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Gloire Ilonde, um multiartista do Congo em Florianópolis

28 Nov 2016

 

Ele teve o primeiro contato com a música na infância num país tão, tão, tão distante do Brasil, a República Democrática do Congo. Acompanhando os pais, ia a igreja e começou a cantarolar as primeiras notas. Foi amor à primeira vista, não parou mais. Tentou enveredar para o hip hop, mas o pai não queria o filho cantando fora da igreja.

Mudou-se para o Brasil a fim de realizar seus sonhos e encontrou nos estudos a desculpa perfeita. Em Florianópolis, Gloire Ilonde vem conquistando plateias com sua música e suas esculturas. Gloire acaba de subir um novo degrau em sua carreira. A convite da Guerrilha Produtora, abriu o show de Liniker, na última sexta-feira (26) na Babilonya Club. Com vocês, Gloire Eolnedi Ilonde.

<< A ENTREVISTA >>

➤ Queria começar perguntando sobre o início da sua vida. Fale sobre sua origem, infância, relação com seus pais. O que você fazia quando pequeno…

Minha vida começou na República Democrática do Congo, em 27 de julho de 1988. Meu pai Frederick ILonde, minha mãe Laurence Ilondo. Sou o menino mais velho de uma família de 5 filhos. Nasci lá, na capital, Brazavile, o Congo fica bem no centro da África, é um país com mais de 70 milhões de pessoas e a cidade onde eu morava é muito grande. Hoje a situação está ruim por causa do governo.

➤ São problemas parecidos com os que vivemos no Brasil atual?

Sim. Eu costumo dizer que o Brasil e o Congo não são tão diferentes. A diferença dos países africanos para os Brasil é que nos países africanos há mais negros. O resto é a mesma coisa. País grande, rico, mas que a população não tira muito proveito disso.

➤ O que você fazia na infância?

Minha infância foi como a de qualquer rapaz. Nasci numa família cristã e, na minha casa, todo mundo canta. Com esse lance do louvor, foi mais ou menos esse meu contato com a música, em casa e na igreja. Na casa da minha vovó também. Lá os pregadores, a maioria canta. É como diz na bíblia: a canção é uma segunda oração. A família se reunia antes de dormir, ou antes de trabalhar, pela manhã, e cantava junto. Depois todos seguiam o caminho. Foi mais ou menos assim que senti o gosto de cantar. Comecei cantando por um ser maior, e ficava emocionado. Depois, comecei a estudar e, aos 8 anos, onde eu estudava comecei a cantar. As meninas gostavam do jeito que eu cantava. Eu fazia rap e as pessoas diziam “canta, você canta muito bem”, ou então diziam: "Toca Celine Dion para nós”. Eu ia cantando e peguei o gosto.

Quando eu mudei de colégio, estava a fim de fazer arte. Meu pai não deixava e dizia: “Esse negócio de música na rua, não! ou canta dentro de igreja, ou não canta. Esse negócio de música de rua e esse tal de hip hop, não."

Ele não gostava, porque lá os músicos antigos não passavam uma imagem bacana, eram vistos como aquele cara vagabundo, pegando todo mundo, fazendo bagunça. Então quem é o pai que vai querer que seu filho se torne um cara desses?

Depois eu saí do colégio onde fazia literatura e entrei num colégio com artes visuais, a Academia de Belas Artes, um dos maiores da África central. Lá tem arquitetura, cerâmica, escultura, pintura, decoração de interiores, muita coisa. Foi lá que comecei a improvisar. Toda sexta os alunos se reuniam e cantavam junto. Foi assim meu caminho. Meu pai também era músico. Todos filhos que nasciam ele fazia uma música.

Meu pai é muito apegado com os filhos, pegava quando a criança chorando e improvisava canções com os filhos no colo.

➤ Você tem uma grande variedade de arte na sua origem. Hoje você continua com outras atividades em paralelo? E pretende continuar?

Sim. No Sesc está acontecendo uma exposição minha. Pretendo continuar, sim. Quando me mudei pra cá, tinha nos estudos uma desculpa para eu poder sair e fazer o que queria. Estou sozinho aqui, me mudei para continuar tocando e fazendo minha vida. Estudando, mas fazendo música e artes plásticas. Antes de vir para o Brasil fazia arquitetura, mas não aguentei. Estava de saco cheio.

➤ Considera que sua vinda para o Brasil está dando certo?

Nada foi fácil. Vir de outro lugar, lá da puta que pariu do mundo e chegar aqui, aprender tudo. Foi uma boa experiência. Aprendi o português, mas minha língua oficial é francês, além de Lingala, Quicongo, Suaíli e Tshiluba, que são as línguas do Congo e mais de seus 345 dialetos.

➤ Sua música mistura um pouco esses idiomas, não é?

Eu me sinto tão bem e a vontade de poder cantar em português. Amo cantar em português. Minhas músicas têm isso. Algumas estão em português, mas também me sinto bem de compor em Lingala. Quando me mudei para o Brasil, fui primeiro para Porto Alegre. Lá conheci alguns haitianos que estudavam na URGS e quando cheguei lá a galera dizia que eu não dominaria o português, que é uma língua chata. Eu falei que aprenderia e foi assim. Eu consegui. Falo bem, ou talvez nem tanto, mas acredito que sim.

Hoje minhas músicas estão compartilhadas em Lingala, francês, português e outros idiomas, que acabo usando uma ou outra palavra.

➤ Você consegue mostrar seu trabalho no Congo?

Ainda não. Aqui estou conhecido. Meu trabalho é bem conhecido aqui em Florianópolis e sou grato por isso. No começo eu reclamava da cidade, achava meio subdesenvolvida na arte, mas agora, nesse exato momento, está acontecendo bastante movimento de arte. Estou bem feliz por fazer parte desse momento em que Florianópolis está crescendo.

Lá no meu país tem bastante amigo que conhece meu trabalho. A galera com quem estudei na faculdade e colégio, nós temos bastante contato. Eles acabam divulgando meu trabalho. Alguns se tornaram jornalistas lá. Nós conversamos bastante e eles querem me ajudar a divulgar mais o trabalho por lá.

➤ Você sonha fazer uma apresentação no seu país?

Sim. é um desejo meu voltar lá e fazer um show na minha terra, onde vai ter pessoas que conheço, os amigos. Isso com certeza é um sonho. Conversava isso com meus amigos que quero conquistar meu espaço. Aqui em Florianópolis está legal, mas quero ir a São Paulo, Rio de Janeiro, Bahia, Belo Horizonte, Brasília. Quero andar o Brasil. Sonho de cantar em festivais como Lollapalooza, Rock in Rio, fazer aventuras grandes, carregar essa bandeira do Tim Maia, do mestre Tim Maia. De andar sei lá onde, tocar uma música do Tim e as pessoas perguntarem quem é ele e ter o privilégio de explicar às pessoas quem é Tim Maia.

➤ Já que você citou essa referência, quem são suas influências na música? Os artistas que te inspiram pela mensagem, ou melodia?

Antes de vir pra cá eu já tinha meus modelos. Papa Wemba, Koffi Olomide, Lokua Kanza, Carlyto Lessa, Singuila, R. Kelly… Escutava bastante música americana. Depois que me mudei pra cá, esses modelos mudaram um pouco. Conheci outras pessoas, como Tim Maia. Aliás, uma amiga minha me mostrou Tim Maia, mas era uma interpretação feita por Seu Jorge. Falei: “nossa, que negão é esse? O cara canta muito.” Alguns meses depois me mudei para Florianópolis, fui para a Lagoa da Conceição e alguém estava tocando essa mesma música e perguntei: “Qual é essa música? Preciso escutar novamente.” Disseram-me que era do Tim Maia e me explicaram que ele tinha morrido. Foi ali que me encantei e até hoje escuto.

➤ Como você conseguiu iniciar essa consolidação do seu nome aqui em Floripa? Você tem parcerias? Empresário?

Eu tenho bastante amigo. A maioria da galera que vai nos meus shows são amigos e conhecidos. Eu sei também que não sou tão conhecido, estou buscando isso ainda. Tem pessoas que reconhecem meu trabalho. Essas pessoas são amigos e amigos de amigos. Uso muito o Facebook, a internet ajuda bastante. Eu divulgo muito meu trabalho lá, faço vídeos, toco com a galera. Divulgo as músicas e desenhos.

➤ E o convite para abrir o show do lIniker? Como foi?

Foi através da Ju Baratieri. A namorada dela que me indicou. É uma querida. Eu a conheço há bastante tempo. Um dia ela mostrou meu trabalho para a Ju e ela gostou também. Então a Ju me viu tocar em algum lugar e guardou meu nome. Quando pintou essa oportunidade de trazer o Liniker para Florianópolis, estavam procurando quem abriria o show dele e encontraram em mim a pessoa certa. Segundo ela, meu trabalho combina com o do Liniker.

➤ O que você acha do trabalho dele?

O trabalho dele é fantástico. Você acha que vou falar mal dele? (Muitos risos). Vou tocar no show do cara e você acha que vou falar mal dele? (Mais risos). O trabalho dele é fantástico. Consegue passar a ideia dele. Passar realmente o que ele é. Isso é o mais bacana de um trabalho. Essa é minha batalha, conseguir passar minha mensagem.

➤ Qual sua mensagem?

Minha mensagem é a música. Ela é a minha verdade. Meus relacionamentos, coisas que me incomodam, que me fazem felizes, tanto na arte quanto na música, são coisas que me comovem. Quando vou desenhar não desenho para você gostar, mas pra mim primeiro. Acredito que se faço algo bem pra mim, alguém vai se identificar. Esse entendimento que tenho hoje, é recente e passei a cultivá-lo.

Eu acredito como um dia uma pessoa falou. Tem pessoas em algum lugar do mundo que precisam ouvir teu trabalho. Acredito nisso também. Estou aqui, mas tem pessoas que precisam escutar meu trabalho. Eu faço minha arte e vai ter pessoas que vão se identificar, como o contrário também.

Quero passar uma mensagem da vida. Das minhas experiências, minhas verdades. Canto as músicas que mostram meus momentos, meus relacionamentos, minha indignação com o preconceito e as injustiças, tudo isso.

➤ Imagino que você deva ouvir isso em toda entrevista, de toda forma, não quero deixar passar. Você enfrenta preconceito aqui?

Sem dúvidas. O Brasil é um país preconceituoso e racista. Eu subo no busão todo dia e poucas vezes alguém senta do meu lado. Isso acontece muito ainda. Ainda existe preconceito sim e, em Florianópolis, também. O preconceito é grande e o racismo é um pouco mais escondido.

➤Você consegue se manter com a música?

Talvez não 100%, mas sim. Essa nossa vida de estudante não é fácil [Gloire estuda design industrial na UDESC]. Então a gente meio que se vira. Faz um trabalho aqui, ali, o jeito é não ficar só focado na música. Com ela consigo pagar umas contas, mas a grande parte é com outros trabalhos freelancer, como qualquer um que precisa sobreviver e não quer passar perrengue e pra conseguir pagar o aluguel e nao ficar na rua.

Eu não ganho muito dinheiro. Às vezes as pessoas vêm no Facebook, porque lá é o meio onde compartilho meus trabalhos. Às vezes alguém diz “bah nego, tu tá fazendo sucesso, tá ganhando dinheiro”. Eu não estou ganhando muito dinheiro, mas estou me virando bem.

➤ Você tem músicos de apoio? Parceiros?

Tem pessoas me ajudando nessa caminhada. Não é uma banda fixa. Eu faço parcerias com várias pessoas. Se citar algum, não vou citar os outros. Mas agora estou tocando com várias pessoas. Já fiz algumas apresentações com Brass Groove Brasil, com François Muleka, na verdade, foi François que me colocou nessa cena aqui, graças aos amigos que ele me apresentou na Lagoa. Pessoas que ele confiava e por confiar em mim fez a ponte.

Já tive bandas aqui também. Congo Brasil Funk. Tocava com Filipe Tock, Juarez, que trabalha com som, Jeferson, do Cabo Verde, Rafa Rosa, meu amigo também. Foi um momento muito bom. Foi a primeira banda que tive aqui. Essa banda se formou na Básica Zero, onde a gente ia pra fumar nas horas extras aqui na Udesc.

➤ Gloire, estou muito feliz de conhecer sua história. Tem algo a mais para complementarmos?

Acho que é isso. Estamos aí nessa batalha, andando. As coisas ainda não ficaram muito claras, mas acredito que tudo vai ficar melhor. Vai dar certo!

➤ Daqui dez anos, quando fizermos uma nova entrevista, o que você estará fazendo? Estará me apresentando seu terceiro CD? Abrindo o Lollapalooza?

Ixi, abrindo não, gostaria de fazer o show principal. Vou usar um provérbio: L'homme propose Dieu dispose. O homem propõe, Deus dispõe. Vamos deixar tudo nas mãos dele. Eu tenho meus sonhos, meus desejos, vou deixar ele a cumprir.

O desejo maior é continuar fazendo o que a gente gosta de fazer. A arte me faz sentir bem. A arte é como se fosse um refúgio. Quando ela está legal, a gente fica bem e quando está ruim, ficamos ruins também. Arte é como um filho. Quando a gente fica doente, nossos pais não ficam bem, é mais ou menos isso.


Publicado originalmente no Facebook do Estopim em 28 de novembro de 2016

 

 

Foto:

Zanelli DeAmorim Calda

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