• Estopim Coletivo Facebook
  • Estopim Coletivo Instagram
Please reload

As transas rítmicas da Camerata Florianópolis

19 Apr 2017

Reportagem: Nícolas Horácio, Tiago Damos e Bianca Taranti

 

Os amantes da música erudita da Capital saboreiam os mais refinados repertórios do gênero acompanhando a Camerata Florianópolis. Já não é novidade para esses fãs, entretanto, que a Camerata vem misturando ritmos ao seu estilo clássico e inovando nos palcos. Depois de transar com rock, jazz, artistas da Música Popular Brasileira, como Toquinho, Lenine, Paulinho Moska e artistas locais, como Dazaranha e Grupo Expresso, a Camerata aceitou outro ousado xaveco e foi transar com reggae. Nasce assim o Marley in Camerata.

 

O idealizador desta trama de amor foi Mauro Branco, percussionista da Marley’s Live, banda formada exclusivamente para tocar Bob Marley. “Não queremos fazer música. A música que a gente quer tocar está feita há mais de trinta anos”, explica Mauro sobre a formação da banda que tem Cahue Carvalho no baixo, Fernando Morrison na guitarra, Diego Butch na bateria e Jaime Batista também na percussão. Inicialmente, a banda não tinha vocalista. Hoje, Gabriel Melloy e Nísio Júnior participam com microfone em mãos.

 

Cadeira cativa dos espetáculos da Camerata, Branco espiou as puladas de cerca da orquestra com outros ritmos e pensou: por que não com o reggae? Foi então que ele apresentou seu projeto ao então Secretário de Turismo, Cultura e Esporte de Santa Catarina, Filipe Mello, que por sua vez articulou a apresentação da ideia para o maestro Jeferson Della Rocca. A atração foi fatal e o sucesso estrondoso. Iniciado o namoro, Alberto Andrés Heller ganhou a nobre missão de preparar o arranjo musical do espetáculo em 21 dias e algumas noites.

 

“Isso aí foi o golpe de mestre. O Andrés nem dormia. A esposa dele quando a gente foi apresentado, falou: ‘Não quero nem falar contigo’. (risos). É curioso, porque o Andrés nem ouvia reggae. Ele falou que ouviu reggae mesmo para o espetáculo. Nós entregamos CDs para ele e passamos o set list das músicas que iríamos executar, as 14 canções, cada uma de um álbum diferente do Bob”, conta Mauro.

 

Camerata Florianópolis <3 Marley’s Live

 

Imagine, em uma situação hipotética, que a Camerata tenha mudado seu status no Facebook para um relacionamento sério com a banda Marley’s Live. Muita gente curtiu essa atualização de status, outros amaram. A maioria dos comentários foi elogioso e uns poucos preferiram criticar.

 

“A questão é que alguns gêneros da música popular são bastante marginalizados. Tivemos algumas manifestações de pessoas preconceituosas que falaram: ‘Ah, a Camerata vai tocar Bob Marley, mas é música de maconheiro’. Altamente preconceituoso. Não existe música de maconheiro, nem de cocaineiro, como alguns falaram quando a gente fez o Rock Camerata. Mas também existe o preconceito inverso, de quem fala que a Camerata toca música para a elite, ou para quem mora na Beira Mar. A gente ouve isso também”, lamenta Jeferson Della Rocca, maestro da Camerata.

 

 

O romance entre a Marley’s Live e a Camerata Florianópolis não se deixou abater pelos comentários maldosos e o espetáculo continuou em desenvolvimento, ganhando cada vez mais força. Não poderia ser diferente, essa história de amor, afinal, é apadrinhada pelo Rei do Reggae. Segundo Mauro Branco, é Bob Marley o grande responsável pelo sucesso imediato do público e em todas apresentações.

 

A primeira delas, em setembro de 2016, foi caso de polícia. Não porque o Centro Integrado de Cultura (CIC) foi tomado por fumaça. Nada disso. Ainda em fase experimental, o espetáculo convidou o público sem cobrar ingresso. Bastava ir até a bilheteria do teatro pegar o seu e, no máximo, mais uma entrada para acompanhante. Ocorre que o CIC dispõe de aproximadamente 900 lugares e 3 mil pessoas foram atrás da promissora oportunidade de assistir os primeiros capítulos do relacionamento entre reggae e música erudita.

 

Diante da assustadora procura, a solução foi realizar uma sessão extra no mesmo dia. Ainda assim, alguns azarados e atrasadinhos não conseguiram garantir seu lugar. O termômetro, entretanto, mostrava que aquela não era uma paixão qualquer. A história não acabaria ali e novas apresentações foram organizadas, dessa vez, com a cobrança de ingressos. O resultado? Mais casa cheia. Mais aplausos. A lua de mel seguiu perfeita.

 

A Beira Mar Norte foi palco de mais uma exibição e, nesse caso, portanto, a transa se deu a céu aberto. Era só chegar, se acomodar, acender o, não pera, e assistir ao show. Sem sucesso, um inconveniente tentou ofuscar o brilho da apresentação: foi uma dessas chuvas que Florianópolis costuma despejar sobre cabeças desprevenidas. Mas não adiantou. Imensa maioria permaneceu no local e tomou banho de chuva ouvindo as canções de Bob Marley em acordes eruditos.

 

“Florianópolis tem essa apelação do reggae, mas se a gente levar o Marley Camerata para Porto Alegre, explode. Acho que se a gente levar para qualquer cidade, vai ter o pessoal levantando a bandeira pelo estilo musical. A ilha casou perfeitamente porque é um lugar mágico. Aqui tem tudo a ver com o reggae, mas o reggae tem tudo a ver com as pessoas e sempre tem uma tribo de reggae em qualquer cidade”, analisa Branco.

 

Casamentos felizes não precisam durar para sempre. Por vezes, ficam imortalizados apenas em álbuns de fotografia, ou nas gerações seguintes, quando os casais têm seus filhos. Marley’s Live e Camerata Florianópolis, porém, não têm apenas um caso. É amor de verdade e para guardar essa história, o projeto Marley in Camerata foi gravado em DVD e tem lançamento previsto para o segundo semestre de 2017. Além disso, a banda de reggae e um quarteto de músicos da orquestra também montou uma atração menor, com o mesmo repertório, o Marley Concert.

 

A temporada clássica continua

 

 

Os fãs da Camerata não precisam se preocupar. Beethoven, Mozart, Tchaikovsky não ficaram de lado e a orquestra segue seu calendário tradicional de apresentações. As novas parcerias servem para trazer novos públicos, capturando os amantes de outros gêneros e, além disso, oferecendo novidade ao público cativo.

 

“Quando eu criei a Camerata, em 1994, já tinha esse conceito de que o erudito existe em todos os gêneros e ritmos. Dependendo do tratamento que você resolve dar a música, qualquer uma pode chegar ao nível dos grandes clássicos da música erudita. E esse é um desafio da orquestra desde o início”, lembra o maestro Jeferson Della Rocca.

 

Agora, os shipers desse relacionamento têm de aguardar para conhecer o primogênito desta prole: o DVD Marley in Camerata com as 14 canções de Bob Marley, cada uma de um álbum diferente do Rei do reggae, tal qual como o projeto concebido por Mauro Branco para os palcos. Enquanto isso, têm na memória espetáculos que merecem reverência pela ousadia e refinamento musical. Os responsáveis e os envolvidos serão, sem dúvidas, felizes para sempre!

 

 

 

Ilustração:

Duda Secco / Estopim Coletivo

Fotos:

Ramiro Furquim / Estopim Coletivo

Share on Facebook
Share on Twitter
Please reload

Gostou da leitura?

Assine a revista Estopim Coletivo

e financie a produção de conteúdo independente

sobre política e cultura.

Please reload