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Memória catarina

31 Jul 2017

 

Herdeira de um dos maiores legados culturais de Florianópolis, ela recebeu de braços abertos uma missão: cultivar a memória musical da cidade. Intérprete dos artistas catarinenses, idealiza sucessivos projetos que, em comum, visam difundir a trajetória dos nossos artistas para além de suas vidas. O mais amado por ela é Cláudio Alvim Barbosa, o Zininho, autor do Rancho de Amor à Ilha, hino de Florianópolis e, nesta passagem, neste roteiro, seu pai.

 

Cláudia Barbosa nasceu em 1969, a raspinha do tacho do casamento cinquentenário de Zininho e Dona Ivete. Nesta altura ele já tinha produzido boa parte de sua obra. No estúdio próprio, em casa, montou um acervo com mais de duas mil fitas com registros de priscas eras. Arquivos antiquíssimos, da década de 1940, 1950 e por aí vai. Quando o pai se despediu da vida em setembro de 1998, Cláudia se aproximou desta herança de imenso valor cultural. Hoje, 20 anos depois, ela alimenta um sonho para as futuras gerações.

 

"Meu sonho é fazer um site e disponibilizar todas as informações que o pai deixou na face dessa ilha enquanto estava vivo. Todos os registros, fotos e gravações dos artistas. Se é pra falar em sonho, quero preparar esse material com as músicas, partituras e letras num caderno ilustrado e distribuir para as faculdades e escolas de música. Tenho que deixar isso no mundo antes de partir. O artista é imortal enquanto a obra dura, mas a eternidade de um artista depende da gente. Se a gente não praticar a obra, morre a pessoa e morre o artista”, afirma Cláudia.

 

Além de Zininho, outros artistas cercam Cláudia para que ela preserve suas obras. Ali estão Neide Maria Rosa, Luiz Henrique Rosa, José Cardoso (Zequinha), Osvaldo Ferreira de Melo, Arlindo Nunes Pires... Em consequência, a cidade reconhece sua identidade e guarda sua história para o futuro. Mas por que algo tão primordial, como a preservação da memória de uma cidade precisa ser uma luta? A resposta é simples: os gestores de Florianópolis não se preocupam muito com essas questões.

 

 

“É bem difícil. Estou sempre maquinando uma forma de conseguir incentivar a cultura e a arte por esses caminhos políticos. Não dá pra falar nas administrações com relação aos meus projetos, porque eu olho com relação a todo o conjunto. A memória está abandonada há muito tempo. Florianópolis é uma cidade que privilegia modismo e não memória. As pessoas não conhecem a história de Florianópolis, nem a história cultural. Não têm nem onde pesquisar”, lamenta Cláudia.

 

Para Cláudia, a Casa da Memória, onde estão as fitas do acervo de Zininho é uma iniciativa importante, mas que carece da estrutura ideal. Ela também tem receios sobre o futuro da antiga casa da Câmara reformada pelo Sesc e onde se projeta a criação de um museu de Florianópolis. Na visão de Cláudia, essa também seria uma ideia bem-vinda, que poderia reunir tesouros guardados nas casas das famílias nativas de Florianópolis e se tornar objeto de estudo sobre a identidade da cidade.

 

“A gente perdeu a identidade. O Norte da Ilha é uma coisa, o Sul é outra. Às vezes a gente nem se comunica. Meu trabalho é voltado para memória por causa da obra do pai, por causa desse legado que recebi, mas também trago a obra dos outros, entendeu? Porque, por exemplo, José Cardoso, o Zequinha, que é o nosso chorão, um dos precursores do choro em Florianópolis, a memória sobre ele é quase nula. Quem conheceu e tem alguma coisa do Zequinha, beleza, mas quem não tem, não vai nunca saber, porque ele não deixou CD, apenas algumas gravações”, ressalta Cláudia.

 

 

“Apenas três coisas de cada vez”

 

A recomendação é do amigo e parceiro de rodas musicais Guinha Ramires e diz respeito ao volume de atividades de Cláudia, em especial os projetos que reúnem os músicos dos tempos de hoje, em torno do legado deixado por quem viveu nas décadas passadas. São ideias como “Nossos Compositores” realizado boa parte em parceria com a pianista Denise de Castro e que levou a muitos palcos a música dos artistas catarinenses.

 

Ou ainda o “Viva Zequinha”, que visa à revitalização dos espaços ociosos da cidade com rodas de choro, e também é uma das ideias de resgate das canções do passado. O projeto teve uma primeira edição na Praça XV, pertinho da Figueira. A intenção é que todo final de semana ocorra uma apresentação como essas no teatro da Ubro, um dos mais importantes da cidade e que está desativado por falta de estrutura.

 

 

O mergulho no choro brasileiro

 

Recentemente, os artistas locais ganharam companheiros de todo Brasil no cerco que faz Cláudia Barbosa interpretar e difundir preciosas composições do tempo que se foi. Uniram-se ao coro Elizeth Cardoso, Ademilde Fonseca, Donga, Pixinguinha. São expressões brasileiríssimas do choro, ritmo que é o foco das atuais pesquisas de Cláudia na música. Com orgulho, ela fala da criação da Orquestra de Choro Campeche, que se originou da Escola Livre de Música.

 

“Está acontecendo um movimento de choro muito interessante no Brasil e aqui em Florianópolis também. Gente jovem estudando e apresentando choro com muita propriedade, com muito respeito, com muita dedicação. O meu mergulho no mundo do choro tem me feito crescer muito enquanto artista e enquanto cidadã mesmo, porque cada uma dessas pessoas tem uma história incrível”, relata Cláudia.

 

Este mergulho tem revelado a relação dos antigos artistas com seu tempo. Além disso, a certeza de uma realidade que ainda se manifesta no tempo presente. Movimentos de arte e cultura são desvalorizadas, obras preciosas se perdem no tempo e seus criadores não ganham o merecido reconhecimento.

 

“Eu nasci nesse meio e só fui seguindo o fluxo. Mas optar pelo caminho da arte, da música, é difícil. A gente sabe da marginalização que se faz da cultura brasileira. É uma cultura marginalizada, ignorada, desprezada. A maioria desses compositores incríveis morreram passando muita dificuldade, sem poder se beneficiar do legado que deixaram para o Brasil. Isso me chama muita atenção em toda história da música, desde o início, e quer dizer, não é uma novidade. Espero que em algum momento isso mude”, avalia a cantora.

 

 

A mais inesquecível apresentação e a despedida

 

A mais inesquecível apresentação de Cláudia requer uma viagem ao século passado. Mais especificamente em 1994, quando o jornalista Aldírio Simões reuniu diversos artistas no palco do Teatro Álvaro de Carvalho para homenagear o amigo e poeta Zininho. Neste dia, Cláudia pisou pela primeira vez no palco. Não pretendia e não sabia, mas seria a primeira de muitas apresentações.

 

“O teatro estava lotado. Aquele teatro cheio é uma coisa incrível. Eu nunca tinha pisado no palco e olhado a plateia. Aquilo pra mim foi impactante. O pai estava no camarote e, de repente, levanta aquele terno branco assim, e foi levantando, eu pensei: meu Deus, o pai vai se jogar lá de cima. Aí comecei a cantar "Se o amor é isso". Sem dúvida nenhuma, essa foi a vez mais emocionante, mais impactante, até porque foi a primeira e talvez a única vez que meu pai me viu cantando”, lembra a artista.

 

O retorno aos palcos foi somente em 1999, quando fez uma homenagem a Neide Maria Rosa também no TAC. Cláudia resolveu ingressar na carreira artística somente quando Florianópolis perdeu o autor de seu hino oficial. Nos últimos dias de Zininho no hospital, ela estava ao seu lado. Na despedida, colocou o sapato branco, combinando com o terno, dentro do caixão. O pai queria o sapato nos pés, mas o bico longo impedia o fechamento da tampa. Também nesse dia, de tempo em tempo, ela passava a Colônia Contoure no pai, que recebia o carinho dos seus amigos e familiares no velório realizado na antiga sede da Câmara Municipal no Palácio Cruz e Sousa.

 

“Tu sabe o que é tu ter um dia na tua memória intacto? Ele é intacto, lembro de cheiro, de tudo, de cada detalhe. De certa forma, a gente sabia, mas é uma coisa muito interessante, porque quando acontece é uma surpresa, a hora que a pessoa passa é uma surpresa. Eu tava junto com ele, de mão dada, ele respirava com dificuldade, minha irmã estava junto. Eu molhava algodãozinho, passava na boca dele, até ele dar o último suspiro. Esse momento foi muito louco, porque tenho uma ligação forte com meu pai”, lembra a filha.

 

 

As transformações da cidade

 

As cidades correm aceleradamente atrás de desenvolvimento. As capitais ainda mais e no caso de Florianópolis não é diferente. Nem sempre, entretanto, os gestores públicos se lembram de planejar essas mudanças, menos ainda em preservar símbolos importantes do tempo que se foi. A implosão do Miramar, antigo hotel localizado no centro da cidade é uma dessas decisões mais lamentadas por quem olha para trás com apreço e carinho.

 

“A implosão do Miramar foi uma grande mudança. Um momento em que a cidade mostra como olha para o seu patrimônio. Derrubar uma edificação daquela, onde aconteciam encontros de artistas, de jornalistas, ali a gente viu que esse descaso e essa displicência com a cultura é uma coisa histórica”, analisa Cláudia.

 

Ainda sobre a Florianópolis do passado, Cláudia aponta para outros dois aspectos negativos.

 

“Como eu sempre faço essa viagem antes de mim, tenho um olhar para essa cidade um pouco através da minha mente e um pouco através das mentes dos meus pais e dos meus irmãos. Cresci ouvindo eles falarem de uma cidade que eu não conheci. A primeira grande mudança da cidade para pior foi a construção do aterro e a segunda, na minha ótica, foi a chegada da RBS. Nós temos um histórico de jornalistas incríveis, com propriedade pra falar da cidade, que a conhecem e, de repente, chegou esse pessoal que precisou pesquisar para falar da cidade”, critica Cláudia.

 

Candidata?!

 

Em 2014, Cláudia resolveu dizer sim a um antigo convite. Impulsionada por amigos no meio artístico, lançou candidatura a vereadora. Servidora da Câmara Municipal há 30 anos, pleiteava um mandato na casa legislativa que foi sua faculdade a vida inteira, mas não obteve a votação suficiente.

 

“A primeira grande transformação que eu gostaria de realizar como vereadora era poder ocupar uma cadeira daquelas e não dar chance para um aventureiro sentar ali. Estou lá há 30 anos e vi muita gente despreparada e mal intencionada, ocupando aquelas cadeiras. Aquele lugar é sagrado. Ali acontecem as transformações da nossa cidade”, afirma Cláudia.

 

As proposições de lei, em sua maioria, eram sobre patrimônio histórico e cultural da cidade. Saneamento básico também era uma preocupação política de Cláudia.

 

“Dentro da Câmara eles se preocupam com a cidade do chão pra cima. A gente não pode achar natural ter uma praia linda como aquela do Abraão, do Estreito, e chamar de praia do Cagão, isso não é normal”, ressalta.

 

 

A intérprete incansável e a compositora adormecida

 

Autodeclarada porta-voz dos artistas do passado, Cláudia prefere seguir a carreira como intérprete. Isso não significa, entretanto, que lhe falte inspiração para criar suas próprias letras. Ainda não vimos uma de suas canções somente porque, para ela, a reverência às obras de grandes mestres é o seu foco.

 

“Eu escrevo muito e até componho algumas coisas, mas nunca trabalhei uma composição minha porque entendo que meu ofício é justamente dar voz a poesia de compositores. São tantas composições incríveis que conheço todos os dias. Confesso que às vezes me sinto um pouco desconfortável e tímida de mostrar uma composição minha, porque tenho muita reverência pela profissão do compositor. Até que o texto esteja absolutamente encaixado na métrica e que a melodia esteja fechada, eu não mostro absolutamente para ninguém".

 

Enquanto Zininha prefere guardar seus escritos a sete chaves, assistimos com prazer sua trajetória no resgate e preservação da memória de Florianópolis. É uma saborosa e longa viagem, uma turnê detalhada e diversificada ao que se viu e ouviu nos palcos, nas ruas e botecos da nossa ilha.

 

 

Fotos:

Luiza Filippo

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