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Outros Versos

11 Jun 2018

 

A Ilha de Santa Catarina possui ativistas nas mais diversas áreas. Do direito à moradia ao combate à homofobia. Da luta pelo serviço público de qualidade ao movimento negro. A luta feminista também se faz presente aqui, com suas múltiplas facetas. A luta da mana negra não é a mesma da mana branca.

 

“É inegável que a gente vive em uma sociedade menos machista. Negar isso seria dizer que todas as mulheres que morreram por isso lutaram em vão. Existe uma evolução. Eu sou uma mulher que anda sozinha na rua e ainda corro um risco considerável, mas faço muitas coisas que minha avó e minha mãe não puderam fazer”.

 

Ciente do avanço, Andressa Versa também enxerga uma certa estagnação para o problema no caso das mulheres negras e cita o exemplo das suas amigas da periferia que ainda encontram dificuldades para conseguir trabalho.

 

“O movimento feminista avança, mas é só para algumas mulheres. Para outras, continua a mesma situação. Eu vejo um mundo menos machista, mas tem amigas minhas, que são pretas, mães, vivem na periferia e continuam com as mesmas dificuldades que as suas mães tiveram para alimentar as crianças e conseguir um emprego. Ou elas não são contratadas, ou ainda estão trabalhando como faxineiras e no trabalho terceirizado.”

 

Versa também considera a ampliação do diálogo sobre feminismo com mulheres trabalhadoras outro avanço necessário. Para ela, o tema é popularizado somente entre as mulheres que têm acesso à informação e as mulheres trabalhadoras têm uma noção prática, mas não sabem, por exemplo, da raiz histórica do problema.

 

“Sou do movimento feminista desde que tenho 14 anos e nunca vi a gente fazer uma roda de conversa para falar sobre o nosso privilégio de estar na faculdade, de ter acesso às informações e também não recebo incentivo para participar de outros debates.”

 

Suas críticas também recaem sobre as antigas ações voltadas ao Dia da Mulher na capital. Desde 2015, Versa participa da construção do 8M na Ilha, mas, para ela, as primeiras experiências, realizadas no Centro da cidade, foram tímidas, com disputas partidárias internas e campanhas que, na sua visão, reforçaram um estereótipo de feminilidade limitado à estética, que esvaziavam o significado político do evento para as mulheres.

 

“Antes, não era colocado como dia de luta. As mulheres que participavam tinham essa consciência, mas não externavam nos materiais e nas falas. Agora, está totalmente atrelado à greve geral e com a importância que o 8 de março realmente tem para a vida das mulheres. Temos que fazer lembrar o significado desse dia e não jogar a história das pessoas no lixo”.

 

Ela julga positiva a virada inclusiva no processo de construção do 8M a partir da edição de 2017 e considera o evento de 2018 o melhor exemplo de uma programação elaborada de forma coletiva, aberta, valorizando artistas e a cultura local e, consequentemente, superando as imagens conservadoras de feminilidade.

 

Um pezinho no Rock, outro no Punk

 

Esqueça tudo que leu até aqui ou sabe sobre Andressa Versa. Agora, feche os olhos e tente imaginá-la vestida de preto, com pulseiras de metal no maior estilo Rock’n Roll. Conseguiu visualizar? Quando Versa revelou seu passado no Rock, eu também não.

 

“Eu era muito Rock N’ Roll. No interior, não tem Rap. Tinha 509E e Racionais, mas lá na minha cidade isso era música de bandido. Minha mãe e minha irmã nunca escutaram isso. No interior, é outra realidade. As pessoas não crescem na quebrada, não têm amigo ex-presidiário... Antigamente as pessoas matavam gente no interior e nem eram presas. Era outra fita, outra vivência.”

 

Mas o gosto por Rock e Punk tem fundamento: veio com o ímpeto da revolta que Versa, ainda menina, começou a nutrir. Se na sua cidade o rap não ecoava além dos clássicos RZO e de Negra Li, que tem um estilo mais próximo do pop, as bandas de Rock e Punk autorais de Chapecó atraiam a meninada.

 

Desde pequena, questionei muito essa fita de as pessoas me limitarem por ser mulher. Desde não poder brincar na rua depois que as luzes do poste apagam, até não poder sair porque, saindo ou não com alguém, estar na rua já fazia de mim uma menina ‘rodada’ em uma cidade pequena.”

 

A criação materna

 

Um acidente trágico tirou a vida de Anildo Versa, pai de Andressa. A tristeza abalou todas em casa, mas era necessário seguir.

 

“Ele era motorista de caminhão e tinha uma garagem de automóveis. Ia de uma cidade para outra e, em uma dessas, faleceu. Foi horrível! Minha mãe tinha acabado de ter minha irmã mais nova, que estava com 25 dias. Eu tinha três anos e minha irmã mais velha 13. A mãe sofreu pra caralho. Ela trampava muito e era sindicalista. Sempre foi uma pessoa bem politizada, apesar de não escapar da construção machista da sociedade.”

 

Na ausência do pai, a família ganhou nova dinâmica. A avó e uma tia passaram a morar com elas. O pulso firme da casa caiu no colo da irmã mais velha de Andressa, a advogada Andréia Luiza Versa.

 

“A minha mãe trampava fora e a minha avó cuidava da gente. Minha mãe é uma pessoa muito foda, mas ela ficou emocionalmente abalada. Minha irmã mais velha também teve um papel muito importante. Depois que perdemos o pai, a mãe sempre foi meio branda. Às vezes faltava um pouco de autoridade e a minha irmã velha foi essa figura respeitada, de quem a gente tinha medo em casa, em quem a gente se espelhava e queria ter aprovação.”

 

A abordagem feminista nas letras de rap

 

 

A maioria dos artistas que Versa acompanha atualmente são mulheres que, assim como ela, estão no rap para desconstruir padrões. Algumas, inclusive, são suas amigas da Trama Feminina e das batalhas de rap da Ilha de Santa Catarina.

 

“Ultimamente só tenho curtido som de mina. Gosto da Cris SNJ, acho que ela é minha maior referência. Gosto muito do Rap Plus-Size e admiro o corre de pessoas que são próximas. A Moa MC é uma referência para mim, a Ká Alves, a Souto MC, a Brisa Flow. São mulheres que estão agora no rap nacional, que começaram a caminhada antes de nós e abriram várias portas. Admiro a Karol Conká, apesar de agora estar fazendo mais música pop. Admiro a Negra Li, Rimas e Melodias, gosto muito da Preta Rara, da Flora Matos”, diz.

 

Na lista também cabem artistas internacionais, como Queen Latifah, Reverie e Snow Tha Product e expoentes nacionais, como Eliane Dias, da Boogie Naipe, as minas da Frente Nacional de mulheres no Hip Hop. Versa fecha a lista citando as DJ’s Miriam Alves e Sophia.

 

O machismo no rap

 

 

Muitas são as letras e passagens do rap que contribuem com o machismo estrutural da sociedade. Versa é crítica a isso, mas faz uma análise dos fatos considerando o lugar de fala dos rappers: a periferia. Lá, quem fala baixo não é respeitado, é atropelado.

 

“O movimento hip hop se originou na periferia e os homens da periferia têm uma construção de masculinidade muito diferente dos homens privilegiados. Eles são cobrados a ter uma masculinidade e a disputar território. Também é um rolê de protesto. Então as pessoas falam alto mesmo e, por essas características, o rap é tirado como um movimento masculinizado.”

 

Por essas e outras, são as minas que representam a maior motivação para Versa dar continuidade ao seu trabalho no rap.

 

“As minas, para mim, são minha família. Quando eu tenho alguma coisa, falo com elas. Se for pra seguir sozinha fazendo um som, não sei se eu sigo. O que me motiva mesmo é poder trabalhar com elas e ver a parada virando para todo mundo. Elas são quem mais me dão força e não só as minhas amigas, mas todas as minas que eu encontro nos lugares que vou. Eu viajo bastante, sempre tento colar em batalhas nos outras cidades e sempre tem uma mina que me fala várias paradas que me dão vontade de continuar.”

 

A mais recente dessas viagens foi para Chapecó, de onde ela voltou com o papelzinho de campeã. Recentemente, Versa também visitou Porto Alegre e a Bahia.

 

“Fui para Salvador, Boipé e Itacaré. As minas lá são muito foda. Tem a Áurea Semiseria, que eu curto muito trampo. Tem a Mira Potira, a primeira mulher a ir para o duelo Nacional de MC’s e tive o prazer de conhecer a Mira. Tem a Cíntia Savoli também.

 

No início da carreira, em plena efervescência criativa, Andressa Versa sonha entregar valor ao mundo por meio da cultura. Sua arma é o rap, sua motivação são as amigas e suas mensagens desconstroem o machismo e o patriarcado. Eis a história de uma MC que vai permanecer batalhando no rap e na vida.

 

“Meu sonho é fazer alguma diferença, alguma coisa que cause transformação no meio que faço parte. Quero trabalhar com cultura, com arte, com algo que gere uma reflexão, uma transformação social… e que dê para pagar as contas! [risos]. Acho que é o sonho de todo artista independente. Queria muito que fizéssemos a diferença, que as coisas nas quais nós investimos energia para organizar agora, causassem um reflexo na forma como o mundo vê nós mulheres, artistas e pessoas que vivem à margem.”

 

 

Fotos: 

Lucas Silochi / Estopim Coletivo

 

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