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Cartas do 8M

12 Mar 2018

O 8 de março em Florianópolis, dia internacional das mulheres, um dia de lutas e de greve, reuniu milhares no Centro. A mobilização começou na parte da manhã, no Largo da Alfândega, onde foram montadas quatro tendas que concentraram as primeiras atividades: debates, rodas de conversa e ações de conscientização e combate ao machismo, à violência de gênero, ao racismo... São tantos os problemas estruturais, não é mesmo?

 

No final da tarde, o batuque do Bloco Cores de Aidê foi e estopim da marcha que percorreu as ruas do Centro, bradando contra os problemas históricos e estruturais da nossa sociedade que as oprime e violenta todos os dias.

 

Transcrevemos, aqui, trechos de entrevistas das feministas e mulheres de luta que aderiram ao 8M. Mulheres como a Dona D., que uma vez passando pelo Centro neste dia, partilhou suas recordações e relatou suas experiências de violência doméstica que sofreu, primeiramente, do pai e, depois, do marido. Assim como Dona D., outras mulheres contam, agora, sobre sua participação na causa feminista. Com a palavra, elas.

 

Com a palavra, Priscila Aparecida Prazeres, pedagoga

 

“Atuo pelo movimento feminista no grupo Baque Mulher, um movimento de mulheres batuqueiras pertencentes ao Maracatu Nação. Fazemos parte de um movimento nacional, que iniciou em Recife, com a Mestra Joana Cavalcante, a primeira mestra a reger uma nação de maracatu, a Nação de Maracatu Encanto do Pina, que iniciou esse movimento na comunidade do bode, localizada em área periférica e habitada, na grande maioria por gente negra, pobre e que luta junto das mulheres, e das mulheres pertencentes ao maracatu pelo empoderamento das mulheres para que não sofram as violências do machismo e da opressão.”

 

 

 

 

“Nós, aqui em Florianópolis, nos organizamos para realizar encontros toda quinta-feira no Instituto Arco-Íris. Nos reunimos para trocar, fortalecer uma a outra, crescer juntas e tocar maracatu. minha relação com o movimento iniciou pelo maracatu, com o vínculo do Baque Mulher e, aqui no 8M, estamos somando força por acreditar que é pela união e pelo empoderamento das mulheres, que vamos conseguir superar nossas dificuldades em relação ao machismo, à opressão, à homofobia, à violência religiosa, que as mulheres das religiões de matrizes africanas também sofrem, entre outras questões.”

 

Mariana Bustos Ortigara, estudante de Agronomia da UFSC

 

“Despertei para o movimento feminista cedo, por causa da minha mãe e quando comecei a perceber a quantidade de sofrimento e de medos a que sou submetida, diariamente, só por ser mulher. A quantidade de desrespeito que sofro, de medo de agressões, de violência, todos os dias, por ser mulher. Eu só estou aqui no Centro até essa hora e vou ficar até de noite, porque está cheio de mulher aqui lutando pelo mesmo ideal que eu. Se não, eu não me sentiria segura em estar aqui essa hora.”

 

 

“Estou nesse movimento, porque acho uma tristeza precisarmos do Dia da Mulher para chamar atenção, mas já que precisa, quero estar entre as minhas irmãs, entre as outras mulheres que entendem o que eu passo, porque eu sei que o único caminho para que a gente comece a receber o respeito que merecemos, no meio político, familiar e nos diversos espaços da sociedade, é através da luta. Ser mulher é lutar todos os dias. Essa aqui não é uma luta a parte, é uma representação da luta que passamos sempre.”

 

Ideli Salvatti, ex-ministra de estado

 

“Fazendo uma análise em uma perspectiva histórica e no tempo que é necessário para ocorrerem as verdadeiras mudanças, indiscutivelmente, tivemos avanços. Mas, infelizmente, vivemos um momento em que são cada vez maiores as ameaças aos direitos e conquistas dos trabalhadores e de maneira muito especial das mulheres.”

 

 

“Sobre isto, quero me reportar a Santa Catarina, um estado que sob vários aspectos é diferenciado de muitos outros estados do Brasil, mas que amarga uma estatística de violência contra a mulher que é assustadora. Estamos entre os líderes nos índices de feminicídios, violência doméstica, discriminação e diferença salarial entre homens e mulheres.”

 

“Na reação a Reforma da Previdência, as mulheres tiveram um protagonismo muito grande, porque estava claro que seriam as principais prejudicadas, como já foram as principais prejudicadas na Reforma Trabalhista, porque hoje, quem está conseguindo algum tipo de emprego legalizado, com carteira assinada, são os homens brancos. Perderam as mulheres, os negros e, principalmente, perderam as mulheres negras.”

 

Vanda Pinedo, militante do Movimento Negro Unificado

 

“O 8m é uma ação internacional de luta das mulheres e de greve. Paramos por direitos, democracia e soberania nacional. Nós do MNU participamos do 8M em vários estados e, em Santa Catarina, ajudamos também para que tenhamos mais participação das mulheres negras e para fazermos uma reflexão sobre a condição de vida das mulheres, a situação de violência - o Brasil é um país que ainda tem um grande índice de violência contra as mulheres e as mulheres negras engrossam esse caldo - por saúde, soberania, alimentação saudável e de qualidade, para que nossas mulheres adoeçam menos, por trabalho e geração de renda, pelo fim da exploração da mulher negra como objeto sexual e todos os respeitos às diversidades e orientações de gênero de cada companheira.”

 

“Por isso, o 8M ocorre na rua, dialoga com a sociedade. Precisamos de um mundo com menos violência e que os homens se somem a esse debate, porque a violência é produzida pelos homens. As pessoas são livres para viver e dividirem a vida e crescerem junto de quem elas quiserem. Ninguém é dono de ninguém. É preciso que os homens assumam seu papel na luta contra a violência da mulher. Somente nós, mulheres, discutindo e pensando as estratégias, é importante, mas não é suficiente. O que de fato dará fim nessa situação é um comprometimento maior dos homens, da sociedade como um todo, do poder público, para acolher mulheres vítimas de violência e para que a gente possa, de fato, falar pelo fim da violência contra a mulher.”

 

 

“No 8M, nós fizemos um debate sobre as questões do racismo e o quanto a mulher negra sofre mais violência do que o conjunto das mulheres. Não só a violência física, simbólica, mas a violência estrutural: a perda de trabalho, a dificuldade para conseguir trabalho porque são negras e porque têm características que se diferenciam dessa sociedade que quer ser eugenista. Esse debate vem para dialogar sobre o papel da mulher negra na sociedade e pelo fim do racismo, pelo respeito e dignidade à mulher negra.

 

Inclusive, temos a presença da Gracinha aqui, porque o caso dela é o símbolo da violência que discutiremos no debate. Nesse caso, a violência do Poder Judiciário, a violência institucional e racista que fez a Gracinha perder a guarda de suas duas filhas em um processo cheio de vícios. Com ela aqui, conseguimos fazer uma denúncia do seu caso, porque não consideramos um caso perdido. Ainda estamos em luta e queremos as filhas dela de volta.”

 

Adriana, prima de Maria da Graça

 

 

“A gente sente muitas saudades. Mas um diz que as crianças foram para doação, outros dizem que não. Outros dizem que elas estão com um casal, ninguém entende. Ora dizem que elas voltam, ora dizem que não volta mais. É assim. Mas saudades nós temos. As duas estão crescendo.”

 

Izide Fregnani, feminista do grupo de teatro Madalenas

 

Somos um grupo de arte chamado Madalenas na luta, teatro das oprimidas. É um teatro político, em que as integrantes são feministas envolvidas com movimentos sociais e o movimento sindical e o nosso objetivo enquanto arte política é dialogar com outras mulheres para que aumente a sua potência nas decisões que dizem respeito tanto a sua vida pessoal, quanto coletiva.

 

Achamos revolucionária a questão do feminismo porque a gente enquanto arte, falamos de nós mesmas, a partir das nossas experiências e, a partir disso, dialogamos com outras mulheres. Com isso, conseguiremos ampliar nosso espaço de decisão.

 

 

Nosso palco é a rua. Temos uma esquete e vamos circular por alguns pontos aqui do Centro, como a esquina democrática e o TICEN, a Assembleia Legislativa e vamos denunciar casos de violência contra mulher e também dar o recado que estamos neste espaço e que o dia internacional das mulheres é um dia de reflexão e luta histórica das mulheres. Também somos atuantes em relação ao golpe de estado que ocorreu no país.

 

Marinês da Rosa, doutoranda, trabalha no presídio feminino de Florianópolis

 

"A ideia da oficina surgiu a partir da minha pesquisa no Doutorado, que é desenvolvida no presídio feminino de Florianópolis e que tem por foco observar as emoções na interação entre mulheres encarceradas. A nossa inserção no 8M ocorre via esse projeto, que é o momento lilás, no presídio.

 

A ideia surgiu diante do contexto de invisibilidade das mulheres encarceradas, da superlotação, que começou a partir de 2014, quando o DEPEN indicou que a população carcerária feminina tem crescido no país 500%. Nesse sentido, pensamos no 8M, nessa mobilização e que as mulheres da prisão não poderiam estar aqui."

 

 

"A ideia que construímos coletivamente foi nos correspondermos através de cartas, cartas do cárcere, parafraseando Gramsci, que escreveu cartas do cárcere. No último final de semana nós apresentamos a ideia do 8M para as mulheres que estão presas, ressaltando que as mulheres aqui fora estão pensando nelas, entendem o abandono como uma situação complexa, além das dificuldades que enfrentam, como a maternidade no cárcere, que há bebês presos juntos de suas mães também."

 

"Passamos manhãs inteiras com elas, dialogando, conhecendo e o que mais exercitamos nesses momentos é a escuta. Não tínhamos muito o que dizer a elas, então, nós ouvimos e construímos as cartas junto com elas e fotografamos tudo. As cartas que estão aqui contêm textos delas, as que não conseguiam escrever, nós ajudamos. De alguma forma, trouxemos elas para cá e vamos levar as mulheres que estão aqui para lá também."

 

Thainá Revelles Vital, mestranda

 

"Essa ação foi pensada tentando trazer a voz das mulheres encarceradas para o 8M e a carta foi a melhor opção, dentro do que a gente pensou e achamos muito importante que isso tivesse retorno, até por uma questão de dar visibilidade a essas pessoas."

 

 

"Foi minha primeira visita ao presídio e foi extremamente forte. Precisei fazer um relato sobre isso esses dias e refleti sobre como os corpos estão doutrinados. As mulheres estão sempre com o corpo para trás, elas param alinhadas, demorou um tempo para que conseguíssemos libertar nossos corpos daquele condicionamento. Foram depoimentos extremamente fortes e uma delas chegou a dizer para mim que uma das coisas que ela aprendeu na cadeia é que precisa ser obediente e que se não fosse assim sofreria com a violência."

 

 

Fotos: Bianca Taranti / Estopim Coletivo

 

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