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Feijão, uma cabeleireira afro na praça XV

18 Jul 2018

Ela vê muito do que se passa na Praça XV de Florianópolis. Trabalhando no seu salão de beleza a céu aberto, observa a movimentação, os olhares de encantamento e desaprovação. Apressados, curiosos, os mais variados tipos percebem a presença dos dreads coloridos e do sorriso capaz de cativar até o grisalho a caminho dos jogos de dominó perto da Catedral. Visitaremos, agora, a história de Rita dos Santos. Está pensando em ornar a cabeleira? Passe lá!

 

Natural de Minas Gerais, a Rita, vulgo Feijão, está há 25 anos na Ilha de Santa Catarina e, desde 2006, comanda o salão de beleza instalado na Praça XV. Segundo ela, uma estratégia de mercado típica de alguém com visão de horizonte, que atrai olhares e aumenta a clientela. Seu diferencial? A cabeleira-afro e nenhuma química. Tudo deu certo desde o início? Não! A Rita enfrentou uma a uma as suas dificuldades e isso inclui o projeto do salão na praça.

 

“Eu sentava ali e não chegava um cliente. Tinha semana que eu não fazia nada, meses que eu não fazia nada. Só que a gente tem que ser persistente. Se você quer alguma coisa, tem que correr atrás e buscar. Foi o que eu fiz. Hoje, uma legião de clientes me procura. Hoje a história é outra”, afirma Rita.

 

O carro-chefe do trabalho é o dreadlock - uma prática mais antiga do que o pente. Amplamente conhecido e imortalizado por Bob Marley, o estilo que faz a cabeça dos clientes de Feijão tem origem milenar nos países da África e na Índia.

 

As primeiras aulas e uma paixão nervosa

 

Feijão aprendeu os primeiros passos como cabeleireira durante um dos seus relacionamentos. Depois das primeiras lições, aperfeiçoou a técnica e pode passar o aprendizado adiante. Há seis anos, a rotina no salão ganhou um aliado e tanto: o filho Johnatan, de 21 anos. Mas calma lá, chegaremos nos detalhes da prole depois.

 

"Conheci essa pessoa nas barracas ali embaixo. Ela trabalhava ali", disse Rita apontando para a fileira de barracas de comerciantes instaladas na praça Fernando Machado.

 

“Tivemos um fight de cinco anos. Um amor nervoso. Mexeu comigo, com meus hormônios, com tudo. Comecei a trabalhar por brincadeira”, lembra-se Rita.

 

Ela e seu amor nervoso formaram parceria de trabalho por um tempo, mas o elo se desfez. Feijão precisou apenas levantar a cabeça para enxergar seu futuro logo adiante, na Praça XV de Florianópolis.

 

Depois, bastou resolver os trâmites burocráticos com os sentinelas da prefeitura e, dali em diante, passar o dia pertinho da Figueira e da multidão que perambula no Centro.

 

Os serviços do salão da Rita

 

Além dos dreads, no salão da Rita, você pode fazer tranças, mega hair, tererês. Tudo na mão e na agulha. Zero química. Ela também ensina sobre os cuidados necessários com os dreads.

 

“Tem pessoa que cuida e tem pessoa que não cuida. Tem pessoa cheirosinha e pessoa com bichinho, porque não cuida. Sentando aqui, ensinamos como manter, como lavar. Tem gente que acha que não vai mais lavar a cabeça. Da onde? Tem que lavar a cabeça, sim”, explicou Feijão.

 

Alguns clientes acabam se tornando amigos e os que vêm indicados por Johnatan têm status de filhos.

 

“Quando uma pessoa está cabisbaixa, com o sentimento abalado, eu acabo sendo psicóloga ou sexóloga. Falamos de sexo geral, porque é importante. É cada bafo que acontece”, brinca Rita.

 

O salão também é itinerante. Nos dias de chuva, por exemplo, o serviço funciona em uma marquise na rua João Pinto, ou em uma mesa improvisada no Terminal Velho. No carnaval, quando a prefeitura fechou a Praça XV, era lá que ela estava. Rita também atende a domicílio e, às vezes, trabalha na praça da Lagoa.

 

Cabelo liso, crespo, ondulado, todos os tipos podem contratar serviços no salão da Rita. Uns poderão aproveitar a cabeleira por mais tempo, outros devem ter cuidado redobrado. E o preço é popular.

 

“No cabelo liso é de uma forma, no ondulado de outra e, no crespo, de outra. O que dura mais é o crespo, mas pessoas com cabelo liso também podem fazer. Vai durar menos, mas podem fazer”, enfatiza.

 

 

A chegada em Florianópolis

 

Antes de ser cabeleireira na Praça XV, Rita travou batalhas difíceis, daquelas que nos testam, calejam, ensinam e moldam para toda a vida. Sua chegada a Ilha de Santa Catarina foi no início da década de 1990 e a opção de trabalho foi como doméstica de uma família da Av. Beiramar.

 

 

“Trabalhei muito como doméstica e faxineira. Aí tive os meus bebês. Tenho dois filhos: o Johnny e a Bruna. Produção independente. Eles não têm o mesmo pai e são totalmente opostos. Criei os dois sozinha, na raça. Lavei muito toldo nessa cidade. Até grama eu cortava. O que aparecia eu ia fazendo. Trabalho tem, é só querer,” ressalta Rita.

 

Feijão não gosta de dar brecha para maré negativa. Valoriza toda forma de trabalho. Para ela, o importante é encontrar ocupação. Sente o mesmo orgulho do parceiro de salão e da dona de casa que lhe deu o primeiro neto: David.

 

As linhas do passado

 

Mas, para conhecer mesmo a história da Rita, precisamos voltar ainda mais no tempo e no seu passado. Precisamos falar que ela não foi criada por seus pais biológicos e, ainda bebê, foi entregue pela mãe a uma família do Paraná. Aos cinco anos, foi deixada em um orfanato, onde permaneceu até os 13.

 

Do lado de fora, foi trabalhar como babá, e sua guarda era tutelada pelos patrões, afinal, ainda era menor. Vida que segue! Rita trabalhou, estudou, aprendeu, cresceu e viveu em plenitude até a fase rebelde.

 

“A mensagem que saí do orfanato é que a vida é dura para quem é mole e quem não trabalha, não come. Isso eu passei para os meus filhos. Ser honesto, poder trabalhar, não ficar se acabando por aí”, declara Rita.

 

A história dos pais biológicos de Feijão lembra enredo de novela. Sua mãe ganhava a vida como profissional do sexo. O pai se apaixonou pela moça e eles ficaram um período juntos, mas ela preferiu voltar a fazer programas e, por isso, a família tradicional brasileira não se configurou ali. O primeiro destino de Rita foi a família adotiva e, depois, o orfanato, onde ela disse que viveu uma infância feliz.

 

"Não sou uma coitadinha, porque tem gente que diz: ‘ahhhh, nasceu no orfanato, coitadinha.’ Não! Lá foi necessário. Foi muito bom, vivi muito bem e, por incrível que pareça, tem quatro meninas lá do orfanato que moram aqui em Florianópolis e a gente se fala de vez em quando. O mundo girou, girouuuu e eu encontrei algumas irmãzinhas”, disse Rita.

 

"Algo diferente"

 

Primeiramente: abaixo, a família tradicional brasileira! O padrão aqui é: foda-se o padrão. Quando completou 17 anos, Rita começou a sentir algo diferente em relação a sua sexualidade. Descobriu-se lésbica! Ela também nutria o desejo de ser mãe e ter a sua família. No entanto, não queria um marido. Por isso, os filhos vieram em produção independente, como ela mesma diz.

 

 

“Decidi procriar e veio a Bruna, depois o Johnatan. Hoje sou casada com uma mulher. Tive um grande enriquecimento com as pessoas e a família é minha base. Meus filhos são minha base”, revela Rita.

 

O tempo para Rita passava normalmente, até que, certo dia, ela estava navegando nas redes sociais - um hábito frequente, inclusive para atender clientes ou descontrair com os amigos - e recebeu uma abordagem estranha de uma mulher.

 

“Estava lindamente no meu Whats e, de repente, alguém começou a falar comigo e perguntar algumas coisas. Era minha irmã biológica. Ela me encontrou pelo Facebook. Eu nem imaginava que tinha essa irmã. Ela vive em Cascavel”, disse Rita.

 

Conversa vai, conversa vem, Rita soube que essa irmã também havia sido adotada e devolvida. Depois desse reencontro, os componentes da família aumentaram. Ela soube da existência de outros cinco sobrinhos e dez sobrinhos-netos.

 

“Estava emocionada com a mudança radical na minha casa, porque ia me tornar avó. Aí veio o nascimento do David, que é uma bênção dentro de casa, precisava dessa harmonia”, avalia Rita.

 

Rita evolui para Feijão

 

Minas Gerais, Paraná, São Paulo, Paranaguá, Ponta Grossa... A lista de cidades onde Feijão já brotou até se fixar em Florianópolis é grande. Anos atrás, quando vivia em São Paulo, Rita trabalhava no restaurante Arroz com Feijão. Certa vez, quando os funcionários da cozinha se alimentam depois do dia de serviço, um de seus colegas gritou: Feijão!!!!! Rita prontamente respondeu: o que foi? E não deu outra. O apelido pegou e, quando veio para Florianópolis, uma amiga deu com a língua nos dentes depois de ouvir essa história.

 

"A princípio eu não gostei, achei o ó. Quando eu vim para Florianópolis, ninguém sabia. Contei para uma amiga sapa e ela falou assim: ‘Feijão é a tua cara’. Eu falei: ah, meu Deus, por favor criatura! Mas aí um começou a falar, o outro também e não é que fui gostando da situação? E aí ficou Feijão”, disse Rita.

 

O receio de aceitar o apelido estava ligado a uma mágoa do passado: o preconceito pelo fato de ser negra.

 

“Na escola, lá atrás, quando a gente é pirralha, nos dão apelidos, como negrinha do cabelo duro, rolo de pixe, cabelo bombril. Até que eu falei: o dia que eu for mãe, os meus negrinhos vão vir branco”, lembra-se Rita.

 

Hoje, encarnando um dizer típico do manezinho: "se quéix, quéix, se não quéix, dix", Rita se livrou dos olhares maldosos e vai tranquila ao trabalho com a roupa que prefere e a faz se sentir confortável.

 

“Negra, lésbica e gordelícia. Tem que ter peito para encarar. Tem o preconceito por ser negra, por ser lésbica e por ser gorda. Tive que me impor muito para ser o que sou hoje. Venho de top mesmo! Mostro minhas gordurinhas mesmo! Falo desse jeito mesmo. A Feijão é assim. A Rita é mãe do Johnatan, da Bruna, avó do David e tem seu lado responsável, seu lado dona de casa”, compara Rita referindo-se a Feijão e vice-versa.

 

Depois de obter êxito em vontades que a fazem se sentir vitoriosa, como comprar a própria casa e ter dinheiro para comprar o que precisa, Rita carrega um objetivo que deve fazê-la causar ainda mais na ilha de Santa Catarina.

 

"Parece até bobo, mas é que os outros sonhos eu já consegui com muita briga, muito choro, muito grito. Agora, minha vontade é ter um carango e sair dirigindo por aí. Mas meu carango tem que ser diferente. Sabe esses foods trucks? Então... Truck Hair", disse Feijão levando a reportagem inteira ao riso.

 

Um presente misterioso

 

Segundo Rita, as batalhas para chegar ao status de hoje não foram poucas e, uma história em especial, representa um dos momentos mais marcantes da sua luta como mãe. Nessa época, Rita morava com os pequenos no Monte Serrat. Johnny tinha três anos e Bruna seis.

 

“Era uma sexta-feira e eu tinha feito uma faxina. Com esse dinheiro, ou eu pagava o aluguel ou comprava comida. Decidi comprar comida. Fui para casa, peguei os meninos na creche, cheguei em casa linda e formosa e, pra começar, acabou o gás.”

 

 

Esse foi apenas o primeiro imprevisto daquela sexta-feira à noite. Depois de saber sobre o gás, Rita resolveu dar banho nas crianças e, ao terminar de lavar o primeiro, faltou água para a segunda. A mãe levou as mãos a cabeça. Pensou, pensou e resolveu improvisar um fogareiro de tijolos para servir uma sopinha aos pequenos.

 

Depois, todos se deitaram e Rita foi dormir com a preocupação na cabeça. Antes de pregar os olhos, pediu ajuda a Deus e nessa oração depositou todas as esperanças.

 

“Eu pedi: ‘Senhor, me ajude para que eu não desande, porque se eu desandar, eu vou para o lado errado, me ajude, eu não tenho nada!’ Às 5h da manhã bateram na minha porta. Fiquei preocupada, pensando que era o dono da casa cobrando o aluguel. Quando abro a porta, tinha duas cestas básicas, uma caixa de leite e um frango inteiro. Até hoje eu não sei quem foi”, conta.

 

Assim como as surpresas negativas da noite anterior vieram a galope, as positivas não deixaram por menos. Ainda naquele sábado, os filhos ficaram sob os cuidados de uma vizinha e Rita foi chamada para fazer uma faxina. Depois de contar sua situação a patroa, ela ganhou um botijão de gás cheio, dois meses de aluguel adiantado e mais algumas compras.

 

“Esse aqui” - Rita aponta para o filho Johnny - “o ‘Maria Bolacha’, até hoje só come bolacha. Nunca me esqueço. Foram momentos únicos com os meus dois filhos, dentro de uma casa que não tinha tudo, mas tinha muito amor. Lembrando disso começou a me dar um..." a voz de Rita embargou entre as memórias e algumas lágrimas caíram. O Johnny, não. Ele só queria bolacha.

 

 

Reportagem:

Nícolas David e Bianca Taranti

Fotos:

Bianca Taranti

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