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Os camaleões de Rizo e as cores da resistência

25 May 2017

 

Começou quando criança, interessado por desenhar e pintar, uniu seus interesses à cultura da imagem. O gosto ganhou vida com a presença de histórias em quadrinhos, charges, desenhos animados, videogames e cards de RPG, que mais tarde se tornaram a fonte de inspiração para seu trabalho, o grafite.

 

Rizo vem alçando os muros, paredões, carros e até metrôs para expressar sua arte. Acredite! Em seu perfil no Instagram @rizo.ci, é possível conferir parte de seus trabalhos que estão expostos em meio ao seus caminhos por outros países, como Argentina, Estados Unidos, Espanha, Suécia e Índia. Na rede social, fotos de telas, desenhos e grafites, com a localização de onde podem ser encontradas.

 

Segundo ele, somente na vida adulta formou suas concepções, assimilando a identidade de sua auto-expressão. “A concepção disso tudo como forma de arte veio mais tarde, no início da vida adulta, quando passei a entender também o que fazia como uma forma de auto-expressão, como um meio de transpor o meu próprio universo interior. Nesse momento, o grafite veio até mim como uma válvula de escape.”

 

 

Rizo diz ainda que acredita na arte como forma de transformação e completa: “A arte tem esse poder de alterar a percepção dos indivíduos a respeito do seu próprio universo, ela demonstra novas possibilidades, diferentes formas de interpretar o mundo real.”

 

“Nosso mundo real é muito normativo, somos conduzidos a ver o mundo de forma padronizada, sistematizada. Logo, a arte é por essência uma forma de resistência”, completa Rizo. “Arte para ser ‘boa’ deve nos causar essa sensação de desconforto, de contradição, de relutância às formas orientadas de pensamento. Tem uma citação do Sergio Vaz que diz algo como: ‘a verdadeira arte é aquela que sacode os sonolentos, e não aquela que embala os adormecidos’. Para mim esse é o verdadeiro papel da arte.”

 

“O grafite, para mim, representa isso em sua essência, independentemente se é visto ou não como arte ou se é esteticamente apreciado ou não. O fato de fazê-lo já cumpre o papel de resistência. Ele dá novo significado ao espaço, oferece uma nova interpretação sobre a cidade. Um muro, vira tela. É uma janela aberta em uma parede sólida.”

 

 

Questionado sobre como enfrentar a repressão ao seu trabalho, Rizo responde: “Eu não enfrento, eu lido. Isso sempre vai existir enquanto existirem pessoas ou instituições dispostas a defender o modelo padrão de pensamento. Cabe a mim lidar com isso, não posso esperar que todos aceitem a forma como vejo o mundo. A minha forma de lidar é mostrar a autenticidade do que eu faço, defender a minha verdade e esperar que isso, de certa forma, transforme essas pessoas e instituições. Não faço isso através do enfrentamento mas sim do diálogo. Já sofri todo tipo de agressão física e verbal, assim como as consequências legais do que eu faço. Mas isso só me fez mais experiente, abastecendo meu repertório, o que me fortalece e me faz cada vez mais, ver que esse é o caminho.”

 

Faz parte da natureza do artista estar constantemente se transformando e se adaptando ao ambiente para sobreviver, por isso a escolha do Camaleão que, nas palavras de Rizo, é um bicho muito esquisito e com tantas coisas únicas e diferentes de outros animais que nem parece ter vindo de alguma linhagem evolutiva.

 

“Parece mesmo uma criação surreal de algum artista excêntrico. Pra mim, ele representa uma metáfora do que falei sobre transformação. Ele contraria todas as possibilidades óbvias, está na contramão do que esperavam que ele fosse. Vai muito além da habilidade de mudar de cor. Fora isso, existe todo um arquétipo a respeito do camaleão que me atrai e que sinto que me representa. Para mim fazer esse animal exótico sobreviver e se adaptar a todo tipo de ambiente hostil nas paredes das cidades é um desafio que me motiva.’’

 

O artista se vê influenciado a todo momento pelas coisas que o cercam, como a natureza com suas cores e texturas, assim como a cidade e seus espaços degradados.

 

 

“Minha mente trabalha de forma camaleônica. Eu vejo o que está a minha volta processo e reflito. Filtro e me adapto. É muito semelhante com o processo de ‘observar e absorver’ que o Eduardo Marinho fala. E minha identidade vem disso, de transportar para minha pintura o que tenho disponível a minha volta.”

 

Conta ainda que não tem nenhuma parceria fixa, ou qualquer tipo de subsídio ou patrocínio. Porém, a busca é constante por patrocinadores e apoiadores para projetos que precisam de maiores recursos para serem viabilizados.

 

Rizo desenvolve dois trabalhos voluntários há alguns anos. O primeiro é o ComunidArte, que realizou a primeira edição em 2015, na comunidade Vila União em Florianópolis. Trata-se de um encontro de grafiteiros que, voluntariamente, pintam casas dos moradores na comunidade, com o ideal de revitalizar e humanizar esses espaços. Algo semelhante ocorre num segundo projeto, que chegou recentemente a segunda edição, o Mocotó Cor, um evento também voluntário em que os grafiteiros recriam uma verdadeira galeria de arte na entrada do Morro do Mocotó, onde são convidados a expor seus trabalhos a cada ano.

 

“São ações que me dedico por acreditar justamente nesse potencial transformador da arte, e é visível essa transformação, principalmente na autoestima dos moradores em relação ao lugar onde vivem. A ideia é que ano após ano dar continuidade a esses projetos e conseguir atender a diversas outras comunidades, para levar arte livre ao acesso de todos.’’

 

 

Foto:

Arquivo Pessoal Rodrigo Rizo

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