• Estopim Coletivo Facebook
  • Estopim Coletivo Instagram
Please reload

Bocas Alugadas

23 May 2018

Muitos foram os adversários dos servidores públicos de Florianópolis na luta contra a implantação da Lei das Organizações Sociais. Além da prefeitura, que elaborou a proposta, seus vereadores aliados na Câmara, que aceleraram a aprovação da lei sem discussão com a população, e da polícia, que não economizou gás de pimenta e bombas para a repressão, os trabalhadores encontraram barreiras também na imprensa local.

 

A greve se configurou em uma batalha de narrativa, onde a espaço de fala dado aos trabalhadores nos grandes veículos foi bastante reduzido em relação aqueles que defendem o projeto. A população, por sua vez, está longe do seu direito de se informar.

 

Uma pesquisa realizada pela equipe do mandato do vereador Afrânio Boppré, por exemplo, revela que o jornal Bom Dia SC, da emissora NSC, deu 25 vezes mais espaço para entrevistas favoráveis as OSs entre os dias 12 e 24 de abril. Foram 12 minutos e 27 segundos de tempo de fala para quem defende o projeto e queria o fim da greve. As opiniões contrárias ao projeto de lei ganharam apenas 30 segundos de espaço.

 

No “Jornal do Almoço”, também da NSC, no mesmo período, as falas pró-OS tiveram o dobro de tempo. Isso sem falar na opinião dos comentaristas e colunistas, como Moacir Pereira, que um dia ousou ensinar Jornalismo e, hoje, o assassina em sua coluna e onde quer que "exerça a profissão."

 

Leia a entrevista do professor Rogério Christofoletti e entenda porque a imprensa local desequilibrou a cobertura da greve dos trabalhadores e a instauração do Projeto de Lei das OSs em Florianópolis.

 

 

➤ Na sua análise, a população conseguiu obter informações claras sobre a tramitação do Projeto de Lei das Organizações Sociais? A população entendeu o que vai e o que pode mudar?

 

As informações que circularam não foram claras sobre o projeto e estavam seriamente contaminadas com propaganda da prefeitura. Do ponto de vista jornalístico, a maioria dos colunistas e analistas da grande mídia adotou uma postura de adesão ao projeto, sem fazer um trabalho necessário de distanciamento crítico.

 

Não bastasse isso, também se opuseram à greve dos servidores, o que demonstrou claramente de que lado esses colunistas e seus veículos estavam. Por outro lado, a prefeitura comprou generosos espaços publicitários em emissoras de TV para convencer a população a pressionar seus representantes na Câmara de Vereadores para aprovarem o projeto. Quer dizer, a prefeitura jogou pesado na guerra de informações, não se preocupando em explicar o projeto, mas vendê-lo a todo custo.

 

➤ A grande mídia fez uma cobertura honesta e parcial da greve, mesmo diante da denúncia de que a prefeitura gastou milhões em publicidade das O.S. nas grandes empresas de mídia que atuam na cidade?

 

De uma maneira geral, não. Como disse, a maioria dos analistas se convenceu rapidamente que o projeto de lei era a solução para o problema. Nos dias seguintes à sessão de aprovação, que se deu num sábado de feriado à tarde, vi apenas um colunista, o Paulo Prisco criticando severamente a prefeitura. Os demais, ou silenciaram ou deram completo aval a uma manobra como essa.

 

 

➤ O jornalista Moacir Pereira, da NSC, atacou os trabalhadores e a mobilização pela greve. O SINTRASEM chegou a se manifestar em repúdio a esse profissional. Por que figuras como essa ainda ocupam espaço de prestígio nos principais veículos de mídia da cidade?

 

São vários os fatores que podem explicar essa condição, e entre eles está o de que esses profissionais representam posições que coincidem com o pensamento dos grupos de poder. Quase nunca se vê, por exemplo, esses profissionais reconhecendo que greves são instrumentos legítimos, consagrados pela lei e previstos no campo da política. Em geral, o que se vê são esses profissionais se associando ao pensamento do empresariado e dos governos contra as greves. É uma clara tomada de posição, que muitas vezes contraria até a posição do público a que deveriam servir.

 

➤ A grande mídia em Florianópolis é hegemônica? Se sim, que problemas isso pode trazer aos assuntos de interesse público em Florianópolis? Se não, qual é o tamanho da diversidade de vozes na imprensa da capital?

 

A grande mídia em Florianópolis e no Estado é muito concentrada nas mãos de poucos. É uma mídia que raramente se contrapõe aos interesses de corporações locais, associações empresariais e governos. É uma mídia que alimenta e fortalece o pensamento das elites. Talvez por isso venha perdendo tanto prestígio e audiência nos últimos anos. A maior parte da população não se vê retratada ou representada por essa mídia, o que não é um problema apenas comercial. É um problema para a democracia se formos considerar que o jornalismo deve servir aos cidadãos, fornecendo informações vitais para que tomem as melhores decisões em sociedade.

 

 

 

 

Foto de destaque:

Divulgação Rogerio Cristofoletti

Demais fotos:

Bianca Taranti / Estopim Coletivo

Share on Facebook
Share on Twitter
Please reload

Gostou da leitura?

Assine a revista Estopim Coletivo

e financie a produção de conteúdo independente

sobre política e cultura.

Please reload