• Estopim Coletivo Facebook
  • Estopim Coletivo Instagram
Please reload

Para onde vai a esquerda?

 

A esquerda se aglutinou em diversos movimentos históricos no Brasil. Foi perseguida, humilhada e torturada pela Ditadura Militar que ascendeu ao poder depois do golpe de 1964. Pediu Eleições Diretas no início da década de 1980 e, mais recentemente, resistiu ao impeachment de Dilma. Não conseguiu sucesso nessa batalha, como em tantas outras, mas foi capaz de derrubar Eduardo Cunha, poderoso ex-presidente da Câmara dos Deputados.

 

Em Santa Catarina, a esquerda tem poucas forças. Uma unidade popular comandou a capital do estado com Sérgio Grando prefeito (PPS) e Afrânio Boppré, à época no PT, como vice. Há muito tempo, entretanto, os partidos considerados de esquerda estão divididos por aqui.

 

Nas eleições de 2018, a fragmentação da esquerda é gritante, considerando as alianças nos estados. A começar por Santa Catarina, onde PDT, PCdoB e PSB - este último sem traços esquerdistas por aqui - estão coligados com a direita de Gelson Merísio (PSD), Esperidião Amin (PP) e João Paulo Kleinubing (DEM).

 

Os partidos de esquerda estão em quatro candidaturas diferentes em Santa Catarina. Além do PDT, PCdoB e PSB com Merísio, o PT lançou a candidatura de Décio Lima e não fez coligação com nenhum partido. O PSTU lançou Ingrid Assis também sem coligação. E o PSOL coligou com o PCB, assim como em outros 14 estados brasileiros, para lançar Leonel Camasão.

 

Onde a esquerda está no Brasil?

 

É comum ouvirmos que esquerda e direita acabaram no Brasil. De fato, os pensamentos de esquerda e de direita se misturam e se confundem em muitos cenários pelos estados. Mas é inquestionável que, nas últimas discussões do Congresso, por exemplo, era bem fácil identificar quem se situava onde. A direita se uniu para dar um golpe de estado e mudar os rumos do país.  A esquerda tentou barrar a PEC do Teto de Gastos e outras reformas do governo Temer.

 

Mesmo depois do golpe, o PT fez alianças com o MDB de Michel em quatro estados: Alagoas, Piauí, Sergipe e Pernambuco. Em todo o Brasil, está coligado em 12 estados com a direita e partidos cujos deputados e senadores votaram pelo impeachment de Dilma em 2016. O isolamento do PT em Santa Catarina se repete no Paraná e no Rio de Janeiro. Para o petista Décio Lima, não se trata de um isolamento.

 

“Não posso falar em isolamento, porque quem construiu uma relação com o povo, como a nossa, não pode se sentir isolado. Quem está disputando vaga no 2º turno não se sente isolado. A nossa aliança está se dando com o povo, com vários setores da sociedade”, disse.

Isolado em Santa Catarina, o PT de Décio Lima promete procurar seus aliados caso vá para o 2º turno. Na foto, Décio está ao lado de Haddad quando o candidato a presidente visitou Florianópolis em setembro.

 

O PDT está coligado em Santa Catarina e em outros 22 estados com partidos de direita. É a sigla de esquerda que mais se aliançou com os partidos de direita no país. O PSB fez 21 alianças com a direita nos estados. O PCdoB fez 17.

 

Segundo Angela Albino, o PCdoB norteou sua estratégia considerando a cláusula de barreira e o risco de perder sua institucionalidade caso não atinja o percentual mínimo de deputados federais eleitos de acordo com a Reforma Eleitoral, que é nove.

 

“Desde o começo a gente trabalhou com duas hipóteses: ir com PSD do Merísio, ou com o PT do Décio. Com o Merísio por causa de uma aproximação que vem desde 2014, ele foi o grande fiador da nossa aliança com Colombo. E com o PT seria um caminho natural, seguindo o campo nacional”, disse Angela.

O PCdoB precisa vencer a cláusula de barreira para manter a institucionalidade. Na foto, Angela Albino está em campanha com a jovem militância do seu partido e a candidata a deputada estadual Fafá Capela.

 

Por que a esquerda não formou unidade em Santa Catarina?

 

O PCdoB, o PT, o PSOL  e o PDT dialogaram bastante antes de os acordos se consolidarem. No entanto, por razões diferentes, não fecharam aliança. Segundo Afrânio, o PSOL fez suas escolhas considerando a conjuntura nacional.

 

“Não dá para discutir aliança fora de um contexto, porque elas devem respeitar duas coisas: princípios e coerência. Não podemos, em nome de um pragmatismo eleitoral, ir para o vale tudo. Com isso, nós não concordamos. E é preciso, portanto, buscar o equilíbrio entre o acúmulo de forças eleitorais para obter sucesso, afinal nós participamos e queremos sair fortalecidos e bem-sucedidos em uma eleição, mas nós não aceitamos a ideia de que para obter esse resultado a gente deve fazer um transformismo político”, defendeu Afrânio.

Em seu gabinete, na Câmara dos Vereadores de Florianópolis, Afrânio disse que a esquerda começa a se reorganizar em 2018. Um movimento que não termina agora.

 

Criticados por aliados históricos por causa da aliança com Merísio e constrangidos pelo apoio do candidato ao governo do PSD a Bolsonaro, o PCdoB manteve aliança de 2014 com o grupo de Colombo. Segundo Angela Albino, a decisão de fechar com Merísio se deu quando o partido percebeu que haveria uma fragmentação de todo campo e o PT ficaria sozinho. Para ela, nesse cenário, o espaço para o partido vencer a cláusula de barreira seria reduzido.

 

“Fizemos muitas conversas com o PT. O Décio em particular tinha uma expectativa de reunir a esquerda, com PSOL, PDT. Essa ideia, em particular, também nos entusiasmou, um campo que se identificasse em Santa Catarina com o mesmo cenário nacional, mas o PDT já tinha definição de ir com Merísio, o PSOL não tinha disposição de fazer aliança com o PT. Nós ficamos vários meses em conversa", revelou Angela.

 

A líder comunista disse ainda que se a esquerda estivesse unificada aqui, o PCdoB não colocaria o seu projeto em primeiro lugar em nome da premissa maior da unificação.

 

Na margem dessas discussões, o PSTU lançou a única candidatura de uma mulher para o governo do estado nessas eleições. O partido também enfrentará o desafio da cláusula de barreira.

 

“Para nós, o mais importante é o programa. Nosso critério para compor com alguém seria concordar com o programa e a gente apresenta um chamado à rebelião, defende um governo socialista. Não tem nenhum partido que defenda isso. Os partidos de esquerda se colocam junto de alianças de partidos burgueses. A gente acha que nenhum governo escolhido via eleição vai resolver o problema dos trabalhadores. A classe tem que se organizar e não é pela via eleitoral. A eleição é antidemocrática. Somos um partido sem TV, sem espaço, não somos chamados para os debates”, lamenta Gabriela Santetti.

O PSTU não é um partido de eleições, segundo Gabriela Santetti (c). Na foto, está acompanhada do rapper DKG (D), candidato a deputado estadual, Vera Lúcia, candidata a presidenta, com o professor Hertz Dias na vice, e Ingrid Assis, candidata ao governo.

 

Sobre a cláusula de barreira e o risco de perder sua institucionalidade, Gabriela disse que PSTU não é um partido para eleições.

 

“Somos revolucionários, organizamos greves, lutas locais de trabalho. Participamos da eleição para mostrar nosso programa, aproveitando o pouco espaço que temos para colocar uma alternativa”, explica.

 

O PT de Décio confirma as conversas e negociações com os demais partidos da esquerda. Décio disse ainda que recebe apoio da base, da militância e de lideranças dos partidos de esquerda que não estão na coligação, uns mais explícitos, outros mais constrangidos.

 

O petista disse ainda que vai procurar os demais partidos de esquerda caso vá para o 2º turno com Mariani (MDB), por exemplo, e os aliados PDT e PCdoB fiquem órfãos de Merísio. Segundo Décio, política é arte de aglutinar e a tentativa será feita desde que seja preservado o projeto.

 

“Nós tentamos com PCdoB, PSOL e PDT até o último momento. Todos os esforços inclusive no sentido de horizontalizar as decisões, tudo aberto, inclusive a própria candidatura, mas foram refratários porque tinham posições internas de disputar para marcar posições, outros falaram em cláusula de barreira e, por conta desses argumentos, não aceitaram os apelos que fizemos até o último momento”, lembrou Décio.

 

O PSOL recorreu ao plano nacional e criticou os movimentos que os demais partidos de esquerda fizeram no país e também no estado.

 

“Fica difícil falar em unidade na esquerda. Primeiramente, deveríamos responder quem é a esquerda e qual é o limite das alianças. Eu posso, por exemplo, em um determinado estado fazer uma aliança com o PT, ou com o PDT, mas isso não é a política principal. O PT fez outra opção, o Ciro também. A nossa opção foi reorganizar a esquerda. A deles, não”, ponderou Afrânio.

 

A líder do PCdoB, Angela Albino, fez um aceno positivo para os petistas em um eventual 2º turno entre Décio Lima e Mauro Mariani. Disse que o partido decidirá eventuais apoios caso Merísio fique fora da disputa e que, particularmente, acredita que o apoio natural seria para o PT. O petista, por sua vez, acredita que a esquerda se dirige para a unidade no futuro.

 

“Não perco a esperança e não começo um sonho pelas dificuldades. Tenho convicção de que as esquerdas estão aglutinadas com o nosso conteúdo e, em um futuro próximo, no 2º turno, ou na próxima eleição, será possível construir aquilo que a gente imagina de uma esquerda unificada, uma frente ampla. É o que vou procurar fazer de forma permanente. Reconheço a pluralidade da esquerda, não posso ser soberba e imaginar que só eu sou esquerda, outros partidos são imprescindíveis”, afirmou Décio.

 

Afrânio também acredita que a unidade da esquerda começa em 2018, mas não termina agora. É uma construção.

 

“Nós entendemos que, no meio dessa crise, tem que haver o que chamamos de reorganização política de um campo democrático popular no Brasil. Nossa postura nessa eleição, nacionalmente, é a de conclamar esses setores do campo democrático e popular - a esquerda em um conceito mais amplo - a refletir sobre a necessidade da sua reorganização, independentemente do sucesso eleitoral.

 

Afrânio também fez dura crítica ao seu ex-partido. Segundo ele, o PT pode até se sair bem-sucedido eleitoralmente, mas passou por um processo de PMDBisação, distanciando-se de objetivos que tradicionalmente caracterizam a esquerda.

 

Eleição vai, eleição vem e, mais uma vez, a esquerda não formou unidade eleitoral. Fragmentou-se e ou ficará fora do 2º turno, ou estará em governo de direita, que dará continuidade ao caminho que o estado percorre há pelo menos 16 anos sem a mínima chance para alternância.

 

 

 

 

 

Share on Facebook
Share on Twitter
Please reload

Gostou da leitura?

Assine a revista Estopim Coletivo

e financie a produção de conteúdo independente

sobre política e cultura.

Please reload