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O homem que aprendeu a ser com o mar

8 Jul 2013

“O que é a nossa vida perto da eternidade?”, pergunta Luiz Otávio, um homem com espírito de criança e o saber de um experiente pescador

 

 

Estamos na Enseada do Brito, um dos únicos locais colonizados pelos açorianos no município de Palhoça, Santa Catarina. Ainda encontramos a típica igreja açoriana com apenas uma praça de distância do mar, marca registrada do colonizador. O lugar parece ter se perdido no tempo, com casas construídas pelos fundadores e ruas ainda lajotadas. As horas parecem demorar um pouco mais a passar, pelo som das ondas quebrando na praia, ou talvez por ser a característica mais marcante da principal atividade econômica da região: a pesca.

 

Não é preciso esperar por muito tempo para avistar um pescador saindo de casa com suas redes ou qualquer outro aparato de pesca. Os barcos ficam todos ancorados de frente para a Igreja, referência antiga da comunidade. De cima da torre principal podemos avistar, em especial, um barco não muito grande, de cor vermelha desbotada – talvez um pouco mais puxada para o laranja -, bem próximo da areia. É o barco de Luiz Otávio Martins, figura mais do que conhecida na região.

 

O homem de 43 anos, que acredita na força dos trabalhos em prol do meio ambiente, passou 32 anos dedicando sua vida pessoal e profissional ao mar, tanto praticando quanto fazendo cursos profissionalizantes relacionados à pesca e ao cultivo da ostra. Aprendeu quase tudo o que sabe com o pai, Manoel Nelson Martins, que conhece praticamente todo o litoral brasileiro. Pescador por herança e pescador por opção, fugiu do estudo regular enquanto ainda cursava o Ensino Médio. “Meu professor disse que estávamos estudando para uma vida em escritório. Não era o que eu queria”, declara com um sorriso vitorioso, um sentimento meio inocente, quase infantil.

 

Em uma conversa rápida, o pescador mostra que entende de tudo um pouco, e não somente a respeito da pesca, mas também de coisas simples, sobre as quais as pessoas costumam complicar. Instigado a pensar sobre o que é a vida, Luiz Otávio mergulha na sinceridade de seus olhos. Com a testa franzida e a voz um pouco alterada, quase num apelo para que as pessoas entendam de uma vez por todas o que pensa, responde: “A vida é uma passagem muito curta por este planeta.

 

O que é a nossa vida perto da eternidade? Uma árvore, que todos dizem não pensar, vive mais de 200 anos, e nós temos apenas 80, 100… É muito pouco! Imagina ainda ficar estressado, na fila, no trânsito, dentro do ônibus, cuidando da vida do outros. Deixar de viver a sua própria vida para ficar escravo do dinheiro; ganhar dinheiro, bastante dinheiro. No final, todo mundo é carregado lá para a comunidade dos pés junto, atrás da igreja, do mesmo jeito”.

 

Com cursos profissionalizantes nas áreas de saneamento ambiental, manutenção em motores marítimos, ostreicultura e mitilicultura (cultivo industrial de mexilhão), Luiz Otávio não tem medo ao dizer que deixou formações convencionais para trás e focou sua vida no trabalho com a natureza. “As pessoas costumam esconder essas coisas, mas eu tenho orgulho”, afirma ao dizer que tem todos esses cursos em seu currículo de trabalho. Currículo este que teve de estruturar assim que se candidatou a diretor da Casa da Cultura na Enseada de Brito.

 

A Casa da Cultura da região é algo de muito valor para o experiente pescador. Com olhos apertados e sobrancelhas quase juntas, queixa-se da falta de cursos como entralhe de tarrafas, componente fundamental na cultura pesqueira. E é com detalhes neste sentido que Luiz Otávio mais se preocupa. A busca pela manutenção da cultura açoriana está presente em todas as suas falas. O sotaque manezinho marcado, e a fala simples parecem não se importar em caracterizar o discurso muito bem estruturado e todo o saber nele presente.

 

Luiz fala como quem quer compartilhar o máximo de informações possível com qualquer um que se predisponha a ouvir suas aventuras e conhecimento acumulado. Os olhos num tom castanho claro, emoldurados por algumas rugas causadas pelo tempo, transbordam a paixão pela vida calma e rica em histórias. A paixão pela família é algo que aparenta querer esconder, mas o sorriso de canto sempre acaba surgindo toda vez que fala de como a esposa ajuda na estrutura de seu currículo.

 

Enquanto andava pela areia molhada, falando sobre as algas cor de rosa grudadas em sua rede, o pescador diz ter como sonho de consumo um veleiro oceânico ancorado na Baia da Enseada. No mesmo momento, comenta a sorte de um americano por ter ganhado uma bolada num desses sorteios de lotérica. O olhar baixa, não como alguém que acaba de ser derrotado, mas como alguém que ainda tem muitos sonhos a se concretizarem.

 

Publicado originalmente no antigo blog do Estopim em 08 de julho de 2013

 

 

Foto:

Mariana Smânia / Estopim Coletivo

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