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No divã: excesso de futuro

27 Jul 2017

O primeiro gatilho foi acordar naquele dia cinza de inverno, seguido do fato de eu ter perdido a porcaria do ônibus que deveria ter pegado. Constantemente a frase “Como tu é irresponsável!” passava na minha cabeça como uma alfinetada do eu contra mim... Cheguei no trabalho e logo comecei a ser entupida de uma demanda absurda de tarefas a serem concluídas no mesmo dia, sem possibilidade de atraso e com grande probabilidade de ter que fazer hora extra. Que grande bosta. Tudo o que eu queria era simplesmente não ter acordado, mas já era tarde para voltar atrás e não tinha como me matar no meio do expediente. Segui o baile. Lembrei da conta de luz vencida e de que eu não tinha um puto pra pagar aquela merda... Não seria diferente: minha mãe jogando na minha cara o esquecimento da fatura, seguido do interrogatório acerca de não ter mais dinheiro e ainda restarem duas semanas pro meu pagamento desse mês. Parecia que o dia não poderia piorar. Foi uma verdadeira reação em cadeia: a pressão de satisfazer às expectativas alheias, a sensação de que estou sendo inconveniente, a lembrança dos últimos fracassos pessoais e das feridas ainda abertas, os relacionamentos tóxicos e doentios que ainda preservo por conveniência e/ou necessidade, o medo de possíveis repetições do destino que me façam sofrer ainda mais... Junto a isso tudo, o constante questionamento “A vida é só isso mesmo? Se for, eu tô cansada. Chega.” Então comecei a divagar misteriosamente sobre a imensidão do universo, sobre o quanto ele é grande e no quanto eu sou insignificante perante tudo isso. Minhas dores não são nada, nadinha. “Que falta eu faria aqui?” E o pior é que não era nenhuma estratégia de vitimização pra conseguir migalhas de atenção: o sentimento era real, de que eu realmente não cagava nem fedia nesse mundão, e isso fazia com que eu me sentisse descartável. Meu ego ferido e minha baixa autoestima: baita combinação. De repente, um frio intenso vindo de dentro pra fora, congelando meu estômago por vários segundos... Meu queixo tremia e fazia com que meus dentes batessem uns nos outros, ressaltando a secura da minha boca quando a língua tocava em qualquer extremidade. A boca do estômago começou a doer, os nervos e músculos enrijeceram ao ponto de provocar cãibras, enquanto meu coração palpitava com a falta de ar e o suor gelado escorria pelos meus poros. A partir daí, a sensação de medo foi iminente, com espasmos involuntários, formigamentos, dormências pelo corpo todo, queimação no peito, tontura, náusea, vontade de chorar, gritar e de acabar logo com essa tortura. Era como se eu fosse enfartar a qualquer momento, com o adicional de achar que eu estava enlouquecendo e perdendo o controle sobre os meus pensamentos e ações. Sensação de estar dentro de um quadro surrealista enquanto um outro eu, despersonalizado, era sufocado e encaminhado para um manicômio. “Eu vou morrer! Eu vou morrer!” – Era meu único pensamento naquele momento desesperador. Fui encaminhada para a emergência do hospital e tudo o que eu era capaz de falar para os médicos era que a minha vida iria acabar ali. Depois disso, só lembro de chegar em casa e deitar no sofá babando pelo canto da boca, inconsciente e drogada por mais uma dose cavalar de Valium, a pílula mágica que te transforma em um robô sem sentidos por algumas horas. Mas só por algumas horas. E foi assim, Doutora, que eu aprendi a sanar os meus problemas: “tapando o sol com a peneira”, enquanto a merda toda é jogada diariamente nos ventiladores do teto da alma.

 

 

Ilustração:

Morgan Allen

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