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Com a palavra, Dona D.

9 Mar 2018

Ela entrou na tenda Janete Cassol por volta das 10h. Acomodou-se em uma cadeira das quatro tendas erguidas no Largo da Alfândega para proteger do sol aquelas e aqueles que participariam das diversas ações do 8M-SC. Desde que mulheres operárias se organizaram reivindicando seus direitos e melhores condições de trabalho, no início do século passado, essas ações são lembradas e praticadas entre fevereiro e março em diversos países.

 

Digna e apropriadamente lembrada a genealogia operária e socialista desta data, fica evidente a importância da significação do Dia Internacional da Mulher não como festa do comércio. Além de abrir-se à conscientização e à reeducação anti-machista e anti-capitalista por meio deste evento hoje - e pelas feministas todos os dias - nenhuma manifestação de afeto precisa ser vetada.

 

Basta fazê-la nas fileiras com essas mulheres, lado a lado e à maneira das suas palavras de ordem. Há formas de reconhecimento e homenagem para além da via compulsória do consumo. Vai dar uma flor, meu nego? Não compre no shopping em dia de greve… "Ranca" do jardim do patrão.

 

Nesta dia da Greve Internacional de Mulheres, Dona D. misturava receio e determinação para falar. Queria contar sua história de vida e as situações de violência que sofreu do pai, a partir dos seis anos, e do marido, durante 30 anos de casamento. Estava com medo de ser reconhecida e, em certos momentos, repetia - não sei porque estou contando isso a vocês. Secava as lágrimas e voltava a recordar e narrar situações de abuso e violência vividas em casa.

 

 Dona D. sofreu violência dos seis anos de idade, do pai, e durante 30 anos de casamento.

 

Bela e triste coincidência, Dona D. relatou seus momentos difíceis e de violência sob a sombra do nome de outra mulher invisível e vitimizada, Janete Cassol. A intervenção de Dona D., é sinal evidente do êxito dos esforços das mulheres do 8M-SC. Construíram, nesta ilha, o ambiente e as condições que possibilitaram a muitas mulheres o compartilhamento de suas histórias de uma perspectiva normalmente interditada. As repercussões dessa primeira conquista, dessa fala, vão longe.

 

Respeitando o pedido dona D., vamos preservar sua identidade. Anônima, é ela própria e também outras tantas e, ao mesmo tempo, pedimos para transcrever trechos do seu depoimento.

 

Com a palavra, Dona D.

 

Fui muito espancada na vida, primeiro pelo meu pai, sofri muito. Uma vez ele me viu trabalhando em uma fábrica de camarão que ficava embaixo da ponte Hercílio Luz. Quando eu cheguei em casa, chegava perto das 17h, ele me pegou pelo pescoço, rasgou minha roupa toda, queimou e apanhei inocentemente.

 

Meu marido também me bateu muito. Me judiou muito. Uma vez, eu estava com as minhas duas filhas, uma em cada perna, ele me deu um pontapé e jogou uma lata de areia em cima da minha cabeça, com as duas no meu colo. Ele tava dando areia para uma vizinha e eu disse para não dar, porque minha avó ia construir a casa e alguém poderia fazer queixa para ela. Ele passou a mão naquela lata de areia e jogou em cima de mim.

 

Passei por tudo isso. Fui muito espancada. Soco, pontapé e sem fazer nada. Não merecia. Agora isso não acontece mais. Se tiver que bater, quem bate sou eu. Ele me judiou muito, muito mesmo. Hoje estamos separados. Quando eu tava grávida de seis meses da minha filha mais moça, eu disse que deu. acabou! Um para o lado e outro para o outro. Ele tem o quarto dele e eu o meu.

 

 

Foto:

Bianca Taranti / Estopim Coletivo

 

 

 

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