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Deputado Federal Hélio Costa fala em entrevista ao Estopim

 

No dia 18 de julho, a equipe do Estopim Coletivo visitou o gabinete do Deputado Federal Hélio Costa, no Centro de Florianópolis. Durante a semana, Hélio se divide entre a função de jornalista no SBT e a de Deputado Federal por Santa Catarina, em Brasília. 

 

Apresentador de rádio e TV há mais de 40 anos, Hélio foi candidato a Deputado Federal em 2018 em um partido, até então, sem muito espaço em Santa Catarina, o PRB. Mais do que eleito, Hélio fez votação recorde, 179,307 votos e foi o mais votado no estado.

 

Nessa entrevista, ele fala da sua origem, da passagem no Exército e explica que resolveu ser deputado porque estava perto de se aposentar na carreira que o consagrou. Hélio fala ainda sobre sua atuação na Câmara dos Deputados e comenta assuntos como Reforma da Previdência, Redução da Maioridade e Penal.

 

Também nessa entrevista, Hélio confirma sua intenção de ser candidato à Prefeitura de Florianópolis em 2020. Pare, respire, leia!

 

A entrevista

 

Estopim Coletivo: Hélio, queremos começar lá no passado, na época em que a dona Jovelina e o seu Francisco ditavam as regras. O que eles transmitiram de valores essenciais para você? 

 

Hélio Costa: Muito respeito aos outros. Estudar… Eles me passaram tudo, nós éramos uma família pobre, eu não passei fome, mas fui um garoto mal nutrido. Comecei a trabalhar aos 11 anos, de cobrador de ônibus, na Empresa Florianópolis, mas eu não gostei, desisti. Trabalhei 30 dias só e me mandei. Não tinha catraca central, então, muita gente passava sem pagar e eu tinha que pagar, porque a catraca era na saída do ônibus.

 

A mãe queria que eu fosse mecânico e me colocou de aprendiz na oficina de lataria. Mas daí eu via aquela gurizada indo pro campo jogar bola, brincar e eu disse: “mãe, não vou mais não! Não quero ser mecânico, não.” Eu tinha 12, 13 anos.

 

E ela [a mãe de Hélio] disse: “não queres ir, não vai.”

 

Estopim: Qual a profissão dos seus pais?

 

Hélio: Minha mãe era lavadeira, da Escola de Aprendiz de Marinheiro e meu pai era funcionário público da DEOP, Departamento de Obras Públicas, que hoje é o DEINFRA. Ele era vigia, mas fazia de tudo.

 

Aos 14, comecei a trabalhar na empresa Gilmar Henrique Becker Materiais de Construção, em Florianópolis, no setor de cobrança. Depois fui pro Felipe Cia, aí fiquei até 18 anos, quando me alistei no Exército e me mandaram para Brasília.

 

Estopim: Quanto tempo você ficou no Exército, isso mudou sua cabeça?

 

Hélio: Fiquei um ano e um mês. Mudou minha vida, porque fui para Brasília. Fui pra Cavalaria. Cavalo, aqui, só via em carroça, nunca me aproximei de um cavalo e peguei o Esquadrão Hipo. Tinha que tomar conta dos cavalos, um trabalho tremendo. 

 

Depois, abriu vaga para ir para o 4º batalhão, aí pediram voluntário, eu fui. Ninguém saia do Esquadrão Hipo, é um Regimento de Cavalaria de Guarda, os Dragões da Independência. Aí fui para o esquadrão motorizado e esse esquadrão fazia a Cerimônia do Planalto às segundas e quartas-feiras. 

 

Participei de cerimônias, na época, do Geisel e do Médici. [Emílio Garrastazu Médici e Ernesto Geisel foram presidentes do regime militar do Brasil de 1969 a 1974 e de 1974 a 1979 respectivamente].

 

 

O Figueiredo tinha sido comandante do meu quartel, mas quando eu cheguei ele tava saindo. [João Figueiredo, último presidente do regime militar do Brasil, de 1979 a 1986]. Foi promovido a Coronel e estava saindo. Foi para o SNI [Serviço Nacional de Informações].

 

Eu queria ficar em Brasília, mas não deu. No começo era uma loucura, sentia saudades de casa, queria passar na barra da saia da mãe, família pobre, mas unida e limpinha. No total, dez irmãos, porque meu pai casou três vezes. Ele ficou viúvo nas duas primeiras. Tenho irmã de 93 anos, outra de 90, dos casamentos anteriores do meu pai. Minha mãe criou praticamente todos do segundo casamento.

 

Estopim: Por que você resolveu de repente abdicar desses 41 anos de jornalismo e vir para a política? 

 

Hélio: Eu já tinha tempo para me aposentar como jornalista e senti que o país tinha que dar uma mudada. Não iria ser eu que iria mudar o país, mas lá iria fazer leis de verdade. Temos dois, ou três projetos encaminhados.

 

É interessante também participar das comissões, não é tá lá no Plenário. Plenário é para votar e fazer uso da palavra. Já fiz três vezes, mas o bom é trabalhar nas Comissões.

 

Sou da Comissão do Idoso, porque pedi, e de Segurança e Combate ao Crime Organizado, e me colocaram também na Comissão de Viação e Transportes, que é importante também. 

 

Lá a gente encaminha projetos de lei, discute os problemas do Brasil na área de Segurança.

 

Hélio costa candidato a deputado federal em 2018

 

Estopim: Você é um outsider, alguém novo na política, apesar de que seu nome está cogitado há algum tempo e você foi candidato a vereador em São José na década de 1990, certo?

 

Hélio: Sim, mas desisti, porque vi um esquema político. Não iam deixar me eleger. Descobri, mas era tarde, aí larguei a campanha.

 

 

Estopim: Como está a vivência na Câmara? Se decepcionou com algo? Se surpreendeu com algo? É aquilo que muita gente pensa, acabou? o Brasil não tem salvação, ou ainda temos deputados bons, que estão se esforçando. Você disse que está em busca dos bons lá na Câmara, conseguiu encontrá-los? Quem são?

 

Hélio: A Tabata Amaral, gente do PT, o Fontana, em todos os partidos tem gente boa. Até no meu partido, temos uma bancada de 31 deputados, uma das maiores da Câmara, pessoal bom, pessoal limpo.

 

Quando eu cheguei, comecei a mostrar: “oh, não vou ser refém de líder.” O líder pode discutir lá com o presidente e trazer as informações, mas se eu não concordar, vou votar contra o partido e votei, algumas vezes, contra o partido. Votei para manter o COAF com o Sérgio Moro, o partido queria tirar.

 

Quem tem medo do Sérgio Moro? Eu não tenho. Pode defasar minha vida, que não vai encontrar nada, nada, nada, nada.

 

Estopim: Recentemente, o senhor se encontrou com o general Mourão. O que foi discutido? Sobre o que falaram? 

 

Hélio: Fui para conhecê-lo.

 

Estopim: Ele vem a Florianópolis, certo?

 

Hélio: Vem. Ele me convidou para assistir a palestra dele, na Acaert. [A entrevista do Estopim foi gravada um dia antes da palestra do vice-presidente General Hamilton Mourão na Acaert, encontro exclusivo para convidados].

 

Quando me encontrei com ele, não levei nada. Foi muito bom. Me surpreendeu. Muito inteligente. Não tem general burro. Muito inteligente e gostei de conversar com ele. Não pedi nada, não pedi força, porque eu vou buscar. Eu corro muito Ministério em busca de soluções para Santa Catarina. Acho que os políticos de 40 anos atrás em Santa Catarina não trabalhavam por Santa Catarina.

 

 

Nosso sistema de rodovias para transportar nossa produção, os portos, foram modernizados há pouco tempo. O Porto de Santos e o de Paranaguá estão lá na frente. E as estradas que cortam Santa Catarina lá por cima foram construídas nos anos 1930, para tirar a produção do Rio Grande do Sul, que tem uma bancada mais fechada.

 

Agora foi criado aqui o Fórum Catarinense, achei uma grande ideia. Todo mundo discute os assuntos de Santa Catarina para levar para os Ministérios. O Fórum é o conjunto dos 16 deputados federais e dos 3 senadores. 

 

Estopim: Como está esse fórum? Vê avanços?

 

Hélio: Vejo. Podem sair medidas do orçamento impositivo coletiva. A última entrega de ônibus aqui foi coletiva. Cada deputado tirou um pouco da suas emendas, juntaram tudo, isso é coisa importante, pode fazer com outras obras, importantes para sociedade de Santa Catarina. 

 

Estopim: Deputado, o senhor é titular da Comissão de Segurança Pública e Combate ao Crime Organizado na Câmara. Como tem sido seu trabalho nesta comissão? O que o senhor tem puxado? O que tem sido discutido?

 

Hélio: Primeiro que eu já botei a boca, já falei alto lá dentro, porque sempre tinha um número mínimo para dar quorum. É assim que se trata Segurança na Câmara? Para começar, tem que esperar os caras chegarem, mas o pessoal também participa de outras Comissões também tem isso, mas xinguei. 

 

Segurança hoje é um problema do Brasil e discutem muita coisa é necessária, mas não é urgente e o Brasil tem que ter medidas urgentes.

 

Estopim: Quais?

 

Hélio: Fortalecer as polícias. O Brasil não tem viatura policial. O carro da polícia é o teu carro, é um carro sedã de passeio, que é plotado de carro de polícia, com giroflex, rádio… Nos outros países, não. Os carros são produzidos para ser carro de polícia, blindado, porque o cara corre risco o dia todo. Isso é valorizar segurança.

 

Estopim: O que mais o senhor defende em termos de Segurança?

 

Hélio: Tem a Lei de Maioridade Penal. Um cara de 17 anos comete um crime, ele já tem filho, já tem mulher, é ato infracional. Pra mim, é crime, mas está no ECA, que é ato infracional. Se o cara de 17 anos optou pelo crime, ele não vai mais sair, não adianta botar no internato, que ele não vai sair. E o tráfico se aproveita disso.

 

Os prefeitos aqui foram lá em Medellín, na Colômbia, e em Bogotá. Lá deu certo, mas lá a polícia não subia sozinha, o governo subia. Ainda tem tráfico, mas o governo subia e fazia a parte social, a parte de educação. Não adianta só subir com polícia no morro. Por que no Rio de Janeiro as UPPs não deram certo? Porque era só polícia. Os teleféricos não deram certo no Rio, por quê? Porque no morro, só ia polícia. Tem que ir o governo com a parte social, a Saúde, a Educação. O cidadão tem que ver o governo lá.

 

 

A polícia tem que ter inteligência. Tem que tá na frente do crime, ela está trás. E tem que parar consumo de drogas. É muito viciado, muito viciado. Tem quadrilha organizada, porque tem demanda. E não é o pobre, é o rico. O Brasil todo vai cheirar no Rio de Janeiro. E aquele que cheira não vai lá no morro comprar, ele espera no hotel.

 

Estopim: Como se resolve isso?

 

Hélio: Projeto de governo, inteligência, policiais bem pagos, uma corregedoria que funcione bem. para punir o mal polícia. Polícia não vem de marte, vem da comunidade.

 

Estopim: O que o senhor acha da polícia aqui?

 

Hélio: As nossas polícias são boas. Poderiam ser melhor, se houvesse mais investimento. As nossas academias são boas. Eu acompanho, fazia noticiário policial e acompanhava a dedicação de certos polícias.

 

Estopim: O que o senhor achou do jovem Vitor, que estava brincando com uma arma de pressão nos Ingleses e foi morto pela polícia?

 

Hélio: Acho que houve excesso ali. É um só, tu vai trocar tiro com ele? Não. Primeiro a vida Ali achei exagero atirar. Exagero e falta de preparo.

Hélio Costa nas eleições de 2020

Estopim: O senhor é pré-candidato a prefeitura de Florianópolis? 

 

Hélio: Eu sou candidato. Sou candidato, mas a disposição do partido, vamos discutir.

 

Estopim: Tens essa vontade, então, de ser prefeito?

 

Hélio: Florianópolis falta projeto de cidade. Planejamento direitinho, programa de governo. Quem ganhar a prefeitura vai executar aquele plano. Plano Diretor eles mudam todo ano. É uma desordem.

 

Estopim: Vocês têm feito conversas com pessoas para alianças?

 

Hélio: Me procuram, eu não procuro ninguém. Vários partidos políticos me procuraram, são conversas. Se eu fosse prefeito, não teria essa secretariada que tem, esse monte de secretário. Tem que enxugar tudo, tudo mesmo. Vai ter que ser bem enxutinha. Vereador não pode mandar na prefeitura.

 

Estopim: O senhor acha que tem isso hoje?

 

Hélio: Claro que tem! Em troca de apoio político.

 

Estopim: Deputado, Reforma da Previdência. O senhor disse que estudou o texto da Reforma e votou a favor do texto base. Qual sua opinião sobre esse tema? Por que é a favor?

 

Hélio: Eu comecei a falar dos professores, queria tirá-los [da Reforma], melhorar a situação que veio do Palácio.

 

BPC não é Previdência, é assistência, pra que mudar? “Ah não, daqui 4 anos ele volta a ter salário mínimo.” 

 

Nesses 4 anos ele já pode ter morrido, se for carente. É um salário mínimo e ia passar para 400 reais. E o remedinho dele?  E o pequeno agricultor? Não o cara que faz parte da Frente Parlamentar de Agricultura, esses são milionários, têm milhões de hectares de terra, mas aquele pequeno  trabalhador rural, que criou os filhos ali na agricultura familiar, não teve como assinar carteira, não tem sindicato, vamos deixar na mão?

 

Os policiais tinham que ter benefícios para os policiais cuidarem de nós, não poderia botar na vala comum, mas nós conseguimos tirar policiais e professores.

 

Estopim: O governo tem uma sanha na Reforma da Previdência. Não faltou mais cuidado para olhar isso antes?

 

Hélio: Eles colocaram para ser retirado, pra ter discussão a favor ou não. Se não passa a Previdência eles iam para o Imposto de Renda para aumentar alíquota de quem ganha mais, que deveria ser o certo. Pode escrever, esse é um pensamento meu. Eles iam para o Imposto de Renda.

 

É a panacéia [a Reforma] para todos os problemas? Não é! É apenas o começo, apenas o começo. A Reforma da Previdência eu te digo, com certeza, não vai resolver o problema do Brasil, sem ter outras reformas, por exemplo, a Reforma Tributária, a Reforma Política também, mas essa não te dá capital, a Reforma Tributária dá capital para o governo.

Estopim: Deputado, novamente sobre Redução da maioridade penal. Trazemos aqui uma questão de um leitor nosso:

 

Babyton Santos: “Por que aposta em uma pauta tão conservadora e excludente como a redução da maioridade penal, sabendo-se que os jovens são responsáveis por apenas 1% dos crimes cometidos no país?”

 

Hélio: Faz sentido. O matador de facção é adolescente. Ou se não mata, se apresenta, como assassino, ele sabe que não vai dar problema. Eu acho que vai dar mar mais responsabilidade [a redução]. Resolver não vai, porque desses grandes aqui, para ficar na cadeia, para ficar 3 anos recluso, o cara tem que cometer um crime de 9 anos. 

 

O adolescente comete um homicídio, que no mínimo é 12, ele pega três anos, mas não é três anos trancado. Se fosse três anos e ele fosse realmente educado, conscientizado.

Estopim: Falta esse trabalho? Existe esse esforço?

 

Hélio: Mas eles não querem. Muitos não querem. Eu faço polícia [noticiário de polícia] há muito tempo. Antigamente o adolescente delinquia até a puberdade, arrumava uma namorada, saia da turma. Hoje, ele não precisa mais sair da turma, porque a menina tá lá também, então não precisa mais e as crianças de 14, 13 anos estão sendo cooptadas para trabalhar, ser foguetinho e se perder tem que pagar.

 

Vi uma história aqui de um guri que perdeu a droga para PM. Ele ficou trabalhando lá na boca pra pagar a coca que ele perdeu e os delegados descobriram, porque o vô relatou para o delegado e disseram pro bonito: “queres sair? Vais ter que sair daqui, eles vão te matar e vão matar teu avô também.” 

 

Aí os dois delegados - não vou dizer nome nem nada - pegaram esse guri, compraram a passagem dele e do vô, deram mais um dinheirinho para despesa e mandaram embora pra cidade deles no Rio Grande do Sul. Ele ia passar uns 3 anos pagando a dívida. Resultado? foi embora.

 

 

Reportagem e entrevista:

Letícia Dorneles e Nícolas Horácio

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