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Combate à homofobia

17 May 2018

Neste dia de combate à homofobia, destacamos uma entrevista com a Associação em Defesa dos Direitos Humanos (ADEH), que há mais de 20 anos atua na luta pelos direitos de Travestis, Transexuais, Lésbicas, Gays e Bissexuais.

 

Conheça a história da ADEH, os serviços prestados pela instituição e uma reflexão sobre este 17 de maio, mais um dia de luta, na entrevista concedida pela coordenadora da instituição, Lirous K'yo Fonseca Ávila, que ganhou a medalha Antonieta de Barros em 2018.

 

 

➤ Qual foi o estopim da criação da ADEH? Quando ocorreu e com quais propósitos?

 

A ADEH é uma organização não-governamental que atua no sentido da garantia de direitos, da promoção de saúde e da discussão no campo dos Direitos Humanos e das políticas TLGB (Travestis, Transexuais, Lésbicas, Gays e Bissexuais).

 

Foi fundada em Florianópolis em 1993 por travestis e transexuais, com o nome Fundação da Associação em Defesa dos Direitos Homossexuais (ADEDH Nostro Mundo), com enfoque nas ações em Saúde no campo HIV/AIDS com a população de travestis e transexuais em situação de prostituição.

 

Seu objetivo, na época, foi de disponibilizar à população LGBT estratégias de prevenção das DST/HIV/Aids, facilitando e promovendo o acesso da mesma aos serviços públicos de saúde e sociais. Essas estratégias sempre estiveram vinculadas à promoção do controle social, protagonismo político, exercício da cidadania e da inclusão social.

 

Em 1995, com o falecimento de Clô (então Presidenta da Associação) em decorrência de conflito com policiais enquanto realizava distribuição de preservativos e outros materiais, houve uma dispersão dos membros da instituição. Desde então, houve tentativas de reorganização do espaço.

 

Em 1999, a Associação se reestruturou e reiniciou trabalhos voltados à área da saúde, ainda prioritariamente focados à população de travestis e transexuais da região de Florianópolis.

 

Em 2008, tornou-se uma associação de utilidade pública municipal. Também nesse ano assumiu assento titular do Conselho Municipal da Mulher de Florianópolis (COMDIM), buscando ocupar um importante espaço na construção e monitoramento das políticas públicas para as mulheres. Titularidade ainda ocupada, pela segunda gestão, pois se entende o âmbito do Conselho como essencial instrumento de monitoramento das ações preconizadas a população como um todo, principalmente a população ainda “marginalizada”, sendo lugar de direito e dever, defendidos pela Instituição.

 

➤ Que serviços a entidade presta para LGBT's e em que situações eles podem procurar a entidade?

 

A ADEDH vem desenvolvendo projetos de acolhimento e acompanhamento da população TLGB da região de Florianópolis, além da distribuição de preservativos e materiais relacionados aos Direitos Humanos. Desde 2006, está em funcionamento o Centro de Referência em Direitos Humanos de Florianópolis, voltado ao acolhimento e acompanhamento de pessoas em situação de discriminação e de violência de gênero.

 

O início da trajetória de atuação da ADEDH se associa a uma forte parceria e apoio do Programa Estadual de DST/AIDS de Santa Catarina para desenvolver atividades de campo voltadas para a prevenção (projeto “Arrastão da Vida”), abrangendo locais de prostituição e de “pegação” da população TLGB.

 

A partir desta iniciativa, a ADEDH ampliou, fortaleceu e consolidou sua atuação e parcerias, acumulando desde então em seu histórico institucional um conjunto de iniciativas de êxito no âmbito da prevenção das DST/HIV/Aids e Hepatites Virais e da promoção dos Direitos Humanos.

 

Embora tenha priorizado, desde sua fundação, o foco de trabalho no segmento trans, sua atuação também foi ampliada de forma a abranger outros segmentos populacionais.

 

Dentre as diversas parcerias firmadas ao longo do tempo, entre elas cabe citar a firmada entre a ADEH e o Núcleo MARGENS/UFSC. A partir dessa parceria, ambas instituições desenvolveram entre o período de 2013 e 2014 a pesquisa "Direitos e Violências na Experiência de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais na Cidade de Florianópolis: construção de um perfil psicossocial e capacitações de profissionais das políticas públicas". Alguns dos membros do Núcleo Margens/UFSC que são também psicólogos oferecem atendimentos na sede de nossa associação desde 2011.

 

O atendimento inicial é para toda a população, não somos uma instituição fechada que seleta o acesso dos usuários que nos procurarem. Porém, prioritariamente a nossa demanda é Homens e mulheres trans, travestis, transexuais, pré-t's, não binários, profissionais do sexo masculino e feminino e pessoas em situação de violência. A construção do enfoque nessa população se dá pelo próprio histórico da população.

 

➤O poder público tem apoiado a causa? Onde é preciso avançar?

 

Vivemos sem apoio nenhum do poder público. Temos algumas parcerias, porém, nada diretamente, o que agrava e dificulta muito o trabalho de atuação. Como todos são voluntários, alguns serviços perdem a continuidade do atendimento pela falta de remuneração e necessidade própria de reprodução de vida do profissional que se vê obrigado a deixar o espaço por um trabalho remunerado.

 

➤ Vocês têm números recentes de quantas pessoas atenderam na ONG por questões de violência homofóbica?

 

Os atendimentos são flutuantes, dependendo da época do ano os casos de homofobia aumentam, como no verão, com a chegada de mais turistas em Florianópolis.

 

No nosso caso, as questões de homofobia não são o nosso foco principal, pois os homens e mulheres trans não sofrem preconceito por homofobia, primeiramente a violência é causada pela transfobia, pelo fato do indivíduo se apresentar de acordo com o seu gênero e não como o seu sexo, erroneamente como a nossa sociedade conservadora acredita que seria o correto por ignorância.

 

A importância desse dia é no modo geral, como qualquer luta contra a opressão e o combate a violências, não menos importante, até porque temos homens trans gays e mulheres trans lésbicas, mas esse não é o motivo principal das suas privações de direitos e o sofrimento com diversas violências.

 

➤ No atual momento, quais são os maiores desafios dos LGBT's?

 

No momento a prioridade deveria ser o básico, a busca pela retificação de nome e pela permanência da população T nas unidades de ensino e a abertura para locais de trabalhos formais, já que a maioria vive na ilegalidade por falta da retificação de nome e por causa do preconceito ainda existente.

 

Não há mais como pensar em um movimento LGBT se as políticas de acesso a população T sempre foram ignoradas, fizemos muito pela classe G e de nada tivemos de retorno quando precisamos, nos sentimos usadas já que a classe G, elite, branca, heteronormativa ainda está como liderança do movimento se apropriando de dados estatísticos de todo o seguimento LBT para se justificar as suas necessidades não prioritárias sendo colocadas em pauta, como o casamento de pessoas do mesmo sexo e a adoção, modelo este de família que nem passa pela cabeça da população de mulheres trans que majoritariamente vivem a mercê da prostituição.

 

➤ Por fim, solicitamos uma mensagem final, que revele ao leitor do Estopim a importância do Dia Internacional de Luta contra a homofobia.

 

O dia internacional contra a homofobia é um dia de incessante luta, pois já que há ainda muito preconceito no mundo com relação a sexualidade, que além de ser um tabu, ainda é uma prática de massagem ainda muito mistificada, as pessoas colocam muitos mitos em torno do sexo dificultando o acesso de direitos de muita população e justificando diversas formas de violência.

 

E todas as violências devem ser combatidas. Mas devemos relembrar que a luta pela homofobia não é a luta central do movimento LGBT, ou pelo menos não deveria ser, pois só os gays não afeminados e lésbicas femininas vem sofrendo na sua maioria esse tipo de violência, pois afeminados, travestis e transexuais assim como lésbicas mais masculinas, sofrem pelo simples fato da forma com que se apresentam e não pela escolha de quem levam para cama, o que muitas das vezes acaba sendo equivocado, pois esses esteriótipos não qualificam a identidade sexual do sujeito.

 

Publicado originalmente no Facebook do Estopim em 17 de maio de 2015.

 

 

Imagem:

Alagoas na Net

 

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