• Estopim Coletivo Facebook
  • Estopim Coletivo Instagram
Please reload

O Pedido do seu Arlindo para 15/3

15 Mar 2018

Aos 80 anos, Arlindo já tinha visto muita coisa ao longo da vida. Mas, aos 80 anos, Arlindo não compreendia bem a estranheza de algumas coisas que acabara de ver. Também aos 80 anos, Arlindo não entendia o porquê de algumas discussões inúteis.

 

Arlindo queria gritar aquilo ao mundo. De alguma maneira, queria tornar pública a sua vontade de dizer coisas que somente ele, e pouca gente com vida, tinha visto. Aos 80 anos, ainda se entristecia com tanta coisa e, antes de morrer, queria a oportunidade de tornar audíveis suas dores e preocupações.

 

Arlindo queria partilhar sua vivência com todos, e foi no Estopim, um jornalzinho simples da cidade de Estinorte, interior do Cafundó do Judas, que ele teve a oportunidade tão desejada. O velhote pode então soltar o verbo e descer a lenha depois que ganhou um espaço na seção de artigos do jornal. Eis o pedido que Arlindo fez aos leitores do Estopim, o melhor jornal de Estinorte e para todos os cidadãos em Cafundó do Judas:

 

Pedido do seu Arlindo

 

coxinhas, paneleiros, governistas, demais autoridades, mães, pais e responsáveis, o pessoal da direita, da esquerda, o pessoal acomodado ali no centro e também os indecisos e os inseguros, todos vocês, Vossas Excelências do Poder Judiciário, caminhoneiros, manifestantes, comunistas, movimentos sociais, gente rica, gente pobre, fascistas, o pessoal da Lava-Jato, todos vocês aí, prestem atenção no que eu gostaria de dizer.

 

Eu já vi muita coisa acontecer neste Brasil. Vi as controvérsias causadas por Getúlio Vargas, nos seus diferentes períodos de comando. Vi Luís Carlos Prestes apertar as mãos de Getúlio mesmo depois de o presidente ter mandado matar sua mulher Olga Benário. Vi a criação da Petrobras, sim da Petrobras e, antes disso a consolidação das leis do trabalho.

 

Vi e apaguei da lembrança o governo de Café Filho. Vi Juscelino construir Brasília e Jânio Quadros renunciar cheio de caspas. Vi Jango anunciar as reformas de base e os militares assumirem o comando por meio de um golpe que eles têm a cara de pau de nomear como uma revolução e que foi apoiado pela mídia, por civis e cristãos em nome de uma tal ordem e de uma família.

 

Vi torturas, vi perseguições políticas, vi mortes e cenas que ser humano nenhum poderia sofrer ainda mais das mãos de um semelhante. Essas coisas que eu vi nos 21 anos de Ditadura Militar no Brasil eu não quero ver de novo. Eu li na obra de Paulo Markun e de Flávio Tavares narrativas que eu não quero nem pensar em ver novamente.

 

Então, quando eu vejo que há pedidos de algo apenas parecido com isso na boca de gente desinformada, fico extremamente irritado. É que eu ouvi as promessas do MDB querendo reescrever as linhas da democracia e vi Ulysses Guimarães promulgar uma Constituição. Vi o movimento das Diretas pedindo o direito ao voto nas eleições e um Colégio Eleitoral escolher Tancredo Neves para a presidência. Vi ainda José Sarney ganhar para si poderes que não honrou no cargo político máximo desse país nem durante e nem depois de seu mandato.

 

Eu vi as primeiras eleições diretas escolherem um tal de Fernando Collor ao Planalto, este calhorda que mesmo depois de sofrer um impeachment conseguiu ascender ao poder novamente para enriquecer mais e mais de maneira ilícita por meio da política, ou melhor, da corrupção.

 

Eu vi um monte de brasileiros pintando as caras. Vi Itamar Franco, vice-presidente da República assumir o poder, porque quem assume o Poder depois do impeachment é o vice-presidente, não pode ser um golpista qualquer. Eu vi a criação do Plano Real, a estabilização da moeda e vi Fernando Henrique Cardoso virar presidente e inventar a reeleição para permanecer no poder.

 

Eu agradeci quando estava vivo para poder ver que um metalúrgico, de origem muito pobre, ocupou a presidência do meu país e mais ainda quando vi que ele tirou milhões de brasileiros da fome. A fome, devo lembrar, mata. Eu vi uma mulher que depois de ser torturada pela Ditadura trabalhou, trabalhou, trabalhou e virou a primeira mulher a comandar o nosso país.

 

Vi gente voltando às ruas por causa das cobranças absurdas do transporte público e vi mais e mais violência da Polícia Militar contra pessoas dignas. Vi essa jornada perder seu foco e pessoas reivindicando saúde, educação, pipoca padrão Fifa, Doritos sabor mandioca usando narizes de palhaços querendo dizer que, na verdade, não o eram. Não sei a quem queriam enganar. Bagunçaram um movimento legítimo que ao menos conseguiu derrubar a tarifa.

 

Eu não vi ainda, mesmo tendo visto maravilhas mil neste país, não vi ainda ninguém resolver o problema da corrupção. Vi a criação de campanhas que chegaram até as Organizações das Nações Unidas (ONU), tentando mostrar que todos temos a ver com a corrupção, mas vi poucas pessoas pondo a mão na consciência para entender o que isso realmente quer dizer.

 

Vi muita coisa, minha gente, vi até coisa que não queria ver. Quando a inteligência atingia sua plenitude, além de olhar, eu busquei ver e, algumas vezes, consegui até reparar. Por isso, sinto que é necessário dizer: cuidado com o que vocês estão pedindo. No mais, aproveitem a vida, aproveitem esse ar lindo,

 

Arlindo.

 

Publicado originalmente no Facebook do Estopim em 10 de março de 2015.

 

 

Ilustração:

G. Pawlick

Share on Facebook
Share on Twitter
Please reload

Gostou da leitura?

Assine a revista Estopim Coletivo

e financie a produção de conteúdo independente

sobre política e cultura.

Please reload