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Armada de versos

 

As rimas de Versa, invariavelmente, chegam às finais nas batalhas de rap da Ilha de Santa Catarina. Armada até os dentes de mensagens feministas, ela nunca está sozinha. É uma das mais assíduas frequentadoras das batalhas e, vez ou outra, viaja para improvisar, colecionar experiências e o papelzinho de campeã.

 

Andressa Versa veio ao mundo em 1997, no município catarinense de Seara, localizado no Oeste e com menos de 20 mil habitantes. Segundo ela, uma cidade conservadora e horrível para uma mulher nascer. Aos 15 anos, a primeira mudança de ares. Foi morar sozinha, em Chapecó, a fim de cursar o Ensino Médio.

 

Conheceu, nessa época, o movimento estudantil e participou da União Municipal dos Estudantes Secundaristas (UMES) e da União Brasileira dos Estudantes Secundaristas (UBES). A permanência em Chapecó, entretanto, durou um ano. Logo, ela despontaria na Ilha, onde seria apresentada definitivamente ao rap. Decepcionada com o movimento estudantil e os vícios das estruturas partidárias, decidiu se afastar. Naquele momento, para ela, o castelo de cristal foi quebrado.

 

“Conheci alguns movimentos partidários e estudantis e fiquei um pouco decepcionada. Eu acreditava muito no movimento estudantil e acredito até hoje no Marxismo, mas, na prática, a máquina funciona muito bem e, infelizmente, as pessoas ocupam espaços de poder e buscam se sobressair, no sentido individual, não entendem o significado da luta coletiva”, lamenta.

 

A acolhida na batalha das mina

 

Depois de se afastar do movimento estudantil, Versa precisou reavaliar suas escolhas. Visitou a Argentina e o Uruguai, onde conheceu muitas mulheres artistas e decidiu dar mais autonomia aos rumos da própria vida.

 

Faltava apenas um impulso. Ela já conhecia a batalha de rap da Alfândega, o mais antigo encontro de rap da Ilha, e treinava mentalmente algumas rimas, porém, não batalhava. Tudo mudou quando surgiu a batalha das mina.

 

"Eu via a galera rimando, mas não tinha coragem de botar a cara. A primeira vez foi na batalha das mina. Através delas, conheci o movimento hip hop, me fortaleci no feminismo, formei meus conceitos, entendi que o movimento não é 100% representativo e também tem suas falhas e comecei a entender mais sobre construção coletiva. Descobri que as pessoas podem se organizar de forma independente e fazer as coisas muito melhor”, ressalta.

 

Desde então, há dois anos, as minas estão no corre ao som de rap. Iniciaram projetos promissores, como a Trama Feminina, coletivo de 5 MC's e uma DJ que atuam na capital, e o Coletivo Dissemina, uma produtora cultural também formada exclusivamente por mulheres e criada para dar visibilidade ao trabalho delas.

 

Por isso, raramente, Versa está sozinha. Em casa? Negativo! Divide aluguel com três amigos, duas delas envolvidas até o último fio de cabelo com rap: Ju Sofer e Bárbara Brum, a DJ Brum. Nos raros momentos de solidão, escuta música, escreve ou vai à praia e fuma um, ou tudo isso ao mesmo tempo. Nas suas letras e ideias, sobram protestos e revoltas. Aliou-se ao rap expulsando o que a incomoda, como em Liberte, parceria musical com o rapper Daniel Dequilograma, vulgo DKG.

 

 

“Gosto de expressar em palavras como eu me sinto e de escrever sobre o que me chama atenção e eu nem percebia. Sobre coisas que passam batido e não deveriam passar. Estamos em uma época muito doida: todos estão adoecendo mentalmente e quase todos fingem que estão bem. Gosto de expressar isso, porque as pessoas se identificam e podem ver que, mesmo quem elas curtem o trabalho, também têm seus momentos de fraqueza”, explica.

 

A formação da batalha das mina

 

A batalha das mina começou em janeiro de 2016 e foi concebida por Suzi Oliveira, a mana Clandestina, Mana Selva, mana AQR e outras minas que iam nas batalhas mistas da época e sentiram a necessidade de criar um movimento de rap para mulheres.

 

Dessa época, apenas Suzi Oliveira permanece nos rolês com mais frequência. Segundo Versa, a responsa começa mais cedo para as minas do que para os caras. No início, o evento era marcado pelo freestyle, porque somente uma ou duas minas rimavam. A perseverança das MC’s fez o movimento crescer.

 

“A gente começou a fechar chave com quatro ou seis MC’s e, hoje em dia, tem até 16 MC’s se a gente quiser, mas foi um trabalho de persistência, uma construção coletiva para todo mundo, porque a batalha começou e colavam, majoritariamente, as meninas da universidade, que tinham uma iniciação no feminismo e um certo privilégio”, lembra.

 

Outra forte característica do movimento que Versa ressalta é capacidade de reflexão e autocrítica. Para ela, inicialmente, mulheres de diferentes realidades não se sentiam tão à vontade. Aos poucos isso mudou.

 

 

“A gente também fez a reflexão de que esse espaço não estava representando a cultura hip hop e se a gente usa o nome hip hop, tínhamos que fazer algo pela periferia. Por dentro a gente começou a se auto-observar a ver como a gente era excludente em várias questões, tanto no racismo, como na transfobia”, comenta.

 

Assim, conseguiram transformar a batalha das mina em um espaço cada vez mais coletivo e confortável para todes. O movimento, hoje, é um patrimônio cultural da cidade e inspirou outras iniciativas no Brasil. A batalha das mina da Ilha de Santa Catarina foi a primeira a ter frequência semanal no país.

 

“O movimento evoluiu por mérito das mina, que organizaram uma batalha para as mulheres rimarem. Depois disso, começamos a ir mais nas batalhas mistas para fechar as chaves e largar várias. Não tinha uma batalha que a gente não colava e sempre dava treta. Fazíamos ladaia e falávamos mesmo. Eles tiveram que aprender a respeitar a gente e nós aprendemos a respeitar o movimento. Tem que participar, botar o nome na chave e usar o rap para fazer a crítica. Se a gente ficasse mandando ideia da plateia, iam continuar a nos chamar de histéricas”, afirma.

 

O rap em Florianópolis

 

O rap da Batalha da Alfândega é o mais antigo encontro de rap da capital e deu origem as batalhas que ocorrem de segunda a segunda na Ilha, em São José, na Palhoça e em Biguaçu. Antes da batalha das minas Versa visitava o rap da Alfândega, mas não se sentia tão em casa quanto agora.

 

“Nosso movimento é unificado de algum jeito, mas poderia ser mais unido, mais politizado. Poderia atuar mais nas quebradas. Vejo um movimento aqui bem elitizado e bem branco. Fora algumas iniciativas como o Cultura nas Quebradas e Fortificando a Base, e algumas pessoas da velha escola, que já têm essa visão de transformação social, a gente não sobe morro, não leva as batalhas para a periferia e para a galera que precisa escutar. A gente quer que as pessoas desçam”, questiona.

 

No geral, considera o movimento de rap efervescente. Muita gente está produzindo som de qualidade e lançando seus trabalhos na internet. Mais a fundo, com olhar crítico, denuncia uma certa hipocrisia daqueles que ainda preservam traços do machismo ou outras formas de preconceito.

 

 

“Gosto do movimento hip hop aqui. É muito massa porque tem batalha sempre, mas as pessoas aqui, apesar de terem um certo nível de consciência para algumas coisas, elas não têm consciência nenhuma para outras. Acho algumas batalhas muito elitizadas e o público que cola muito racista. Toda vez que alguém manda uma rima de auto-afirmação, o público vota na outra pessoa. Eu mesma, que sou mulher, quando me auto-afirmo em algumas rodas, perco votos por causa do senso comum das pessoas”, reclama.

 

Por outro lado, elogia o trabalho desenvolvido pelo colega João Paulo Breis Vieira, o J, na condução das batalhas. Segundo Versa, J conseguiu dar dinâmicas parecidas para as batalhas da Central, da Costeira, da Alfândega e da Armação, diferentemente das antigas práticas de boicote, que interrompiam as minas antes dos 30 segundos e, vez ou outra, retrucavam suas ideias. Agora, o MC que manda rimas preconceituosas é questionado com mais frequência pela plateia.

 

“É mérito nosso sermos respeitadas na cena, porque os caras continuam passando pano, continuam sendo os mesmos machistas, só que agora eles não falam. Aqui ainda tem MC agressor que é cultuado, pixador agressor que é cultuado e cola na roda de rima e ninguém fala nada. Pelo menos agora uma mina chega e o nome dela não é boicotado na chave e ela tem os 30 segundos para rimar e ninguém mais abaixa o mic dela. Não tenho mais que escutar que estou ganhando porque tenho uma buceta. Eles entenderam que se mandarem uma parada machista, vamos encher de rajada e eles vão perder a batalha”, analisa.

 

Bagagens da vida

 

Em paralelo ao rap, Versa estuda Serviço Social na UFSC e se diz maravilhada com o curso e sua base teórica. Faz críticas ao trabalho de Assistência Social no Brasil, mas admira os profissionais da categoria.

 

“Como eu trabalho com rap, escolhi a faculdade por causa disso. Tenho contato com muitas pessoas em situação de fragilidade e temos que saber lidar para não piorar a situação das pessoas. A palavra tem muito poder”, avalia.

 

Apesar da decepção com o movimento estudantil, Versa reconhece que muito da sua história atualmente se relaciona com o aprendizado e a bagagem que adquiriu quando viajava o estado e outras regiões fazendo trabalho de base.

 

“O movimento estudantil foi a melhor coisa que aconteceu na minha vida depois do Rap. Se não fosse o movimento, eu nem estaria aqui, não teria saído do interior. Eu curtia muito trabalhar na Umes, porque era diretamente com a base”, lembra.

 

Filha de um caminhoneiro e de uma bancária, Versa defende que usufruiu de certos privilégios. Não se trata de nenhum berço de ouro. Bem pelo contrário. Desde que saiu de casa, ela trabalha para manter os próprios custos.

 

“Venho de uma realidade razoavelmente privilegiada. Sou uma mulher branca, de classe média e, apesar de ser de uma família pobre e ter sido criada por uma mãe que ficou viúva e criou três filhas, ela teve condições de nos dar uma estrutura familiar", ressalta.

 

Nesse contexto, o movimento estudantil deu a Versa a exata noção de independência. Entendeu de onde e como vem cada centavo necessário para morar, se alimentar e, claro, circular o Brasil do Sul ao Nordeste improvisando rimas de rap.

 

Dessa fase, restou o aprendizado e alguma nostalgia, como a de ver estudantes secundaristas refletindo pela primeira vez sobre alguns tabus da sociedade. Sabe aquela história de escola sem partido? Em muitos locais, essa é a regra.

 

Na semana que vem, publicaremos a segunda parte do texto sobre Andressa Versa. Agora, ouça seus mais recentes lançamentos:

 

Não tô sozinha

 

Armada

 

Última Cartada, Trama Feminina. DJ Brum, Ju Sofer, Versa feat. Babi Oliver.

 

 

Fotos:

Lucas Silochi / Estopim Coletivo

Edição e captação de vídeo:

Lucas Silochi / Estopim Coletivo

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