projeto visa ampliar discussões sobre o papel da população negra nas artes e no teatro negro e o próximo encontro ocorre em 21 de setembro, na Udesc.

 

Criado há sete anos, o Coletivo Nega, Negras Experimentações Grupo de Artes, surgiu como projeto de extensão na Udesc. O coletivo é formado por mulheres negras e é reconhecido pela performance Preta-à-Porter, apresentada em diversas cidades catarinenses e também em Brasília.

 

Nesta entrevista, Thuanny Paes, integrante do Coletivo Nega, explica os detalhes da criação e objetivos do coletivo, as transformações pessoais que a performance Preta-à-Porter causou em sua vida e as expectativas em torno do início e continuidade do Curso de Teatro Negro.

 

| A ENTREVISTA |

 

➤ Quando o Coletivo Nega foi criado e quais seus objetivos?

 

O Coletivo NEGA valoriza a cultura negra por meio da arte e é o único grupo de Teatro Negro de Santa Catarina. Sua existência e ações, porém, extrapolam o âmbito teatral e ampliam-se na construção cultural da arte negra catarinense. Para realizar esta construção, atores e atrizes, atualmente um grupo de jovens mulheres negras, desenvolvem um diálogo íntimo com a sociedade catarinense acerca de temas de interesse da população negra do estado.

 

O Coletivo NEGA surgiu há 7 anos de um projeto de extensão criado pela Profª. Dra. Fátima Costa de Lima, da UDESC, buscando suprir a falta de representatividade para a população negra no teatro e foi influenciado pelo Teatro Experimental do Negro (TEN), fundado por Abdias Nascimento há 68 anos no Rio de Janeiro.

 

Hoje, com apoio do projeto de extensão, mas independentemente dos professores, o grupo trabalha com administração e criação coletiva de Rita R.I, Fernanda Rachel, Michele Mafra, Franco e Sarah Motta e eu, Thuanny Paes, e tem como objetivo valorizar as produções teatrais de artistas negros, com destaque para as mulheres negras.

 

Esse destaque surgiu da criação e modificações da performance Preta-à-Porter, um trabalho de repertório do grupo criado há cincos, que parte de histórias e de conflitos enfrentados pela população negra. Essas histórias da vida pessoal são contadas na apresentação de cada artista que participa ou já participou do Coletivo Nega.

 

A performance mistura dança, canto, percussão, projeção e rap e a narrativa é modificada de acordo com a formação do elenco. Mais de 20 atores já passaram pelo espetáculo. As cenas, assim como as atrizes que permanecem no grupo, modificam-se sempre que necessário, de acordo com as inquietações e demandas poéticas e políticas.

 

➤ Fale um pouco como foram essas apresentações.

 

Poderíamos fazer um livro enorme falando de todas as experiências relacionadas ao Preta-à-Porter. São cinco anos e passamos por muitas coisas. Começamos com muita insegurança e sem saber no que iria dar. Era tudo novo para os membros: o teatro, falar sobre as questões raciais de forma nua e crua, participar de um grupo negro...

 

Ao longo dos anos, posso dizer que às vezes, para mim, é difícil diferenciar as mudanças da minha vida e as mudanças do Preta-à-Porter. É difícil separar o que foi vida pessoal, que refletiu na peça, e o que foi a peça refletida na minha trajetória. Isso se deve muito ao fato da criação ser coletiva, pessoal e mutável.

 

Dentre as diversas fases e experiências da performance, acho que a mais importante para nós é a transformação do público, de como a nossa arte está para além da sala de teatro e como transborda para a vida das pessoas que assistem. Muitas pessoas negras foram se empoderando depois que nos assistiram.

 

Outro fato curioso é que eu raramente vi atores ou atrizes de peças locais serem reconhecidos nas ruas, principalmente aqui na nossa cidade. Normalmente o público de teatro é restrito e elitizado, boa parte dele é composta de pessoas que também faz arte. Conosco é diferente. Somos reconhecidas em diversos locais. Dia desses estava andando na rua bem apressada e peguei um desses panfletos que são distribuídos aos montes. Peguei, agradeci e saí correndo, mas a senhora que entregou logo disse: "Vi sua peça, Preta-à-Porter, né?"

 

Por um momento esqueci da pressa e me senti muito feliz. Isso acontece com todas nós no cinema, no centro da cidade e mostra um pouco de como nosso trabalho atinge público e não apenas a classe artística.

 

 

➤ Em que teatros e cidades o espetáculo se apresentou?

 

Fizemos dezenas de apresentações na UDESC e na UFSC, além da várias apresentações em escolas municipais e estaduais públicas na região de Florianópolis, São José e Palhoça. Ficamos uma semana em Cartaz no SESC Prainha Florianópolis em março de 2016.

 

Apresentamos também em eventos Acadêmicos como o V SEREM (2015), Congressos de Serviço Social na UFSC (2016), II Congresso de Saúde da Mulher (Brasília), I EECUN (Primeiro Encontro de Estudantes Universitários Negros do Brasil), além de apresentações em eventos nas cidades de Balneário Camboriú, Piçarras, Itajaí e Joinville.

 

➤ A indústria cultural de Florianópolis dá visibilidade a atrizes e atores negros?

 

Primeiramente nós poderíamos nos perguntar o que seria a Indústria Cultural e se entrarmos em um acordo de que ela existe aqui em Florianópolis, perguntar: será que ela, de fato, dá espaço para os artistas locais?

 

Vejo que, na nossa cidade, a cultura e a arte têm pouco espaço e a negra menos ainda, pois é vista como atípica num estado que é vendido como branco.

 

Pensando nisso, vejo que a maior parte dos espaços na cidade não são cedidos e sim conquistados depois de muita luta. Nós tivemos a oportunidade de ter apoio do SESC, um dos únicos órgãos que fomenta a cultura. Apresentamos para um maior público a pedido deles, no ano de 2014, e a partir de lá não paramos mais.

 

➤ Uma das novidades do Coletivo Nega é a criação do curso de teatro negro, qual o objetivo dele? Empoderamento?

 

Nós estávamos cansadas, e ainda estamos, com a forma como a cultura negra não é abordada no âmbito acadêmico e escolar, ou com a forma rasa e sem conhecimento que o professores discutem esses assuntos, sempre tratando com algo transversal. Como uma população de 53% do país pode ter sua história dita como transversal?

 

Infelizmente acredito que isso só vai mudar quando tivermos professores realmente comprometidos em ler e pesquisar as questões que abrangem a cultura negra dentro de seus cursos. Somos muitos, mas se um professor não lê sobre o assunto com ele vai poder discutir isso em sala?

 

Nosso primeiro encontro foi muito feliz. O auditório não estava cheio, mas estava com gente suficiente para boas discussões acerca da temática. O mais legal do nosso curso é que ele é parte expositivo e a segunda parte é aberta ao debate dos participantes.

 

 

Foto de destaque:

Alline Volpato

Demais Fotos:

Página do Facebook do Coletivo Nega

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