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A noite de Zeca Baleiro e da Camerata Florianópolis

12 Jun 2017

 

Próximo ao palco, em frente aos holofotes azuis e a esquerda das oitavas do pianista Alberto Heller, aconcheguei-me, aludindo às possíveis memórias que fluíam dos futuros primeiros arpejos de cello, tênues às dissonantes do violão popular de Zeca Baleiro. Não foi para tanto que me vi como de outras vezes: "meus olhos com a fome do horizonte e sua face um espelho sem promessa." Memórias essas de uma vida: a minha; composta em parceria com Raimundo Fágner, em 2003, no mesmo álbum que nos trouxe "Palavras e Silêncios.”

 

Uma voz mansa, rouca, lembra em bom tom meu nome. Com sua melancolia e passos lentos se aproxima. Senta ao meu lado o mestre em Letras da UFSC e grande poeta, Zé Amorim. O inusitado encontro nos fez lembrar dos saraus promovidos pelo movimento intercultural LEv'Art, onde a história do continente Africano, ao clamar por conhecimento e reconhecimento, invadia as salas do Centro Sócio Econômico, em notas harmônicas, palavras soltas e gritos agonizantes, como nos porões da escravidão. Tudo encenado por atores, poetas e músicos, que faziam beber o suor e sangue, estes alicerces do nosso país.

 

Agora, morando no Rio de Janeiro e depois de ter lançado seu livro "Movimento Pornasso", frisou o calor dos últimos shows de “Diretas já” apresentados na orla de Copacabana, descrevendo os momentos e revivendo letras de Caetano a Mano Brown; o colapso do governo Temer e o impacto das editoras nas obras literárias no cenário industrial contemporâneo.

 

 

As nossas aulas de Teoria Musical no Instituto de Música, baseadas na crítica a estética de Kant, foi pondo fim a conversa. Antes disso um rapaz apaixonado pediu meu lugar para sentar perto da namorada. A moça tinha conseguido ingresso duas fileiras distante dele. A poesia deixaria de fazer sentido se eu negasse aos amantes o encontro de suas mãos por baixo de suas roupas frias e suas coxas quentes.

 

Abrem-se as cortinas; anunciados, os músicos preenchem seus postos. A orquestra ganha forma. A esquerda do palco os violinistas, o piano. Logo a direita do Maestro Jeferson Della Rocca, os Cello’s. Os músicos, em silêncio, ao sentar-se, em sincronia, compuseram os espaços como se fosse em compasso "alegro", Harmônico como o "verão" de Vivaldi.

 

Inicia-se o espetáculo: as luzes, os arranjos, a precisão, a afinação dos instrumentos clássicos, seus ternos, suas garrafinhas metódicas de água. O amor pela música misturado a paixão suicida de Zeca, que faz de sua vida uma poesia, escrita de "Aracaju ao Alabama" não só impressionou, como me deixou estático.

 

Eu já não conseguia pensar, apenas absorver. Talvez só agora consiga descrever, mas a tentativa de reviver aqueles mesmos sentimentos transparece aos olhos desatentos, uma possível retórica, mas não... Só estou tentando, sem me perder nos detalhes; me perdendo nas lembranças.

 

O protagonista deixou de lado seu meio copo de algo muito parecido com Whisky e discursou após as duas primeiras músicas, trazendo à superfície sua genialidade e simplicidade:

 

- "Com todo respeito, mas esse show é algo muito inusitado, muito mais para a Camerata do que para mim. Quero dizer: quem está acostumado a tocar Mendelssohn, Bach, Tchaikovsky, Mozart, tocar minhas músicas é uma decadência..."

 

Entre os risos da plateia e a ternura explícita na face do Maestro; Zeca Baleiro complementa, como se não fosse ele, um dos maiores ícones da Música Brasileira:

 

- "Com esses violinos me sinto até importante, me sinto um Chico Buarque."

 

No Set List destacaram-se as músicas: Revelação/A flor da Pele, Babylon, Telegrama, Disritmia, Lenha. A primeira digna de destaque, acompanhada apenas com o canhão principal de luz e os acordes. Os solos do guitarrista Tuco Marcondes conseguiram já na primeira estrofe trazer "A flor da pele" aqueles "sentimentos adormecidos, mortos e amordaçados, que voltam a incomodar”, "aqueles desejos que se confundem com a vontade de não ser", deixou queimando arrítmico nosso peito como um "barco sem rumo, sem vela."

 

Novidade, talvez nāo só para mim, foi a descoberta que a música "Ai Que Saudade D’ Ocê", sucesso na voz de Elba Ramalho, Israel Filho e recentemente na de Zeca, foi composta pelo Paraibano Vital Farias em 1982. O violão foi acompanhado apenas pelo Pianista Alberto Heller, destacando nas suas teclas o ritmo Baião, característico do Nordeste brasileiro, e por seu compasso “Dois por Quatro”, e raramente tocado em “Grau Menor” com seu “Sexto Grau Maior” (Dórico). Ritmo muito conhecido nas músicas de Luiz Gonzaga. Talvez a mais conhecida "Asa Branca”.

 

 

Tantos eram os músicos em um único palco que não deu para fazer aquele velho chame, fazendo a banda voltar do fim do show a pedido da plateia. Logo após anunciado o término, entre abraços agradecimentos, alguém grita: "Toca Raul"! Na hora me subiu aquela vontade de retrucar: vai tomar no teu %#}^*#*. Mas de forma inteligente Zeca Baleiro traduz em versos minha vontade e em seguida responde a plateia com Rock do Diabo, música essa, parte de seu repertório.

 

Raulzito não poderia deixar de ser “Estrela no Abismo do Espaço”, nem que seja apenas por uma noite, em algum teatro distante da Central do Brasil, enquanto tínhamos dúvidas sobre quem eram os protagonistas do espetáculo, se a Camerata Florianópolis, ou se Zeca Baleiro. Na verdade, naquela noite não existiram coadjuvantes e a plateia estava longe de preencher o cenário como figurantes. Ali se desmaterializaram os rótulos, fomos presos, por vontade, em uma linha tênue entre os sonhos e a realidade.

 

 

Fotos:

Camerata Florianópolis

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