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Bico de pena

14 Jun 2017

 

A áspera língua que saliva mel, sente agora o gosto de cinza. E a antes pena preta que com tinta riscava o papel, soprada, encontra-se perdida. Da voz, um ganido torto, uma lembrança do assovio antes cantado. Um rouxinol quase morto. Desplumado.

 

Das trovadas me resta o canto, mas não o canto pela voz declamado, somente um canto, onde o tinteiro encontra-se repousado. Pois perdida a pena, estou humanamente esvaziado, meus ossos ocos pesam mais que meu peito inflado.

 

A língua dos pássaros desaprendi - ao chão encontro-me pregado – e a memória dos céus, não passa de um azul ao longe riscado. Olvidei as orações, não há mais prece em meu ganido, esqueci-me das sentenças e sentenciei-me ao ocorrido. Pois quando me dei conta, pelo verbo tinha sido abandonado e meu cântico, outrora polido, havia sido arruinado.

 

As palavras estão migrando - sem tocar o meu ouvido - voando para fora da garganta, em um grasnar distorcido. Vão-se embora frases tantas, vão assim sem ser sentidas, vão-se em voo ideias santas, vão assim sendo perdidas.

 

Pois sem pena encontro-me pelado. Ave liberta que perdeu a melodia. Que porventura extraviou sua graça e que agora mal assovia. Um pássaro que não o pode mais ser, pois não há pena, não há cantiga. Um parvo ser, que não renuncia a pena apesar da fatiga.

 

Queria ao final saber, se de plumas me vale uma fantasia, se paramentado igual eu era, encontro então minha alma antiga?

 

 

Ilustração:

G. Pawlick / Estopim Coletivo

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