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O DNA de Din Rose

13 Nov 2017

 

Na opinião de G. Pawlick, seu companheiro, Amor da vida é a melhor; para Maria Eduarda, sua filha, também, mas na versão em inglês, Flame; para Gustavo, seu filho, Never Land e, para ela própria, que esteve presente na criação de cada acorde do novo disco, Mr. Apollus ou Magician Scissorhands. Entre eles, um consenso: Pilgrimage, o segundo álbum de Din Rose, e os dois EP’s, um com faixas em português e outro com uma música eletrônica, é um pacote de novidades, em que tanto os fãs da cantora, como quem ainda não conhece seu trabalho musical, podem escolher facilmente a sua canção favorita.

 

Diferentemente de Incredible World, o primeiro álbum de Din, que foi produzido ao longo de um ano, Pilgrimage foi concebido nos quatro meses de confinamento da cantora, de seu produtor e outros artistas. Nesse período, além de Din e Tom Fabian, seu produtor, habitaram o Castelo de Lila, estúdio de gravação montado nos Ingleses exclusivamente para a produção deste novo disco, diversos talentos. Focada no trabalho, Din foi amparada sucessivas vezes por amigos, familiares e outros profissionais que também emprestaram suor e talento ao novo álbum

 

Gustavo Secco trabalhou nos roteiros, captação e edição dos videoclipes. Ele foi dirigido por G. Pawlick, que também deu pitaco em boa parte das músicas, mostrou referências aos músicos e é o diretor de arte do disco. Evandro Secco, produtor executivo de Din e pai de seus dois filhos, desde sempre acompanhou sua carreira e, dessa vez, não foi diferente. Cercada por pessoas que ela chama seus familiares de sangue e de alma, Din se sente privilegiada por contar com eles na labuta e na vida. Citando Fernanda Montenegro, torce para que todos brilhem, assim, o mínimo que pode acontecer a ela é pegar um bronzeado.

 

Cesar Augusto Vitelli a conhece de outros carnavais, ou melhor, de outro disco. Ele e o filho Thomas Vitelli escreveram letras e tocaram, respectivamente, piano e violão em Incredible World. Agora, Vitelli fez o arranjo de piano da música The Mountain, de sua autoria. Além disso, ele está no piano em outra faixa do disco, Hallucination.

 

O álbum conta ainda com a participação do músico Anderson Delavéquia no trompete de Mr. Apollus, canção que fecha o disco, e Leandro Dias, conhecido como Gofa MacLorihem, que trouxe os tambores irlandeses, flautas e a gaita de fole para inúmeras faixas, dando uma pegada de world music ao disco com esses instrumentos.

 

 

Vem aí, Pilgrimage

 

É a própria Din Rose quem considera Pilgrimage o seu DNA musical. O seu novo álbum tem 11 faixas, todas compostas em inglês. Não adianta questionar o fato de uma artista brasileiríssima, de Florianópolis, produzir suas músicas em inglês. Segundo ela, esta é a língua das suas emoções e é como consegue entregar o melhor de si para os fãs.

 

Apesar de não saber exatamente o que era esse tal DNA musical, Din seguiu sua intuição, que atrelada ao profissionalismo dela e do produtor resultou na fórmula capaz de fazê-la saltar no estúdio afirmando: é isso, é isso!

 

“Esse disco é minha alma. Eu passei por todos os caminhos daquelas letras, portanto, não é ficção, aquilo é realidade. O artista nunca está satisfeito, mas não me justifico com esse disco. Tenho orgulho, porque tem verdade ali dentro. Cada letra, cada melodia, cada acorde que tem ali, eu estava sentada do lado, se não compondo, trabalhando com o Tom e dando liberdade a ele também, porque é um grande artista”, ressalta Din.

 

Sentimento comum aos poetas, escritores e aos grandes artistas, a dor também é uma marca em Pilgrimage. As feridas abertas com a perda de pessoas próximas, como o sogro Gesoni Pawlick, a quem chamava de pai, e da mestra, Dulce Magalhães, inspiram o trabalho. É para eles e todos os amigos, que Din dedica o novo álbum.

 

“Dor! O que é a dor? A lagosta tem três estágios de crescimento e ela vai descascando para o segundo e depois para o terceiro. A águia, aos 40 anos, se depena, arrebenta o bico, rasga as unhas e vai para o segundo estágio da vida. A dor é isso, só que nós artistas temos o dever de transformar isso em arte e ser uma espécie de fio condutor para esse tipo de sensibilidade”, frisa a cantora.

 

 

Choques no Castelo de Lila

 

Pilgrimage reúne muitos artistas, mas em verdade, é o resultado do isolamento de Din e Tom no Castelo de Lila. Nos idos de 2011, eles se conheceram degustando peixe cru, em São Paulo, onde brotou a vontade de um dia trabalharem juntos. No intuito de encontrar o cerne de seu trabalho neste seu segundo álbum, Din quis contribuir com a produção do disco e ter a liberdade para escolher os músicos, o estilo e a linha autoral que pretendia seguir.

 

Depois de retomar o contato com Tom Fabian, a antiga intenção se concretizou e o projeto demandou brutal paciência de ambas partes. A experiência de morar no mesmo lugar em função do trabalho teve dias de glória, mas também teve dias em que objetos foram lançados contra a parede para conter crises de insatisfação.

 

“Isso de dividir a produção é algo delicado, porém, foi levado com maestria pelo Tom. Essa liberdade que ele deu de sentar ao lado, construir e desconstruir junto, isso foi delicado e não é com todo mundo que se consegue. A gente transcendeu o desgaste e quando o desgaste é superado, se vai para um segundo nível. Foi nesse momento que se descortinou essa coisa de encontrar o meu DNA no disco”, explica Din Rose.

 

O parceiro de Din na construção de Pilgrimage começou na música quando seus pais, também músicos, ainda estavam grávidos. Aos sete anos ele se apropriou de um antigo Del Vecchio, herança de sua avó. O fato de o violão ter apenas quatro cordas - as duas mais agudas estavam estouradas - não foi problema. Aos 14 anos, Tom estava dentro de um bar punk na Rua Augusta para o seu primeiro show e não parou mais. Tornou-se um multi instrumentista, passeando entre bateria, guitarra, baixo e piano e dividindo palco com nomes conhecidos do cenário musical brasileiro.

 

Pilgrimage tem as influências em comum de Din e de Tom, como os clássicos dos anos 1980 e músicas do estilo indie e rock. Além disso, o álbum é o impacto da interferência romântica e de rock clássico dela, e do punk e jazz dele. O resultado final é um disco repleto de surpresas, com instrumentos como gaita de fole, flauta e tambores irlandeses, além de muitas homenagens. Para a artista, 2017 foi um ano de grandes perdas, mas elas não passaram sem o devido tributo.

 

Artista, mãe e mulher

 

 

Din é uma mulher obstinada. Quer o melhor resultado sempre e trabalha duro por isso. Seu filho mais novo, Gustavo, aprendeu cedo essa lição e de uma maneira não tão agradável. Responsável por levá-lo a creche, Din percebeu que o garoto não deixaria a mãe sair para o trabalho. Então ela disse para o pequeno ir brincar no túnel do parquinho da escola. Ingênuo, o garoto entrou no brinquedo e, quando saiu, não encontrou sua mãe no fim do túnel. Com o filho em segurança com as professoras, ela seguiu atrás dos seus sonhos.

 

Naturalmente, a relação deles não se estremeceu por isso. Pelo contrário, Gustavo enxerga na mãe o maior exemplo de determinação. Maria Eduarda, a filha mais velha, também reconhece a dedicação dela na corrida em direção ao seus sonhos. Sua infância foi marcada por muito som alto. Era Din ouvindo música no volume máximo em casa.

 

Din persegue seus sonhos na música há muito tempo. A menina que descobriu seu propósito aos 7 anos, vendo um show em Nova York na televisão, teve em sua trajetória momentos em que a música exigiu concessões, como o período em São Paulo, gravando seu primeiro disco por quase um ano, ou quando participou, em Londres, do British Writers Awards, em que seus filhos permaneceram em Florianópolis. Hoje, essa distância entre seu sonho e sua família não existe mais. Todos participam do projeto de sua carreira, contribuindo com suas artes.

 

Quem acompanha mais de pertinho os passos de Din em busca de seus sonhos agora é G. Pawlick. Seus universos colapsaram em 2013. Depois que ela viu aquela figura inefável na timeline de um amigo em comum, Antony Bascherott, eles combinaram de tomar um café. Na entrada, G. pediu um vinho e um uísque, só para começar. No primeiro encontro, Din e G. trocaram apenas verbos. No segundo, a chama do romance acendeu para não mais apagar. Os garçons do Divino GastroClub estavam recolhendo as cadeiras para fechar o estabelecimento quando os dois deram o primeiro beijo.

 

 

Din e G. são mais que parceiros de cama, mesa e banho. Além disso, trocam figurinhas em torno de arte e trabalho, como a autoria do livro A Senhora dos Sonhos. Em Pilgrimage, além da direção artística, G. estrela em cenas quentes junto da esposa no clipe de Amor da vida, que será lançada em EP distinto do álbum.

 

O período no Castelo trouxe novos desafios ao casal e, como em toda relação duradoura, exigiu diálogo, concessões e muita paciência. Em dados momentos, foi nitroglicerina pura. Não foi um ano fácil para ninguém. Em contrapartida, as experiências que calejaram a artista, refletiram em suas criações e em mais essa obra.

 

Contemporânea de um mundo doente, que assusta até os mais corajosos seres, Din Rose detecta um gravíssimo problema do nosso tempo: "está faltando amor!" Para ela, a maioria de nós não se sente pertencendo a esse lugar, ou a lugar nenhum. Apesar disso, Din olha para frente com olhar esperançoso e resolve sua ânsia de pertencimento em bons momentos com os amigos e oferecendo a todos o que faz de melhor: música!

 

Músicas do álbum Pilgrimage disponíveis no site da artista.

 

 

Foto:

Primeira foto por Vivi Mesquita, demais fotos por Guzz Secco

Ilustração:

G. Pawlick

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