• Estopim Coletivo Facebook
  • Estopim Coletivo Instagram
Please reload

Infância no front

 

Manoela Robertvona Matioli nasceu na Rússia, mas vive há quase 20 anos no Brasil. Em Florianópolis, viu estourar o conflito separatista na Ucrânia, mas não se contentou com as notícias sobre a guerra no país vizinho ao seu lugar de origem e decidiu ver tudo mais de perto.

 

Assim, conheceu a história de meninos e meninas cujas vidas mudaram para sempre em função do conflito, como a pequena Anna, de cinco anos, que está desaparecida e que pretende adotar.

 

Agora, Manoela arrecada fundos, vendendo camisetas e numa Vakinha online para gravar um documentário sobre a guerra e denunciar o terror que não enxerga cor, raça e nem tampouco idade.

 

Nesta entrevista, ela explica as origens do conflito e relata duas viagens a Ucrânia para entender as razões e prejuízos da guerra. Sem vislumbrar um cessar fogo na região, vê os índices aumentando dia após dia. Já são 10 mil mortos, 1,7 milhões de crianças afetadas e 2 milhões de refugiados.

 

 

| A ENTREVISTA |

 

➤ Fale um pouco de você. Seu trabalho e sua vida aqui no Brasil.

 

Moro no Brasil há 18 anos, em Floripa quase 14. Tenho dois filhos um de 10 anos e uma de um ano e cinco meses. Tenho um parceiro maravilhoso, que me apoia em todas as minhas lutas. Há pelo menos 13 anos eu vivo em função de lutar pelos direitos dos animais, nos últimos três, estou envolvida com a questão da guerra que acontece na Ucrânia. Tinha um blog onde eu documentava tudo, porém, quando percebi que as traduções automáticas para russo eram totalmente diferentes do que eu escrevia, indicando manipulação, eu acabei cancelando, naquele momento fiquei com medo.

 

➤ Por que decidiu se mudar da Rússia para o Brasil há quase 20 anos?

 

Eu não decidi, meu pai me trouxe pro Brasil contra minha vontade. Eu vivia com a minha mãe em Moscou até então. Depois de um longo período de adaptação, me encontrei no Brasil e hoje em dia sou muito grata a vida por ter me trazido pra cá.

 

 

➤ Fale sobre o conflito na Ucrânia e qual a sua opinião sobre o que acontece na região?

 

Se trata de uma situação muito complicada. Eu acompanho desde o início, quando ainda tinha a manifestação na Maidan, que é a praça principal de Kiev. Nessas manifestações estavam meus amigos de muitos anos, também ativistas pelos direitos dos animais, e que estavam indignados lutando.

 

Tudo começou quando o Yanukovich, o então presidente da Ucrânia, não assinou acordo com a União Europeia, como tinha prometido ao se eleger. Em vez disso, ele fez mais uma dívida bilionária com a Rússia e o povo começou a protestar.

 

Eu via muito a mídia brasileira noticiar golpe fascista na Ucrânia. Lia e não acreditava, meus amigos postando e compartilhando coisas como essa. Então eu decidi comecei a estudar profundamente o conflito, os agentes do conflito e tudo relacionado.

 

Foi tudo muito rápido. Aconteceram as manifestações, durante as quais quase 200 pessoas foram friamente assassinadas pelo governo. Em Kiev, na praça da Independência ( Maidan), onde tudo aconteceu há um memorial com fotos e objetos de todas as pessoas mortas nessa fase. Havia gente de 16 a 80 anos, o que indica que não tinha um padrão dos manifestantes. Não eram fascistas como dizia a mídia, era o povo da Ucrânia, que lutava por mudanças em seu país.

 

Logo depois o presidente Yanukovich foi deposto e fugiu. Em seguida, a Crimeia foi ocupada, por homens, que eram chamados de Homenzinhos Verdes, pois eram militares altamente armados sem nenhuma identificação. Depois teve um referendo que apontou mais de 90% votando a favor da Crimeia se unir a Rússia. Muitas pessoas foram votar sob ameaças, um resultado com essa porcentagem nunca pode ser considerado justo e verdadeiro.

 

Após a ocupação da Crimeia, a Rússia imediatamente começou a financiar e estimular separatismo nas regiões de Donetsk e Lugansk, no leste da Ucrânia, onde grande parte da populacho é pró-russa. Foi feito um trabalho muito forte de manipulação através da mídia russa. Então as pessoas nessa região, naquele momento, eram favoráveis ao separatismo, mas não podemos dizer que era a maioria das pessoas.

 

De qualquer forma começou a se armar um fronte de guerra, pois o exército ucraniano entrou para controlar essa ação separatista pró-russa e financiada pela Rússia não apenas com dinheiro, mas também com armamento e tropas militares.

 

Até hoje a situação segue assim, mesmo com acordo de Minsk, os separatistas continuam bombardeando todos os dias as cidades e o exército ucraniano.

 

A minha opinião é muito simples, em um conflito armado, ou seja uma guerra, sempre há um lado invasor e um invadido. Com tudo que eu pude estudar, ver presenciar, posso dizer com toda certeza que é uma guerra, muito grave, onde a Rússia está agindo diretamente.

 

➤ Qual a situação do conflito atualmente? Está mais intenso? Existe perspectiva de término?

 

O conflito atualmente está estável, com mortes praticamente diárias de ambos os lados. Não existe nenhuma estimativa do fim desta guerra.

 

 

➤ Quantas pessoas são vítimas fatais do conflito até agora?

 

Segundo os dados da ONU já foram mortas, desde 2014 até agora, mais de 10 mil pessoas. Além disso, mais de 20 mil foram feridas, contando militares e civis, e mais de duas milhões de pessoas se tornaram refugiadas.

 

➤ E o número de crianças impactadas de alguma forma, tanto vítimas fatais, quanto crianças que perderam seus pais, ou que deixaram a escola em virtude da guerra. Qual o real impacto da guerra na vida dessas crianças?

 

Segundo a Unicef há aproximadamente 1,7 milhões de crianças afetadas direta ou indiretamente pela guerra, seja com falta de comida, água, aquecimento, tendo suas moradias e escolas destruídas. O impacto na vida delas é algo de proporções enormes, levando em consideração danos psicológicos, sociais e estruturais. Muitas crianças perdem seus pais, muitas vão parar em abrigos porque os pais se desestruturam pela guerra. Há todo tipo de situação.

 

➤ Fale sobre Anna. Como a conheceu? Os pais dela morreram no conflito?

 

A Anna eu conheci por acaso. Fui autorizada a acompanhar um comboio militar que levaria ajuda humanitária para Vuglegorsk, cidade que tinha sido destruída há pouco pelos separatistas. Nessa viagem eu vi e ouvi coisas horríveis. As pessoas me contavam, na esperança que a dor delas seria vista por alguém, acho que por eu ser do Brasil, elas se sentiram confortáveis e de alguma forma felizes que a história delas iria para tão longe. Uma esperança, um pedido de socorro.

 

Quando entramos em um internato, onde as ficam crianças em situação provisória, eu vi Anna pela primeira vez. Era a mais nova, tinha cinco anos. Tinha sido encontrada naquele dia pelo exército ucraniano sozinha na rua. Ela contou para nós que o pai era separatista e lutava na guerra. A mãe era alcoólatra e a mandava pedir comida na rua.

 

Naquele momento meu filho tinha sete anos e eu a associei imediatamente a ele. Quando você se torna mãe, fica difícil olhar para as outras crianças sem pensar nos seus filhos. Eu me apaixonei por ela imediatamente, porém, não poderia fazer nada naquele momento, porque devido ao conflito, a estrutura social não estava funcionando, não poderia começar processo de disticado paternal.

 

A minha volta ao Brasil estava marcada para dali a dois dias. Eu fiquei arrasada, ao voltar pro meu apartamento de base em Kramatorsk, a cidade onde ficava a base militar naquele momento, eu chorei por horas. Fiquei arrasada com tudo que vi e ouvi.

 

Retornei para o Brasil e aqui não conseguia parar de pensar naquilo tudo e naquela pequena criança e todas as outras que viviam naquele inferno. Então eu e meu marido e meu filho decidimos adotá-la. Decidimos que eu voltaria a Ucrânia para passar por todo o processo de adoção internacional, para conseguir resgatá-la.

 

Consegui organizar uma busca in loco. Meus conhecidos militares ucranianos fizeram uma varredura por todos os abrigos e absolutamente nada foi encontrado. A guerra é dinâmica. A cidade onde ela estava quando eu a conheci tinha sido recuperada pelo exército ucraniano, porém, quatro meses depois, quando eu voltei, os separatistas a dominaram novamente e até hoje a cidade está sob domínio deles.

 

Há uma grande possibilidade de ela estar morta, mas não acredito que seja a única. Ela pode ter sido sequestrada, ou voltado para os pais, ou qualquer outra coisa. Nenhuma informação é oficial.

 

 

➤ Você não tem informações novas sobre ela? Continua tentando encontrá-la?

 

Eu não tive mais nenhuma notícia. Se eu disser que não tenho esperança de encontrá-la durante este trabalho, estarei mentindo.

 

➤ Como surgiu a ideia do documentário? Ele terá foco nas crianças, ou em explicar o conflito?

 

A ideia do documentário foi como uma gestação. Desde esta frustrada tentativa de adoção, pude perceber quantas crianças que se tornam órfãs ou são abandonadas pelos pais. Me ofereceram várias crianças que já tinham toda a situação legal resolvida e estavam prontas para adoção. Mas eu não estava pronta, eu estava arrasada.

 

Não fui em busca de uma criança para adoção, eu queria salvar a Anna e estava sentido muita dor pela frustração de não conseguir fazer nada, que eu não era nada perto dos interesses reais em um conflito armado. Uma sensação de impotência tomou conta do meu ser.

 

Então surgiu a ideia do documentário. Através dele desejo ilustrar esta situação, mostrar que crianças são as principais vítimas de uma guerra. Elas não têm culpa de nada e são as mais afetadas. Então através do olhar delas quero trazer essa história a tona para que algo seja feito por elas, por todas elas.

 

 

➤ Qual a maior necessidade para viabilizar o documentário hoje? Como as pessoas podem ajudar?

 

A maior necessidade para viabilizar o projeto é o patrocínio. Tenho na direção comigo Paulo Zaidan e Cristian Cancino, dois diretores que estão me dando bastante segurança profissional na realização deste documentário. Neste momento, estamos preparando um teaser para conseguir apoio. E in loco tenho dois parceiros importantes sem os quais fica impossível viabilizar e cujos nomes não vou citar ainda por questões de segurança.

 

Neste momento, a principal fonte de arrecadação de recursos é a camiseta do projeto que acabamos de lançar. As pessoas podem ajudar comprando-as ou então doando dinheiro na nossa vakinha online criada para isso também.

 

➤ Você realizará um evento para arrecadar fundos e retornar à Ucrânia para fazer as filmagens. Quando será esse evento? Como as pessoas podem participar?

 

Sim, o evento acontecerá em breve. Tivemos que remarcar por conta da reforma que está acontecendo no local, mas divulgaremos a nova data em breve na página do Facebook Infância no Front - Guerra na Ucrânia, que criamos para divulgar o documentário.

 

 

Ilustração:

G. Pawlick / Estopim Coletivo

Fotos:

Créditos de cima para baixo: Stanislav Petrovskij / Manoela Matiolli / Andrei Ageev / Dmitry Dvoichenko / Dmitry Dvoichenko

Share on Facebook
Share on Twitter
Please reload

Gostou da leitura?

Assine a revista Estopim Coletivo

e financie a produção de conteúdo independente

sobre política e cultura.

Please reload