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Mariana Torquato: Um papo seriamente descontraído

7 Apr 2017

 

 

Em seu canal no Youtube, Vai uma Mãozinha, ai? Mariana Torquato tem foco na defesa de direitos e representatividade das pessoas com deficiência. Seus vídeos rebatem o preconceito das campanhas de grandes marcas, das ações dos figurões públicos e até mesmo das atitudes de cada um de nós.

 

A entrevista, coincidentemente (foi coincidência mesmo), vai ao ar neste 7 de abril, Dia Nacional de Combate ao Bullying e à Violência na Escola, e nos ajuda a pensar sobre porque as minorias ainda precisam lutar por espaço e porque os “diferentes” são excluídos e zombados. Além disso, Mari fala sobre a vida profissional e suas perspectivas no universo e na imensidão da internet. Veeeeeeeeeeeeem!

 

<<< A Entrevista >>>

 

➤ Pra começar, fale sobre sua infância: o lugar onde cresceu, a relação com seus pais nos primeiros anos de vida.

 

Ah, então, sempre vivi em Floripa mesmo, só que eu sou da parte do Continente. A minha infância foi muito com meus primos na praia. Minha mãe sempre tentou me tratar de uma forma natural, deixando eu me virar e meu pai fazia graça com as coisas. Ele me ajudava quando as crianças vinham perguntar e a gente inventava uma história. Das mais variadas: Trágicas, cômicas, bizarras… E a minha mãe falando: “Ah Mariana! Você vai conseguir, vai se virando”, em vez de ir fazendo as coisas pra mim. Porque, às vezes, a gente fica desesperado, querendo que o filho aprenda. É igual quando você vai explicar para os seus pais como se mexe no celular. A pessoa começa bem devagarzinho, você tira da mão da pessoa e fala: “Tá bom, vou fazer aqui, vou mandar esse email pra você”. O nosso instinto é de pegar na mão e fazer pela pessoa. E ela tinha que ter bastante autocontrole, pra me deixar fazer as coisas sozinha.

 

Eu não diria que eu sofri muito bullying na infância, porque eu não tinha noção do que era. Eu comecei a ter mais noção do que era com uns 10, 11 anos, onde eu percebi mesmo que eu ia ser diferente para o resto da minha vida, sabe? Foi quando eu comecei a criar consciência disso, mas quando eu era pequena, sempre me apresentei em todas as apresentações do colégio, eu não me escondia. Ficava na primeira fila, aliás, até causava.

 

➤ Me fala mais da época da escola assim, convívio com os colegas, convívio com a educação e as barreiras que têm.

 

É. É uma coisa mais sutil né?! Mas assim tem histórias engraçadas do colégio. Lembra quando você vai aprender direita e esquerda? Eu sempre soube, porque a minha mãe falava: a esquerda é a que você não tem um braço, direita é a que você tem o braço. Você tem que sempre lembrar das mangas e tal. E aí, pra mim, foi muito fácil…

 

Teve uma situação de uma professora que veio, recentemente, falar comigo no Facebook, veio elogiar o canal e me lembrar que ela tem o maior orgulho de que quando ela foi ensinar as crianças a amarrar o sapato, eu fui a primeira a aprender.

 

No dia anterior, fiquei a noite inteira tentando amarrar. Minha mãe me ensinou, aí quando ela foi me ensinar acho que eu já… HHAHHAHAHHA.

Foi mais ou menos isso. Minha infância foi bem tranquila. Tinha, é claro, piadinhas escrotas, mas eu comecei a me importar mais e elas começaram a virar mais escrotas, quando as pessoas começam a ficar menos ingênuas, mais maliciosas ali uns treze, quatorze anos.

 

➤ Você gosta de mudança, de novidade?

 

É. Acho que também tem a ver com a nossa ânsia de que as coisas que aconteçam, que as coisas mudem.

 

➤ Você é ansiosa?

 

Um pouquinho. Não é o grande problema do século XXI? Todo mundo é ansioso.

 

➤ Fala mais…

 

Todo mundo tem ansiedade, um pouquinho que for. Uma pressão por mudança, uma pressão por algo a mais.

 

➤ Será que as pessoas estão meio afastadas umas das outras?

 

Total. Individualistas. É muito louco esse negócio de rede social.Agora que eu tenho canal no Youtube, tenho que ter uma conta no Twitter, tenho que ter uma conta no Instagram, tenho que ter uma página no Facebook. Comecei o canal sem Twitter, sem página no Facebook, sem nada disso, só com a minha página no Instagram, que já era pessoal. Todo mundo começou a falar: ah, mas você não vai fazer uma página de fã? Meu Deus, você tem que ter uma página de fã. Sim, mas tu não vai ter Twitter? Todo mundo usa o Twitter. Como é que tu vai interagir com seus fãs? Em cada rede dessa, você tem que ser popular. Não basta ter o canal. Eu preciso estar conectada o tempo todo em várias redes, o que consome tempo e dificulta a interação no mundo "real", afastando as pessoas uma das outras.

 

 

<< O Canal >>

 

➤ Seu trabalho no Youtube tem como marca representatividade das pessoas com deficiência, gostaria que você falasse mais sobre essa motivação, sobre o início do canal.

 

O canal foi sendo planejado aos poucos. Foi uma ideia que alguém me deu e pensei que seria legal, mas como fazer isso? Aí fiquei matutando, porque não é bem assim colocar a cara na internet. Quando você coloca a sua cara na internet tem aquela abinha comentários, você se abre para um monte de coisas bizarras, então, foi uma preparação psicológica, mas teve um estopim foi aquela capa de Cléo Pires, que eu fiz o vídeo recado para a Vogue, porque eu fiquei muito de cara com ela com aquele bracinho sabe?! Eu fiquei tipo: "aaaaaaaaaahhhhhhhhh"!!!!!

 

Precisei falar alguma coisa, e pensei: tá beleza, vou gravar o primeiro vídeo. Tomei coragem e gravei o primeiro vídeo, que não tinha abertura não tinha nada, era tipo cru. E eu já tinha um canal no Youtube, porque eu já tinha criado o canal em julho de 2015 e meu primeiro vídeo foi F31 de agosto de 2016. fiquei 1 ano e 1 mês matutando. Aí eu postei o vídeo e a galera curtiu, e tive, sei lá, 700 views em um dia eu fiquei "aaaaaaahhh" "Risos". Meu Deus 700 pessoas viram meu vídeo. Aí continuei fazendo, falei sobre a Paraolimpíada, falei sobre isso, sobre aquilo e as pessoas continuaram vindo.

 

➤ Você busca resultados e transformações na sociedade ou nos indivíduos?

 

Não seriam os indivíduos a sociedade?

 

➤Sim, os indivíduos compõem a sociedade, mas você busca um impacto mais geral ou para as pessoas?

 

Não, não é tão utópico. É para cada um que assiste que eu plante uma sementinha ali.

 

➤ É para as pessoas?

 

É para as pessoas, não é para mudar o mundo.

 

➤ Ah, bora mudar o mundo

 

Mas é pelas sementinhas que você muda. Às vezes a gente fica nessa da grandeza de querer alcançar coisas inalcançáveis, calma. Cada um que assiste eu fico feliz. Cada pessoa que se inscreve ali eu fico "puts, mais um", mais um para eu evangelizar com a palavra do Senhor. (Risos!, muuuitos risos)

 

➤ Já estamos há 21 séculos por aqui, por que as pessoas com deficiência ainda têm que buscar espaço, direitos e respeito?

 

Porque todas as minorias ainda têm que fazer isso. É uma pergunta que não tem resposta, né. As coisas quando ela estão incrustadas, cheias de preconceitos, repreensão, esconderijos e formas de você calar esse tipo de pessoa, isso sempre ocorreu, há muito tempo, religiões foram feitas em cima disso, então, não adianta a gente tentar fazer com que isso não aconteça, porque isso vai continuar acontecendo até ficar repetitivo. Até entrar tanto na cabeça da pessoa, quanto já entrou que deficiente é um inútil, que pessoa com deficiência tem que ser escondida, que pessoas com deficiência tem que ficar em casas escondidas do povo, que pessoas com deficiência não pode ser gerente, não pode ser presidente, que não está na TV, não está em lugar nenhum, nem na rádio que você só escuta, não está também. Do que estávamos falando mesmo?

 

 

➤ Sobre essa loucura de mundo que não para de esmagar.

 

É. O rolo compressor está aí cada vez maior, essa é a real. E a gente precisa gritar para ser ouvido.

 

➤ Você acredita que pessoas com deficiência estão representadas no meio político?

 

Não. Tem poucas pessoas, pouquíssimas, não representativas. Não tão representativas, quanto a parcela das pessoas com deficiência no país. Temos mais de 30% de pessoas com deficiência e tem a Deputada Federal Mara Gabrilli, quem mais?

 

➤ E por que isso ainda?

 

Porque falta empatia. O grande mal da humanidade, atualmente, na minha opinião, é a falta de empatia. Falta observar mais as pessoas e se colocar um pouquinho mais no lugar delas. A gente não se coloca no lugar das pessoas, aí fica difícil não, é? E a política é uma piada. Não tenho o que falar dos nossos políticos.

 

➤ O quadro geral é ruim, não é? Não só nessa questão, mas em diversas outras.

 

Sim. Em diversas outras. Tá cada vez mais down o high society.

 

➤ Você mencionou há pouco o casa da revista Vogue. Eles se retrataram de alguma forma?Eles falaram que teria um outro ensaio com os atletas, mas até agora não saiu esse ensaio.

 

A Cléo Pires fez um vídeo no Snapchat falando: "ah, vocês ficam aí nesse politicamente correto, a gente fez isso sem cachê, para divulgar os jogos paraolímpicos, não sei o quê”.

 

A questão não é ser o Cléo Pires ou o Paulinho Vilhena. A questão é não ter histórico de luta, não ter representatividade nenhuma na contratação dos dois assim.

 

➤ E justo os Jogos Paraolímpicos, que nós somos uma potência.

 

Puta merda! Foi incrível e, desculpa, o brasileiro não pode ver... Não passou na TV, só passou os melhores momentos. Eu falo sobre isso em um vídeo, "Somos nada Paraolímpicos". Eles simplesmente abafaram. Acabou as Olimpíadas, aí espera 15 dias e começam os Jogos Paraolímpicos, aí metade dos turistas já foram embora e não passa nem na TV? Quando será a próxima vez com Jogos Paraolímpicos no Brasil? Nunca mais. Só se nenhum país mais quiser, porque agora está na moda recusar que a Copa ou que as olimpíadas aconteçam, alguns países estão recusando, porque se gasta muita grana e não traz retorno nenhum. Qual retorno trouxe para o Rio de Janeiro, que está afundado em dívidas?

 

Aqui no Brasil um monte de coisas foi destruída. Aliás tem uma foto maravilhosa de uma escultura de gelo escrito legado na praia, no calçadão de Copacabana, em um sol escaldante de 40°. Uma placa de gelo escrito legado, derretendo, define o legado olímpico.

 

➤ Você tem esperança no nosso país?

 

Eu gosto do país, gosto das pessoas, o país é maravilhoso, lindo. As pessoas são legais, quando elas não estão querendo tirar vantagem de você, e isso é muito difícil também, mas eu não vejo esperança política assim, vai ter que vir o Robin Hood, o salvador e isso não existe, não vai existir o salvador.

 

➤ Isso é bem mania de brasileiro, achar que vai vim alguém...

 

É... achar que vai vim alguém, que vai fazer a diferença. Eu tenho esperança nas pessoas, acho que tem que ter esperança nas pessoas, porque se não tiver esperança nas pessoas… Mas no país é difícil de acreditar, politicamente e em uma democracia representativa de fato é difícil, é difícil.

 

➤ Voltando ao canal, esta é a carreira que você mira, ou você pensa em outras coisas paralelas?

 

É muito louco né, porque não sei se tem carteira de trabalho para youtuber, acho que não.

 

➤ Mas em compensação, vocês estão dominado.

 

Tá dominando né? Mas é mais entretenimento.

 

➤ É, mas mesmo assim, o entretenimento comunica, educa, forma. Você não sente uma grande responsabilidade?

 

Sinto cada vez mais, cada mensagem que recebo de pessoas gostando, de pessoas se espelhando, pessoas falando que eu estou inspirando ela. Gente eu tenho que ver o que eu falo nesses vídeos. Mas é boa a responsabilidade, é uma coisa que me faz bem. Me faz saber melhor, pesquisar mais, aperfeiçoar o jeito que me dou com a câmera e o jeito de fazer roteiro e tals, me empenhar mais bonitinho e que fique fechadinho, que não falte nada. É difícil fechar um vídeo.

 

➤ Mari, quais são as histórias mais ricas, exemplo de experiências que o canal lhe trouxe?

 

Eu conheci uma menina, por causa da internet, que não tem o braço igualzinho o meu e ela também é de nascença e tals. A gente começou a conversar e foi muito legal, a gente criou uma amizade, eu fui para sampa e a gente se conheceu e foi muito engraçado sair com uma pessoa com o mesmo bracinho que eu, ficar olhando o jeito que ela se vira e tals. Ela tem 3 filhos e as filhinhas dela pegavam o bracinho e apertavam e beijavam o bracinho, porque estão acostumadas com o da mãe e começaram a comparar e ela disse que adorou o meu bracinho, foi muito engraçado.

 

Uma das meninas tem 7, 8 anos e é muito puro, foi uma experiência muito legal. Eu recebi inúmeras mensagens, que eu nem sei por onde começar, porque são de cunho pessoal. Cada um me conta uma história diferente, cada um tem uma deficiência diferente e, às vezes, nem tem deficiência, mas estava se sentindo mal, viu os vídeos e começou a se inspirar e começou a gostar e riu. Isso é muito divertido, sabe?! Está sendo muito divertido para mim poder mexer com as emoções das pessoas por meio de um vídeo que eu coloco toda semana.

 

Tem pessoas que acompanham, eu sei pelos comentários quem acompanha de verdade, quem não acompanha e você vai vendo as coisas acontecendo, para mim, era uma utopia chegar em 20 mil inscritos ano passado e eu cheguei. Agora já estou com 40 mil, se eu chegar a 100 mil inscritos... É muito utópico pensar que 100 mil pessoas estão inscritas no seu canal, 100 mil pessoas. A gente vê os números e acha que não é nada, tem gente com 10 milhões, mas mano, cada numerozinho ali é uma continha, acho que a maioria está ali para me acompanhar e isso é muito louco.

 

➤ Mari, pra encerrar, faltou abordarmos algo? Alguma coisa que seja interessante.

 

Eu acho que o vídeo mais informativo do canal é sobre o Capacitismo, porque muita gente pratica e não faz a menor ideia. É um vídeo voltado para todo mundo, tanto para as pessoas com deficiência, que vão se identificar, como as pessoas sem deficiência, que vão se identificar do outro lado ali, vendo os julgamentos que às vezes a gente faz...

 

São oito minutos falando sobre capacitismo e eu leio um compilado de comentários que encontrei com a #écapacitismoquando? Várias pessoas com diversas deficiências falam sobre isso, li vários deles. Ficou bem legal o vídeo, é um dos meus xodós.

 

 

Ilustração:

Manoela Passos / Estopim Coletivo

Fotos:

Acervo Pessoal / Instagram @marianatorquato

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