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DKG, um auxiliar do rap

Nas ruas do Centro da Ilha de Santa Catarina, DKG divulga seu trabalho no rap

 

Ele se autodenomina um auxiliar do rap e sua vocação é mesmo a música, mas também foi garçom, frentista, chapeiro, eletricista e até metalúrgico. É neto, filho, irmão, sobrinho e pai em família simples. Cresceu no Ferronato, periferia de Bagé, interior do Rio Grande do Sul, e em outra cidade gaúcha, Gravataí, conheceu o basquete, logo depois o rap. Em dez anos de carreira, lançou mais de 120 músicas. Disco de estreia? Mantenha a Esperança, que ele indica aos trabalhadores.

 

Daniel Guedes Couto, o DKG, chegou a Santa Catarina em 2017 pilotando uma moto 125, com a parceira Giovana na carona. Em solo catarinense, misturou-se ao movimento hip hop e se tornou uma das vozes mais revolucionárias, necessárias e aplaudidas das batalhas de rap da Grande Florianópolis.

 

“Eu e ela, de mochilão! Só sabia que tinha que pegar linha reta, não olhei nem no GPS. Florianópolis - São José - Bela Vista, era onde tinha que ir. Nem sabia dessa cena de rap aqui. Descobri, pela internet, a batalha das mina e depois a da CL”, contou.

 

Conheça, agora, a história do rapper DKG. Uma viagem da época em que era conhecido como “mano do rap”, aos desafios do MC que está prestes a lançar o segundo disco, criou o Slam Continente, sonhou ser deputado e andou de avião pela primeira vez para representar Santa Catarina na Festa Literária das Periferias (FLUP) no Rio de Janeiro.

 

A origem familiar

 

Na leitura do vice-presidente eleito, General Hamilton Mourão, o menino Daniel foi mais um desajustado. Criado pela mãe, a avó e uma tia, recebeu a educação dessas três mulheres e aprendeu a lei das favelas do Ferronato, do Bom Sucesso e do Morro do Coco, periferias do Rio Grande do Sul.

 

Em Bagé, viveu os primeiros anos da vida e, em Gravataí, começou a assumir novas responsabilidades. Lá, casou-se pela primeira vez e teve dois filhos: Nícolas e Maria Luísa. Ela está na faixa dos oito. Ele na dos seis.

 

“Eu me sinto próximo deles, mas a distância física é muito forte. Sinto ausência do meu pai, como acho que meu filho sente a minha. Falo com eles, diariamente, mas só por telefone. Aquele vídeo ali, às vezes, chega a doer. Vejo meus filhos pelo vídeo, parece brincadeira do futuro, né?”.

 

 

Em igual medida, sente falta de todo laço familiar que permanece na cidade natal. Os dois irmãos: Luan, 20 anos, mano de criação - filho de Luciane, a tia que ajudou a criar DKG - e Arthur, 16 anos, irmão de sangue.

 

Um de seus sonhos, agora, é trazer os familiares para “ver o mundo”. Em Bagé também estão a avó, Maria Iolanda, e a mãe, Simone, a quem DKG avisa que está de boa, em Coliseu, parceria com MC Vilela e 8km8.

 

“A mãe trabalhou a vida toda: em fábrica, ônibus, posto de gasolina, trabalhadora! Agora tá se formando em Letras, guerreira mesmo.”

 

A imersão no rap

 

Na cidade de Gravataí chegou aos ouvidos da galera do Ideologia do Rap que um garoto bom de freestyle estava na área. Ele não se dedicava integralmente a música ainda, mas tinha umas letras e talento de sobra. Convidado a participar do grupo, DKG iniciou assim sua carreira artística.

 

“A galera me chamava de mano do rap, mas eu não tinha nenhum contato direto. Mano, se tu é rapper, tens que te envolver com os rappers, Djs, MCs, grafiteiros e eu não tinha essas relações. Eu tinha relação com a galera da vila, com o trabalhador do mercado, estudantes, tinha outras relações ali.”

 

Ele garante que todos os amigos do antigo grupo, Cristiano 3R e HT ainda estão no rap. HT, inclusive, fez uma participação em Serenidade na Vila, música do primeiro álbum de DKG.

 

“O Ideologia RS foi uma escola. Eles me fizeram ensaiar, mostraram o que era um palco, mostraram outros grupos de rap. Um estúdio. Eu nunca tinha entrado em um estúdio. O Ideologia foi uma porta.”

 

Mas DKG não quis ficar muito tempo no grupo e, para não sair do rap, entrou na Companhia Pesada do Improviso, a CPI da rima, crew nacional liderada por Ice Jay.

 

“O cara é um gênio, me ensinou tudo que sei de rap freestyle. Um mestre. Fazia aflorar o que a gente tinha e ajudou a transformar muito da minha consciência. A militância política, a militância do rap, me fez entender o hip hop como meio de transformação social.”

 

Participando da batalha de freestyle da Beiranoia, uma das preferidas de DKG

 

Além do disco solo, DKG participou de diversas produções independentes: A Profecia das Drogas, Nova Escola, O princípio do Começo, Boletim de Ocorrência e Simplesmente DKG. Há dez anos na estrada, se considera na fase mais adulta da carreira, mas esteve bem perto de abandonar tudo.

 

“Hoje encaro isso como um carreira, mas antes, trabalhava e fazia rap. O Mantenha a Esperança me fez nascer de novo no rap. Eu tinha parado, é muito difícil. Tu sofre muito. Sou pobre, se eu tenho passagem hoje, é porque passo o dia todo no Centro. Eu ia parar. Tava tirando da boca da minha mulher, da boca dos meus filhos.”

 

A pausa aconteceu, mas, certo dia, DKG recolheu algumas bases guardadas - presente de um amigo - e foi para a rua, onde passou a noite escrevendo. No dia seguinte, bastou uma ligação para os amigos da CPI e o anúncio:

 

“Voltei! Estou 100%. Voltei a cantar rap.”

 

Os shows começaram a aparecer e os amigos que não queriam DKG parado ajudaram nas primeiras gravações. De repente, o primeiro álbum estava pronto e, desde então, ele conseguiu comercializar mais de 1000 discos de forma independente. É o artista, o produtor e o próprio empresário.

 

“Consigo sobreviver, mas sobreviver é foda. Ninguém tá no mundo pra sobreviver. Vivo só do rap, mas eu queria viver mesmo. O meu DJ trabalha na obra. Faz squash com calo na mão, de trabalhador, tenho o maior orgulho disso.”

 

DKG é dono de rimas pesadas e palavras que fuzilam. Justamente na potência de seus versos está a origem de seu vulgo no rap e essa é mais uma parte de sua história que se passa no Rio Grande do Sul.

 

“Todo mundo tinha um apelido. Lá em Gravataí tinha o Homem Trincheira, o Obscuro, o 3R. Eu tinha que ter um nome também. Daí me olharam: ‘não pesa nada’ - eu bem magrinho - esse é o Dekilograma.”

 

O vulgo não agradou, inicialmente, mas acabou pegando, afinal, assim funcionam os apelidos. Dekilograma virou DKG, o vulgo que ficou marcado nas batalhas de rap do Rio Grande do Sul e Santa Catarina.

 

A vida em Florianópolis

 

DKG transita facilmente nas ruas e quebradas de Florianópolis. Mora na Chico Mendes, uma das 11 comunidades do Monte Cristo, e traz dinheiro para casa apenas com a música. Gosta de se apresentar como auxiliar do rap, mas é um auxiliar que se destaca, mandando rima principalmente em defesa do negro e do trabalhador.

 

 Ao lado de Cupim, um dos tantos amigos que fez nas ruas da Grande Florianópolis

 

“Pode botar o Mantenha a Esperança todinho e vai. Erga a cabeça é uma música que eu indicaria para todo trabalhador. Meu som é pra quem trabalha dia e noite, tem família, paga aluguel. Quero fazer um rap para a Ocupação Marielle, para ocupação das escolas, para quem tá defendendo seus direitos. Meu rap é para o povo de luta. Arte por arte não serve.”

 

O trabalho de DKG pode ser encontrado no Youtube, onde publicou uma pilha de rimas, como a canção Liberte, parceria com Andressa Versa e mais, recentemente, divulgou seu primeiro álbum.

 

“Nunca fui MC de internet. Sempre fui da rua. Nas ruas, todos me conhecem. No meu canal do Youtube, não tem metade e eu já passei por muita cidade. Cantei em todo estado do Rio Grande do Sul e em, Santa Catarina, o objetivo é esse. Quero que todas ruas de Santa Catarina me conheçam.”

 

A única renda, atualmente, é a venda de discos no Centro de Floripa e alguns cachês nos eventos de rap. Supera todo tipo de dificuldade, mas para o mercado de trabalho formal, garante que não volta. Deixou o último emprego em 2017.

 

“Eu trabalhava de garçom em um restaurante e, na Véspera de Natal, tava limpando uma geladeira com um baldinho d’água e o cara chutou o balde, literalmente, e disse que eu estava no meio do caminho dele, fazendo coisa de preto. Imagina, dia 24 de dezembro, o cara chega e me fala isso.”

 

Um novo disco

 

O período em Florianópolis lhe rendeu essa péssima experiência, mas também serviu de inspiração para a criação do segundo disco, Estado de Espírito. Com aproximadamente 14 faixas, o álbum terá diversas participações e um DKG mais maduro. Entre os parceiros do novo disco estão seu conterrâneo Luka Bg e os amigos Eklipze ReP, Caru, Um Teto e Versa, Douglas Atitude R.A.P, 8KM8, Du Gueto Beats, Da Bigg's, Richard e Loza Beats.

 

“Vai vender um CD em 2018. Ninguém tem carro com CD, ninguém tem aparelho com CD. Vender um CD a dez reais no Brasil do Temer é um milagre.”

 

Mas DKG consegue. Além de convencer o público, conquistou a confiança e amizade de muitas pessoas. Assim, solidificou sua carreira e vem deixando sua contribuição ao rap. O DJ Marcelo, pernambucano, é um desses importantes parceiros culturais.

 

“O universo é louco, mandou um DJ lá de Pernambuco. Estamos trabalhando juntos desde outubro de 2017. Ele me convida pra ensaiar e tocar com ele. O universo mandou um profissional da ora pra trabalhar comigo. Nunca achei ninguém com o mesmo pique. Ele tem uma paciência de Jó e tá sempre antenado no processo.”

 

Mas falar das parcerias de DKG e não ressaltar a contribuição que ganha dentro de casa é um erro. O relacionamento com Giovana está no 4º ano e ela, sem dúvidas, é uma das aliadas mais importantes do seu trabalho e da sua luta diária.

 

“A Gi fez clip, tira foto, briga, faz eu me esforçar pelo bagulho. Quando tá errado, cobra, desconstrói, faz toda aquela função. A base do grupo de rap DKG Dekilograma sou eu, o DJ Marcelo, a Gi e, quando pode, o B boy Renatonix.”

 

“Minhas batalhas, minhas igrejas”

 

A batalha de freestyle é onde DKG mais se sente em casa. É figura cativa na batalha da Alfândega, no Centro da Capital, da Beiranoia, na Beiramar de São José, e na quarta-feira, vai na batalha da Trindade ou na Costeira.

 

“Minhas batalhas, minhas igrejas! A batalha é muito importante para o rap. Envolve o MC, o cara que traz a caixa, o que traz uma cerveja pra vender, o tio do churrasquinho. É importante que a galera esteja aí. Tem família que vem. Quantas vezes a gente não vê o Will, a Moa trazendo as crianças para brincar?”

 

Este é o sentimento da maioria dos frequentadores das batalhas. Além dos confrontos de rima entre os MCs, o evento propicia encontros, diversão e lazer aos fãs de rap da Grande Florianópolis.

 

“Todo mundo que vem aqui tem um coração com a batalha. Tem moleque que vem de longe para ouvir o MC rimar, que ouve o MC e se inspira. Mano que quer sair da vida que tá levando e criar uma perspectiva melhor. Os caras começam a entender a visão de mundo, se politizar. E é um meio de encontro, entendeu? O trabalhador sai do serviço e vem pra cá.”

 

“Poesia que limpa alma e abre a mente, Slam Continente!”

 

A mais recente criação de DKG é o Slam Continente, um duelo semanal de poesias de frequência semanal, que ocorre na praça do Melão, em São José, às terça-feiras. O Slam comemorou aniversário de um ano em grande estilo, com direito a bolo e apresentações de artistas locais, como Original Serrado Dub, Big Berg e Trama Feminina.

 

DKG projetou essa competição porque sentia vontade de participar de eventos semelhantes que ocorrem em São Paulo. Ele cogitou se mudar para a metrópole, mas a galera de lá deu-lhe o conselho de repetir o modelo em Santa Catarina. Da galera daqui, o questionamento: quando vai começar o Slam? Booom! Mais um acerto.

 

Na edição do Slam Continente contra o inominável em outubro

 

O Slam Continente é um sucesso e vem gerando muitos frutos. Pelo menos três livros de poesia foram encorajados pelo Slam. O primeiro é um compilado com 85 poesias de 53 diferentes poetas que participaram dos duelos neste primeiro ano. Outro exemplo é a obra Poesia: o grito das ruas, de Ray Souza.

 

“Meu trabalho de auxiliar do hip hop, esse sim funciona. Sou garçom profissional, com curso no SENAC. Negro, alto, bonito, todos os dentes branquinhos, dialeto perfeito, do jeito que o burguês gosta. Eles pagam 150 reais para trabalhar nas praias. Não ganho metade disso nas ruas, mas o bagulho me faz feliz pra caralho.”

 

O MC que sonhou ser deputado

 

Uma empreitada inimaginável marcou o ano de 2018 para DKG. O militante que atuou em grêmio estudantil, participou da UJS e ajudou a construir a Nação Hip Hop Brasil estava desiludido com ativismos e focado em rap quando resolveu aceitar o convite do PSTU para ser candidato a deputado estadual.

 

“Há uns três anos, viajei para São Paulo e conheci um cara chamado Hertz Dias. Ele me disse que o PSTU tem o interesse de ser o partido mais negro desse país e perguntou: ‘se daqui quatro anos eu te encontrar e esse for o partido mais negro do Brasil, tu fecha comigo?’ Assim foi.”

 

DKG conseguiu 578 votos e sonhou dar mais força ao movimento hip hop em Santa Catarina. Queria implementar a semana e o dia do hip hop no estado, fortalecer eventos culturais, construir casas do hip hop, complexos culturais, teatros, ampliar o movimento e acabar com a repressão policial nas batalhas. E ah, ele também queria mobilizar pautas polêmicas: passe livre estudantil, desmilitarização da Polícia Militar, descriminalização das drogas.

 

“A candidatura é pra botar em prática tudo aquilo que eu falo na batalha. Sou candidato, mas não porque acredito que a eleição vai mudar alguma coisa, ou porque acho que vou me eleger e ser político. Sou candidato pra mostrar que tem outra alternativa. A gente pode, qualquer um de nós pode. Se eu posso, qualquer um de nós pode.”

 

DKG fez uma campanha tentando atender aos anseios das quebradas e do hip hop.

 

“Tem hip hop em todo estado, preto em todo estado sofrendo. A gente tá gritando, mas só gritar, gritar, gritar e não por em prática é foda. Racionais falava tudo isso que tá acontecendo em 1994. Outro dia a gente tava discutindo encarceramento feminino e a Dina Di falava disso em 1997. Se a gente pesquisar a história do rap nacional, tá tudo aí. A galera falou e as ideias foram se renovando. Parecia que eles eram os profetas do futuro.”

 

As porradas que recebemos do mundo não surpreendem DKG. O rap cantou, desde sempre, os problemas que se acirram agora. O fascismo tomou o poder no Brasil e pretende padronizar nossas vidas, sufocar nossas ideias, apagar nossas histórias. Se depender do rap e de artistas como DKG, não fará nada disso sem enfrentar resistência.

 

 

Fotos: Bianca Taranti/Estopim Coletivo

 

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