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Movimento auxilia população em situação de rua

7 Sep 2017

 

Lutar por direitos e dignidade de quem está em situação de rua. Esse é o foco do Movimento Nacional de População de Rua, presente em 14 estados brasileiros e com atuação também em Florianópolis. O movimento foi criado em 2005 por iniciativa de seis moradores de rua dispostos a lutar pela justiça no caso que envolveu o assassinato de oito sem-teto, crime praticado por policiais militares na igreja da Candelária, no Rio de Janeiro, em 1993.

 

Em Florianópolis, o movimento começou em 2012 e alterou muitas realidades. A necessidade de quem está em situação de rua é urgente. Um prato de comida, um cobertor ou agasalho, uns trocados para comprar remédio. Mais do que isso, o MNPR é um movimento que trabalha o empoderamento das pessoas em situação de rua.

 

Apesar de lidar com histórias de quem teve ruptura do vínculo familiar e sofre com a falta de oportunidades decorrente, quase sempre, do uso de drogas e da criminalidade, o movimento representa mais uma chance para quem recebe pouca ou quase nenhuma assistência do poder público.

 

Recentemente, a principal briga do movimento em Florianópolis é contra a ameaça do fechamento do Centro Pop, onde pessoas em situação de rua fazem refeições, tratam a higiene e recebem atendimento psicossocial. É um dos aparelhos que devem assistir à população de rua, mas eles necessitam também dos albergues para dormir e muitos outros instrumentos que garantam dignidade e oportunidade.

 

 

Fonte: Diagnóstico Social Participativo da População em Situação de Rua. Saiba mais no Site do ICOM

 

“O Pop é a porta de entrada para a população de, mas ele não pode ser um equipamento apenas para um prato de comida e um banho. Ele tem algo a mais, que é a construção de uma passagem para que o companheiro saia da rua. Ele tem que oferecer capacitação, formação, oficinas, atendimento psicossocial”, explica André Schafer, um dos militantes do MNPR em Santa Catarina.

 

Além do Centro Pop, o poder público deve oferecer uma série de outros equipamentos para prestar assistência às pessoas em situação de rua, como os albergues, casas de acolhimento, casas de passagem e consultórios de rua. Atualmente, Florianópolis disponibiliza 141 vagas em duas casas de acolhimento, uma no Centro e outra no Jardim Atlântico. Para Schafer, essa estrutura é pouca para uma população de rua estimada entre 800 e mil pessoas que aumenta na temporada.

 

Se os homens em situação de rua sofrem e passam todo o tipo de dificuldade, a mulher, em sua própria condição, tem ainda mais barreiras econômicas, culturais e sociais a enfrentar como, por exemplo, vagas para o gênero feminino nos abrigos.

 

“Nós não temos uma casa específica de acolhimento para mulheres. Uma casa de mulheres que sofre violência doméstica cedeu mais quatro vagas, mas não é um lugar para uso exclusivo da população feminina da rua. A nossa realidade hoje está sucateada”, lamenta Schafer.

 

Se com pressão e resistência do movimento e de outros militantes, o poder público deixa a desejar no que diz respeito ao mínimo apoio às pessoas em situação de rua, imagine na ausência do movimento. Com isso, o MNPR se faz ainda mais importante nesta e em outras lutas. Mais do que lutar por direitos, o movimento proporciona mudanças.

 

Recomeços

 

Uma das pessoas impactadas por transformações positivas em função do movimento é a carioca Aline Salles, que morou quatro anos nas ruas de Curitiba e saiu após receber assistência do poder público. Na capital do Paraná, Aline conseguiu acolhimento, morou em albergues e começou a integrar o movimento. No congresso realizado a cada dois anos e que reúne os coordenadores do MNPR, Aline se aproximou de Schafer e resolveu se mudar para Florianópolis.

 

 

“Eu tive várias perdas. Perdi filhos para o Conselho Tutelar e perdi minha família. Duas meninas o conselho pegou e outras duas eu dei. O Movimento me fez ver que eu tinha que mudar de vida e que não eram certas as coisas que eu estava fazendo. Estava usando muita droga, roubando. Aprendi a viver, voltei a vida e a não fazer mais coisas erradas”, afirma Aline.

 

Orientada pelo atendimento no Centro Pop de Florianópolis, Aline conseguiu alugar uma casa na Caieira do Saco dos Limões e há 18 meses está fora das ruas. Ainda assim, participa das reuniões e ações do movimento, ajuda amigos em situação de rua e alimenta o sonho de reencontrar familiares, em especial a mãe, que não vê há mais de 15 anos e uma das filhas.

 

“Uma apoiadora fez um Facebook para mim e minha irmã me encontrou. O pai da minha filha disse que ela quer conhecer a mãe dela. Ela está com 13 anos, coisa mais linda. Não quero lutar para ficar com ela, porque sei que ela está bem, só quero revê-la. Mas acho que ainda não é momento. Quero arrumar meus dentes. Eu tenho minha casa hoje, mas quero estar numa situação melhor, levá-la para passear, conhecer as praias de Floripa, tomar um sorvete. Quero estar numa situação melhor”, diz Aline.

 

 

O contato de Samuel Lima com as ruas começou ainda na infância. Segundo ele, a família se desestruturou depois que o pai teve problemas com o álcool. Samuel morou nas ruas até os 14 anos, quando foi adotado. Com isso, trabalhou e constituiu família, mas, aos 26 anos ele conta que se desvirtuou deste rumo, passou a usar drogas e rompeu o vínculo familiar.

 

“Meu objetivo é fazer essa militância, não só no MNPR, mas em vários outros movimentos onde eu possa me envolver e estar junto da sociedade. Já tive várias formações profissionais, mas não me dei bem por falta de auto reciclagem e investimento. Hoje eu entendo que primeiro vou ter que tratar meu psicológico, minha saúde e, depois, estudar. A partir daí tenho sonhos de reconstruir minha família, ter uma formação acadêmica em gastronomia ou engenharia”, conta Samuel.

 

O Movimento Nacional de População de Rua também transformou a história de André Schafer. Há quatro anos, através da fala de um antigo companheiro do movimento, Schafer descobriu que poderia lutar e mudar sua realidade e de outras pessoas.

 

 

“Tenho outra história a partir da militância. Antes eu era criminalizado, julgado, criticado e, muitas vezes, até com razão, por conta dos crimes que cometi no passado. A partir do momento que dediquei a uma luta verdadeira, comecei a ocupar espaços que jamais imaginei que iria ocupar. Hoje consigo entrar num espaço e não mais ficar de cabeça baixa, não fazer fala de vítima, mas de sujeito de direito”, afirma Schafer.

 

Desafios do Movimento Nacional de População de Rua

 

A cada dois anos os coordenadores nacionais do MNPR se reúnem em algum estado onde o movimento está presente para deliberar sobre as estratégias e ações da militância. O último encontro ocorreu em Belo Horizonte e o próximo será em Porto Alegre em 2018.

 

“A fala mais importante foi sobre essa retirada de direitos que teríamos por causa do governo Temer e que nós teríamos que ter mais luta e resistência. Também foi falado do próprio modelo político do movimento. De que forma o movimento estava tomando suas direções? De que forma caminharia? Se ele é construído junto com o poder público ou se é construído com as bases. Essa foi a fala principal do movimento”, explica Schafer.

 

Também no último Congresso do MNPR, percebeu-se a importância da luta para tornar o Decreto 7053/2009, que institui a Política Nacional para a População em Situação de Rua, uma lei. Em síntese, o decreto responsabiliza o poder público no que diz respeito à alimentação, moradia, saúde e educação das pessoas em situação de rua. Segundo Schafer, a tentativa de tornar o decreto uma lei ainda não foi bem sucedida.

 

“Não avançou no próprio governo antepassado, que nos deu o decreto. Acreditamos que a oportunidade de ter aprovado ele como lei seria no passado. Se nem o governo passado que nos colocou em visibilidade, tentou lutar para a transformação do decreto em lei, imagina agora”, lamenta Schafer.

 

Os desafios do movimento em Florianópolis

 

 

Toda segunda-feira, às 14h, os militantes do MNPR-SC se encontram no coreto da praça Praça XV para discutir suas ações. Há dois anos, a principal luta é a aproximação das bases. De forma horizontal, sem hierarquias e centralismo, deliberam, dividem ações, articulam estratégias para mudar de vida e constroem a conscientização da população de rua sobre seus direitos.

 

“Mas o grande desafio é construir algo junto do poder público aqui no município. Na verdade, a demanda é colocar em prática a Política Nacional para a População em Situação de Rua. Além disso, conectar as ações das secretarias, porque não precisamos só de assistência social. Precisamos de saúde, cultura, educação trabalho, geração e renda, habitação. Nós pedimos comida, o Estado vem com polícia, nós pedimos moradia, o estado Estado vem com polícia, pedimos direito, o estado Estado vem com polícia”, lamenta Schafer.

 

 
Fotos:

Estopim Coletivo


 

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