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De pai para filho

12 Oct 2017

Nascido da cumplicidade entre amigos, o clip “Jovens Pais”, do grupo Fraternidade Rap, dialoga com a realidade de muitos jovens brasileiros. Em uma sociedade em que muitas vezes o papel do pai fica em segundo plano, às vezes por eles mesmos, ou por causa dos dogmas da sociedade, é incrível ver no olhar desses jovens amigos o nascimento de um sentimento conjunto que deu origem a uma mistura de amor, rap e amizade.

 

Por muito tempo acreditou-se que a paternidade cumpriria um papel mais rígido e que o dever do homem na criação dos filhos era o de sustentar a casa e se sobrepor a imagem da mãe. Hoje, apesar de diversas vezes encontrarmos pessoas que compartilham estes pensamentos, o modelo está se reconstituindo.

 

Essa história aborda mais do que uma nova música no cenário musical de Florianópolis. É um marco para quem acha que apenas as mães carregam o amor porque são mulheres e para quem acredita num falso dom que apenas elas teriam.

 

Nessa entrevista sobre “Jovens Pais”, composição que fala diretamente com seus filhos, os amigos Bruno Neri (Young Daddy) e RFL, revelam um pouco sobre o processo criativo do clip e pensam criticamente o cenário musical do rap em Florianópolis. Dá um confere!

 

 

Processo criativo

 

Rafael Ramos Portela (RFL): Respiramos música intensamente, então foi uma parada natural. A Cecília e o Vicente têm quase três meses de diferença de idade e eu e o Bruno fazemos música bem antes de ser do mesmo grupo. Estamos semanalmente trabalhando junto, escrevendo e produzindo. Tudo mudou quando o Vicente chegou, na realidade, era o que faltava (risos) e aí em um desses rolês, lembramos que estava chegando o dia dos pais e simplesmente resolvemos escrever o que vivemos.

 

RFL: Na mesma semana, o Kobi já me mandou umas capelas e mesmo cruas elas tocaram forte no meu coração e precisei escrever. O vídeo fizemos com os celulares mesmo. Baixamos um app e começamos a filmar nossa rotina com os bebês. O restante foi muito gostoso fazer, a edição e tudo mais, porque era nada mais nada menos que dirigir um clip da nossa família no dia a dia. Filmar a nossa verdade ali.

 

Luta por reconhecimento

 

Bruno Neri (Young Daddy): Na verdade essa luta, para mim, sempre foi o trabalho, né? Acredito que quando a gente quer, a gente trabalha e corre atrás. Essa é a melhor forma de lutar na minha visão. No Rap, sinceramente, eu não tenho uma causa específica. Abordo sobre vários assuntos, sobre amor, sobre algum rolê que me inspirou a chegar na ideia de fazer o som, sobre racismo, sobre amizade, paternidade. Acredito que, como artista, tenho total liberdade para fazer de tudo com a minha arte, saca? A melhor forma de "lutar" no rap é trabalhando e mostrando a nossa arte para o maior número de pessoas que pudermos.

 

O rap em Florianópolis

 

Bruno Neri (Young Daddy): A visibilidade do rap aqui em Florianópolis, eu sei que vai ser meio chato, mas não tem segredo para mim... É trabalhando, e aí a gente vai alcançar todo o resto. O que eu vejo é que o ritmo de trabalho de quem já é reconhecido é muito maior, entende? Aqui é praia… A maioria das pessoas quer curtir no fim de semana com a família e não abrir mão disso, por exemplo, para estar gravando ou trabalhando em prol da sua música.

 

Young Daddy: Para mim, isso que é crucial. E ainda vejo poucos por aqui em Santa Catarina, mas boto fé que isso está mudando e esse ano ainda vamos ter muitas surpresas. Eu respiro música e nada vai mudar isso, porque é algo que vai muito além do fato de eu ser um artista fora do eixo e sem muitas visualizações ainda.

 

Young Daddy: Tenho certeza que quando eu e os meus manos estivermos a todo vapor lançando nossas músicas, muitas pessoas fora de Santa Catarina vão ouvir falar de nós e eu vou dar outra entrevista dizendo que eu já sabia disso tudo antes do nosso som bombar.

 

Rafael Ramos Portela (RFL): A valorização da Cultura, de modo geral na cidade, seria um começo. Talvez um investimento público nos projetos sociais, quem sabe se olharmos mais para essas ideias como olhamos para os smartphones? O Rap já tirou muito menor do crime, muitas pessoas da rua, talvez ainda haja preconceito com o Rap, por mais que esteja na televisão ou em eventos, somos muito mais que casas noturnas e vídeo clipes bem produzidos.

 

RFL: A população poderia ajudar se informando mais, abrindo a mente, debatendo mais sobre a cultura da sua cidade, do seu município, do seu bairro. Como quase toda criança de comunidade pobre, meus pais se separaram quando eu era muito novo. Minha mãe aguentou a bronca toda sozinha praticamente, foi pai e mãe ao mesmo tempo. Meu irmão mais velho que me criou/educou, moramos em várias kitnets. Certo dia peguei um cd emprestado, do Apocalipse 16, e aquele cd travou no rádio, poucas pessoas acreditam nessa história mais foi assim que o rap entrou na minha vida, me trouxe a liberdade, a minha forma de me achar, de não me sentir mais sozinho.

 

"Como quase toda criança de comunidade pobre, meus pais se separaram quando eu era muito novo. Minha mãe aguentou a bronca toda sozinha praticamente, foi pai e mãe ao mesmo tempo."

 

 

O começo de tudo

 

Bruno Neri (Young Daddy): Eu comecei a gostar de música depois de ouvir Charlie Brown Jr. e Racionais MC’s. Depois comecei a ouvir Marcelo D2 e outros sons de rap que estouraram em 2006. Aí ganhei um violão do meu avô, aos 12 anos, e foi neste momento que eu tive a certeza do que eu queria levar para o meu futuro. Eu só não fazia a menor ideia de como ia fazer isso. Até deixei o rap de lado nessa época, queria ser guitarrista, e depois me envolvi com bandas, aprendi a tocar guitarra, baixo, teclado, piano e um pouco de bateria, tivemos estúdio e tudo.

 

Young Daddy: Nesse meio tempo eu comecei a frequentar batalhas de rap. A batalha de rap da Forka, no bairro de Forquilhinhas, foi a primeira que eu fui, em 2012, eu e o Eduardo Esc, meu parceiro de grupo hoje no fraternidade e padrinho do meu filho. Nós entramos na nossa primeira batalha, e vencemos.

 

Young Daddy: Desde então a gente só se envolveu mais nessas batalhas de freestyle, até querer fazer nossos próprios sons e formar a nossa banca “LaÀrea” aqui onde a gente mora em Forquilhas. Nesse meio tempo eu também já era envolvido com o fraternidade rap. Eu e o RFL já cantamos juntos desde 2012. Tudo começou nesse ano e, depois disso, as coisas foram acontecendo até chegarmos aqui.

 

De pai para filho

 

Bruno Neri (Young Daddy): Quero transmitir isso para o meu filho da maneira mais livre possível. Nunca fui bom em forçar as pessoas a fazer nada e nem faço questão que o meu filho queira as mesmas coisas que eu. A gente só faz o nosso som e fala o que nos inspira, saca? Eu consigo me expressar melhor fazendo um som, do que falando, bota fé?

 

Young Daddy: Quero que o Vicente saiba que o pai dele fez o que quis, correu atrás dos sonhos e não deixou nada prender ele... da mesma forma que eu quero que ele faça o mesmo, seja pela música, seja pela arte, seja vivendo a vida dele, sendo feliz independentemente de tudo. É isso que eu vou ensinar pra ele: ser livre. Não sou eu que vou dizer o que vai ser melhor pra ele, mas sim, ele mesmo, mas ele pode ser saber que vai ter um amigo pra sempre!!!! Ele e a minha família ainda vão me inspirar em muitos outros sons e se ele gostar de rap e quiser seguir na caminhada também, vamo tá junto de qualquer forma.

 

Rafael Ramos Portela (RFL): Como a Cecília vai enxergar tudo isso daqui alguns anos? eu não sei! mais o que eu quero que ela entenda, é que foi a melhor fase da vida do pai dela e que quando ela nasceu foi "como se eu segurasse o mundo" (risos) Ser pai, é misturar expectativas, de você da vida, e do que vai ser dali a frente. Essa música nos transporta até esse sentimento. O Rap, já é a rima do real, e nada é mais real que o primeiro sentimento que desenvolvemos, o amor.

 

 

A paternidade

 

Rafael Ramos Portela (RFL): Falar que é tudo mil maravilhas, não seria a verdade, tudo é uma fase, vai de cada um como passar por ela. Nem todo jovem é imaturo, como falam, eu acredito que a maturidade é um reflexo da evolução de cada um, se você não toma decisões, você não evolui, acaba ficando no mesmo lugar.

 

RFL: Ser pai jovem foi uma opção minha e da minha esposa, não foi um "acidente", até porque filho(a) tá bem longe de ser um acidente na real. A Cecília chegou pra mudar completamente a minha vida, me tornando um cara melhor em vários aspectos, fazendo notar valores em coisas simples novamente, filhos são uma benção.

 

RFL: As rotinas se tornam outras, temos nossos objetivos pessoais, nossas metas também, só que agora com filhos, muitas pessoas me falaram que eu não daria conta e teria que parar com a música, porque não haveria mais tempo. Nós precisamos aprender a dividir o tempo, eu ainda estou aprendendo, você vai dormir menos talvez, ou provavelmente (risos), só que a música “Jovens Pais” é também a prova que tudo é consequência do que plantamos, amamos a música, mas amamos nossos filhos, porque não podemos unir o útil ao agradável? Falaram que não seria fácil, mas também me sinto preparado para quando for difícil.

 

 

Fotos:

Arquivo Pessoal / FraternidadeRap 

 

 

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