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A primeira rádio de Florianópolis

A arte da flânerie feita por gente comum, embalada por alto falante.

 

“Senhor, proteja minhas cordas vocais, ferramenta do meu ganha pão. Proteja, Senhor, a todos os ouvintes, razão do meu trabalho.”

Oração do Radialista, de Léo Sabala

 

Ah... rádio!

 

Era dia 14 de maio de 1943. Numa de minhas idas diárias ao centro da cidade, no meio dos carros e do intenso fluxo de pessoas na calçada, deparei-me com um fuzuê: caixas de som enormes penduradas nos pontos altos das ruas, embaladas por vozes que pareciam vir do além. Num primeiro momento, o estranhamento veio acompanhado de medo. O que seria essa coisa que acabara de invadir nossa linda e pacata ilha de Florianópolis?

 

Como de costume, passei pelo centro da cidade e caminhei em direção ao Senadinho, ponto de encontro das mais diferentes classes sociais da cidade. No decorrer do percurso, notei algo diferente: grandes suportes de madeira espalhadas pela região, com uma estrutura que lembrava bocas de jacarés.

 

Ao todo, contei quatro caixas: a primeira ficava no alto de uma árvore, na entrada do jardim Praça XV; a outra, defronte à livraria Xavier, na primeira quadra da rua Felipe Schmidt; outra em frente à loja O Paraíso e o último alto-falante ficava na esquina da Trajano com a Conselheiro Mafra, na marquise da antiga loja A Capital.

 

O assunto em pauta defronte ao Senadinho era de fácil dedução, seja pela antipatia nas faces ali presentes, ou pelas reclamações de barulho seguidas de olhares furiosos dirigidos ao primeiro andar do prédio da Confeitaria do Chiquinho, na primeira quadra da Rua Felipe Schmidt.

 

Dizem as más línguas que ali fora montado um estúdio e que, mesmo sem licença, iria atordoar a vida de comerciantes e trabalhadores da região das 8 às 21 horas, durante todos os dias da semana. O responsável por isso, Ivo Serrão Vieira, não tinha medo das reclamações relacionadas ao barulho, mas de passar despercebido. Dizia que “fazendo muito barulho é que a gente acorda as pessoas para o problema”.

 

O que no princípio era uma empresa de propaganda, ou melhor, empresa do barulho, virou também um difusor de música, notícias, poesia, literatura e mensagens. Até então conhecida como Empresa de Propaganda Guarujá Ltda, a primeira rádio de Florianópolis surgiu através da quantia de 10 contos de réis, 200 discos da época e uma missão: fazer Florianópolis viajar nas ondas do Hertz.

 

O som apaixonante vindo dos alto-falantes…

 

Saudades do tempo que não volta mais. Quando uma simples inovação tecnológica modificou a rotina de parte dos 56,4% de analfabetos do Brasil. As cantigas embalando as caminhadas sem pretensões ao redor do jardim, no Centro de Florianópolis. Ou os cinco mil réis pagos para dedicar uma música à amada valiam mais que mil flores azuis.

 

O que no início causou alvoroço, tornou-se necessário para chamarmos o dia de Dia. Era quase um vício ficar perto das bocas de jacarés. Para quem não sabia ler ou escrever, o rádio funcionava como um livro falado. E nunca se leu tanto. Ou ouviu-se tanto. Que falta me faz aquele barulho de gente e de música. Dos passos apressados que se acalmavam ao ouvir a nova poesia do Zininho. Dos casais enamorados que ali passavam momentos que, com certeza, marcaram suas vidas para sempre.

 

A saudade só não é maior que a felicidade. A alegria de vivenciar a vida, de estar rodeado de pessoas com o mesmo objetivo que você, naquele instante: estar ali, de corpo e alma. Saudades do tempo que não volta mais. Saudades dos velhos tempos. Saudades das pessoas que realmente sabiam o que é viver!

 

 

Ilustração:

600v

 

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