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Chamado de Assis

21 Jun 2017

O autor Nícolas Horácio de 2017, nem tão orgulhoso daquele autor de 2012.

 

Há tempos não consigo ter tempo para parar e assistir ao filme do livro Memórias Póstumas de Brás Cubas, do falecido Machado de Assis. O filme me chama, eu vou, mas não vou e acabo não indo mesmo.

 

Em um tempo nem tão passado arrisquei matar essa maldosa vontade e quase deu certo, mas no fim, não deu. Frustrei-me a tal ponto que talvez eu nem tenha mais essa vontade de assistir. É um desejo saudoso, mas coxo. Sublime e nostálgico, mas coxo. Se sublime, por que coxo? Se coxo, por que sublime?

 

Pausa... Estou aqui falando dessa vontade minha. Você sequer perguntou algo de mim. Existe - espero que exista - uma coisa comum entre o autor dessas palavras e o barato leitor. Essa coisa em comum é o apreço por Machado de Assis.

 

Se o escritor não é o fato que nos une, mantenha seus olhos correndo por aqui mesmo assim, pois estou falando da insana vontade que o ser humano tem de satisfazer seus desejos, essa mania de ter ideias fixas.

 

A história de Brás Cubas chegou a meu conhecimento pela via mais comum, a escola. Choquei-me com aquele texto denso, as palavras difíceis, a confusão, a necessidade do dicionário, a paciência. Um livro escrito por um defunto autor e não por um autor defunto.

 

As memórias são interessantes desde a dedicatória. Comumente as obras vão para mãe, pai, filho, filha, mulher, marido, Pati, Laura. Nunca para uma sogra. Brás Cubas também não dedica a uma sogra, mas ao verme que primeiro roeu as frias carnes do seu cadáver.

 

A história do defunto, enquanto vivo, é assustadoramente comum. Não há nada, absolutamente nada, que a diferencie de uma história mundana. Entretanto, Brás não conta sua história em ordem cronológica e como usa aquele maldito português excludente do Rio do Século passado, temos em mãos um quebra-cabeça linguístico de 160 peças para montar.

 

Depois que montei, algumas peças ainda estavam no lugar errado. Afastei-me daquele brinquedo e outros me atraíram. A gente é assim, sempre persegue sensações, desejos, deleites, refris. Nem eram outros livros que me satisfaziam. Era jogar bola, ver TV, dormir, enfim, masturbar a alma com imprescindíveis futilidades.

 

A tristeza está batendo à minha porta. Talvez o emplasto curador da melancolia da humanidade sirva. Ou ainda, a filosofia de Quincas Borba, a filosofia do humanitismo. Sim, a dor é uma ilusão. A dor inexiste.

 

Eis que, por meio do cinema, a história de Machado de Assis me chama.

 

_ Olá, lembra de mim?

_ Sim, lembro.

_ E por que me negas?

_ Apenas porque tenho mais o que fazer.

_ Sabias que estou nas telonas?

_ Tenho conhecimento, sim.

_ E não te interessas?

_ Não tenho tempo para ti.

 

_ Para o tempo não importa o minuto que passa, mas o minuto que vem.

_ ?!

_ E me trocaste por quem? Fitzgerald, Gabito, ou pelo português saramaguento?

_ Você gosta de fazer pergunta, heim?

_ Entendi, achas que no cinema Brás Cubas não deu certo.

 

Não alonguei o diálogo com o filme de Brás Cubas. Ele tinha mesmo toda razão e não entenderia se eu dissesse que a rotina me consome a tal ponto que nem os prazeres antigos são prioritários.

 

Deixei a consciência ali desesperada. Decidi arejar a mente e fui à sacada. Eu não queria uma brisa, queria um vento encanado e capaz de me deixar doente e acamado para receber a visita do amigo que discursará no meu enterro e também das minhas Virgílias. Dormi, dormi um sono leve e dormi sem filme, assim como Brás Cubas morreu sem filho.

 

Publicado originalmente no antigo blog do Estopim em 09 de julho de 2012

 

 

Imagem:

Um G. Pawlick que não gostou do resultado / Estopim Coletivo

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