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As batalhas de Rap na Grande Florianópolis

11 Aug 2017

Rap, três letras, milhares de sentimentos, musicalidade e muitas críticas sociais. Nascido na Jamaica na década de 1960 e levado aos bairros pobres de Nova Iorque no começo da década de 1970, o termo rap significa rhythm and poetry, ritmo e poesia em português, e daí surgem diversas explicações e sensações as quais apenas esse estilo musical é capaz de proporcionar.

 

Desde sua origem, o rap vem mesclando entretenimento e arte a lutas sociais que englobam minorias até então esquecidas ou pouco abordadas. No Brasil, o ritmo surgiu inicialmente em São Paulo, em 1986, mas somente no fim dos anos 1990 começou a se popularizar, passando a tocar em rádios e a ganhar a indústria fonográfica. E o motivo? O preconceito do que seria o estilo musical, que muitas vezes foi tachado como pesado e típico de periferia, não atingindo popular e comercialmente as grandes massas.

 

Hoje o rap ainda enfrenta uma série de barreiras, mas em contrapartida, vive um momento de ascensão e acredita-se que possa atingir ainda mais pessoas, principalmente quem se sente de alguma forma impactado, seja por suas letras, ou pela batida peculiar que o rap oferece.

 

Histórias contadas pelo rap nacional

 

A recepção do rap perante à sociedade muda gradativamente e a história de um dos ritmos musicais mais sociais do país é contar a história. As letras contam relatos que mesclam crítica social e problemas cotidianos.. Ao som de rap grandes artistas demonstram sua insatisfação com o mundo e com a organização social e política.

 

Assim eles passaram a aparecer na mídia, a tocar nas rádios e romperam padrões antes estabelecidos e que contribuíram com o crescimento do rap no atual cenário. O rap nacional, desde o princípio, esteve ligado ao momento histórico do Brasil, país que já enfrentou diversas mudanças políticas e econômicas que influenciaram diretamente o lírico e filosófico dos MC´s. Impactados por essas mudanças, eles se reinventam e criam novidade.

 

Em 1993, por exemplo, os Racionais Mc´s lançavam o seu álbum “Raio X do Brasil”, que retratou a realidade das comunidades em meio a violência e a imagem do negro nos anos 1990, em especial a discriminação. Naquele momento, o país era governado por Itamar Franco que lançou o Plano Real em 1994, tentando enfrentar a grande recessão no país, que gerou falta de emprego e desigualdade social.

 

 

As batalhas de rap

 

Mas o rap não é apenas o disco dos grandes artistas, longe disso! Um dos principais atrativos são as populares batalhas. Caracterizada basicamente por letras com temas definidos junto com o público e improvisadas pelos MC's, que se expressam sobre determinado assunto e  buscam manter o flow, maneira de encaixe dos versos na batida, certo.

 

Funcionando como uma das principais atrações do gênero, as batalhas de rap se assemelham às origens do ritmo. Se nos anos 1970 nos Estados Unidos era a periferia de Nova Iorque que era pautada e rimada, hoje, o cenário político e histórico do Brasil continua sendo a pauta de diversas discussões cercadas de cultura e história de um povo que, muitas vezes, utiliza a letra como escudo e o flow como espada para a sua luta interna e externa diária.

 

Na Grande Florianópolis um movimento muito forte de batalhas de rap ocorre de segunda a segunda em diferentes bairros. Na segunda-feira são três batalhas: batalha do IFSC, batalha do Santinho e batalha da CL; na terça-feira, Batalha da Central, no Campeche; na quarta-feira, batalha da Costeira e batalha da Palhoça; na quinta-feira, a batalha pioneira desse movimento, a batalha da Alfândega; na sexta-feira, batalha da Armação; no sábado, batalha das mina, realizada no terminal velho, no Centro de Florianópolis e, no domingo, batalha do Norte, batalha do Pedregal, na Tapera, e batalha 196, em Biguaçu.

 

Nesta reportagem, conversamos com alguns representantes de diferentes batalhas realizadas na Grande Florianópolis. São talentos e membros de um movimento que deve crescer ainda mais na nossa região. Confira!

 

BATALHA DA ARMAÇÃO

Representante: Martan Gasparotto Campos.

 

➤ O que a batalha representa na sua vida?

 

"A batalha pra mim é uma forma de desabafo, de jogar pra fora o que eu penso sobre determinado assunto. É bom ser ouvido."

 

Nessa frase: “É bom ser ouvido”, conseguimos captar a essência do Rap e do seu movimento: dar voz.

 

➤ A batalha e o social:

 

"Na batalha, encontrei meus melhores amigos. Depois que comecei a organizar a batalha da Armação comecei a ver com outros olhos."

 

Na sequência, Martan fala sobre uma criança de 11 anos que disse ter passado o dia escrevendo rima para "gastar" com esses caras. E ali viu que o que ele estava fazendo era o certo.

 

➤ Por que a batalha deve ser propagada?

 

Por um simples fato: Não temos voz.

 

BATALHA DAS MINA

Representante: Marcelle Costa Oliveira

 

"Foi através da batalha das mina, em encontros semanais, desde as rodas de freestyle até as rodas de conversa, que comecei a compreender diversos assuntos relacionados ao feminismo, bem como o real conceito de sororidade aplicado na prática cotidiana. A batalha das mina me influencia a problematizar diversas condutas e acontecimentos que antes eu naturalizava, seja com machismo, racismo, homofobia, ou até mesmo com relação a questões políticas.

 

➤ O feminino e o cenário do Rap:

 

"Antes as batalhas eram muito frequentadas apenas por homens cis, e hoje em dia, vejo as minorias ocupando esses espaços. Acredito que depois da criação da batalha das mina, em 2016, muitas mulheres cis e trans, bem como o público LGBT, começamos a entender que esses espaços também devem ser ocupados por nós. Percebo que através do nosso movimento, diversos homens começaram a valorizar a correria das mulheres para chegar lá."

 

"As batalhas de rap são propagadas justamente pra conseguir passar a ideia própria sobre uma temática. O objetivo é tentar ver a realidade do outro através de suas rimas e, além disso, o próprio ambiente das batalhas já permite a união de quem acredita que a mudança possa acontecer também de forma versada, através de ritmo e poesia. Não posso deixar de falar também sobre o tom de denúncia presente no rap: as diversas realidades sociais trazidas à tona com o intuito de problematizar e levar pro outro um pouco desse senso crítico: rimas contra as diversas opressões vividas cotidianamente fazem parte do repertório dos rappers."

 

➤ Especificamente sobre a batalha das mina, por que ela se propagou?

 

“O movimento nasceu em fevereiro de 2016, através da necessidade de um grupo de mulheres MC’s que não se sentiam acolhidas em outras batalhas da ilha, por causa da temática, das rimas machistas e misóginas e também por causa da postura de diversos MC’s homens cis.”

 

“A batalha das mina firmou com muita força! Todo sábado, a partir das 19h, no terminal velho do centro. Começamos a fazer troca de livros, sarau de poesias, rodas de conversa. O movimento foi crescendo e enraizando com muita força. Passou a ser um lugar onde as mulheres e público LGBT se encontram com o objetivo da união, do amor e da sororidade e onde homens cis também são bem-vindos, dentro da regra básica do máximo respeito, podendo mandar freestyle e poesias junto com a gente. Assim nasceu a batalha das mina, e com ela todo o panorama de maior espaço para as minorias, inclusive nas outras batalhas, que felizmente também foram influenciadas pelo amor contagiante do nosso movimento.”

 

BATALHA DA C.L.

Representante: Victor Reitz

 

➤ A batalha e o pessoal:

 

"na minha vida, a batalha é muito importante porque carrega uma responsabilidade cultural e social muito grande que nosso público muitas vezes não possui. E nós, como jovens, podemos e temos a obrigação de dar o exemplo para eles. Como fazemos isso? Com campanhas, desde doações de livros até campanhas maiores para arrecadar agasalhos."

 

➤ Preconceitos

 

"Toda batalha existe uma organização que geralmente faz suas divulgação para que aconteça os eventos, porém, nem todas tem apoio da comunidade por preconceito, por termos estilos alternativos, roupas largas e a revolta explícita. A batalha da CL tem o apoio da associação dos moradores do Lisboa e da prefeitura por fazer um papel social na comunidade como as ações solidárias executadas."

 

BATALHA DA PALHOÇA

Representante: Luiz Cláudio Mendes Dos Santos

 

➤ Batalha e construção pessoal:

 

“A batalha na minha vida é a minha própria vida. Me salvou de várias paradas. Todo dia eu acordo com o pensamento de que o rap me deu um novo rumo.”

 

➤ Batalha no contexto social

 

“A batalha além de um movimento cultural é um lugar onde encontramos vários tipos de pessoas e estilos. Não é focada só no rap e um rolê de quem ‘anda na rua’. Ali tem uma cultura de rua, dança, rima, beatbox, uma cultura que é das quebradas. O Brasil sempre teve essa cultura do improviso. Acho que o rap em si é um movimento que acolhe, que tira vários meninos e meninas do crime.”

 

“Florianópolis está evoluindo gradativamente em eventos, mas é tudo um pouco mais lento.Falta mais visibilidade e o público abraçar a causa, mas está crescendo sim.”

 

Um cenário em evolução

 

Existe uma evolução do Rap em Florianópolis, com o surgimento de novos grupos e muitos eventos que derivam das batalhas. A realização delas de segunda a segunda evidencia esse fortalecimento. Que o Rap é um movimento cultural, já sabemos. O que falta é ainda mais empatia, mais público, mais reconhecimento. Se nos deparamos com diversas notícias triste sobre jovens, o Rap pode proporcionar aos mesmos sentidos que, por vezes, a sociedade não oferece. E se é direito de todos se expressar, devemos reverberar ao máximo todas essas manifestações.

 

 

Ilustração:

Duda Secco / Estopim Coletivo

Fotos:

Primeira foto: Seudoido Naspanka. Demais fotos: Páginas do Facebook das respectivas batalhas.

 

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