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A morte enluta, mas não salva

19 May 2015

 

Luiz Henrique da Silveira saiu da vida há pouco mais de uma semana e colocou seu bigode para sempre na memória dos catarinenses. A isso se deve a vasta subserviência da grande mídia catarinense que fez questão de ressaltar seus feitos e reverenciar seu legado político. Mas, revivendo Milllôr Fernandes, imprensa deve ser oposição, o resto é armazém de secos e molhados. No intuito de se aproximar dessa premissa, o Estopim ouviu três intelectuais críticos ao modo de fazer política de LHS. São pessoas que preferem não lembrar do finado por conta de sua habilidade para entrelaçar nós da política até pouco tempo considerados inconcebíveis.

 

Convidamos a professora Elenira Vilela, o escritor Fábio Brüggemann e a jornalista Elaine Tavares a trazer para as páginas do Estopim suas severas críticas e análises contrárias a LHS a fim de gerar uma outra memória, oportunizando ao menos o confronto de discursos e a variabilidade de pontos de vista. Um alerta é necessário: aqui, não caberão elogios e puxassaquismo à memória de LHS, afinal acreditamos que esse papel já foi muito bem cumprido. Aviso dado, partimos a uma breve apresentação dos nossos entrevistados para, depois, mergulhar em seus posicionamentos e percepções.

 

Elenira Vilela é professora. Começou a militância no Rio de Janeiro aos 13 anos em uma passeata do movimento estudantil contra um aumento da mensalidade na escola particular onde estudava com bolsa. Marcou presença no Fora Collor, mas sentiu-se enganada por esse movimento quando percebeu que ele não passou de uma armação midiática. Foi candidata a vereadora pelo PT e PCdoB. Atualmente, milita no Sindicato Nacional dos Servidores Federais da Educação Básica (SINASEFE) e nas questões relacionadas à defesa de Florianópolis.

 

Fábio Brüggemann além de escritor é editor, roteirista e diretor cinematográfico. Foi colunista dos jornais O Estado, A Notícia e, por último, durante quase dez anos, do Diário Catarinense. Foi Coordenador Geral da Fundação Franklin Cascaes, na qual exercia funções de chefia do gabinete do superintendente da entidade. Atualmente, é editor da Letras Contemporâneas e em projetos na área de edição, redação e audiovisual.

 

Elaine Tavares é formada em jornalismo pela UFSC. Lida com jornalismo desde os 12 anos. Seu pai era radialista em São Borja, no Rio Grande do Sul, e ela o ajudava a produzir um programa de músicas gaúchas. Elaine passou também pela RBS, atuando em diversas funções na emissora no interior do Rio Grande do Sul. Em Santa Catarina, atuou no jornal O Estado, Diário Catarinense, A Notícia e no Sindicato dos jornalistas. Atualmente é voluntária na Rádio Campeche e coordena o setor de comunicação do Instituto de Estudos Latino Americanos (IELA), além de manter o blog Palavras Insurgentes.

 

Para melhor estruturar a avalanche de críticas voltadas a Luiz Henrique, que serviremos ao pé dos seus olhos, resolvemos separá-las por temas. Área por área, os apontamentos dos nossos intelectuais poderão servir de base para que você conheça um outro lado de Luiz Henrique, o finado coronel, o habilidoso costureiro, o impecável bigode.

 

CULTURA

 

Nossa viagem iniciará na área de cultura. Para tanto, revisitamos memórias de Fábio Brüggemann quando ele atuou na Fundação Franklin Cascaes. Na entidade, Brüggemann disse que solicitou a criação de um fundo de investimento através de editais anuais, o que atenderia a pedidos dos trabalhadores que atuam na área. Os pedidos não foram atendidos e, após participar da construção de um filme que criticava tal postura, Brüggemann foi demitido de seu cargo.

 

“O superintendente na época não queria saber de nada disso, mas eu, acreditando que estava a serviço dos artistas, e não do prefeito, insistia, até porque foi proposta de campanha do Dário Berger. Ao mesmo tempo, a classe fazia as mesmas reivindicações para o governo estadual. Como não havia resposta, e eles só faziam cada vez mais o oposto do que reivindicávamos, produzimos um filme chamado “Matou o cinema e foi ao governador”. Eu escrevi e dirigi dois episódios. E, após isso, o LHS, ou alguém da turma dele, mandou pedir minha cabeça. O Dário deu”, lembra Brüggemann.

 

Para Brüggemann, LHS criou um monstro chamado Secretaria de Turismo, Cultura e Esporte, usando um fundo que era para ser democrático e servir a todos, mas apenas plantou uma ideia extemporânea e desorbitada de cultura. Pedimos a Brüggemann para traduzir essa afirmação, porque não entendemos bem o que quis dizer com isso.

 

“Juntar as três áreas em uma apenas é um crime de lesa inteligência. Nenhum dos oito ou nove secretários que passaram lá é da área da cultura. Eles miram apenas no turismo, que é acrítico e tem mais verbas. E não sendo da área, nunca ouviram falar do que se produz de arte em Santa Catarina, acabam apenas usando a verba do Fundo, que não é pouca, para incentivar eventos. Política pública para o setor deve passar necessariamente (isso já foi escrito por quase todo intelectual que se preza no mundo) por, primeiro, ouvir quem faz; segundo, por conhecer a área; e, terceiro, pensar em política de formação, de preservação, de circulação e de produção. Mas eles não sabem nada disso. São ignorantões”, aponta Brüggemann.

 

Fomos além, buscando em Brüggemann o registro de outros probleminhas na área da cultura deixados por LHS. Ousado, nosso entrevistado não poupou nem mesmo o balé Bolshoi de Joinville e listou outros episódios. Até a atriz Vera Fischer, que embolsou muitos reais do Estado, não foi perdoada. Acompanhe:

 

“O Balé Bolshoi; a criação de um teatro onde só quem tem carro pode ir, e que ganhou o nome de um político que nunca investiu em cultura (o Pedro Ivo); a criação de um fundo apenas para projetos de governo, não projetos de Estado (como reivindicamos); o apoio a um projeto para beneficiar com um milhão uma peça da Vera Fischer, que depois descobriu-se que o proponente era uma borracharia de beira de estrada e a nomeação de pessoas que não conhecem o setor, apadrinhando cabos eleitorais”, finaliza Brüggemann.

 

POLÍTICA DO CORONEALISMO

 

Agora, vamos entrar numa questão que diz respeito às contas do Estado e falar dos cabidões de emprego, ou currais eleitorais, como queira, conhecidos também, numa versão mais carinhosa, como Secretarias de Desenvolvimento Regional. São 36 espalhadas por toda Santa Catarina e servem para descentralizar o poder. Elaine Tavares lembra que elas foram implementadas por LHS com esse objetivo, mas…

 

“Na teoria, é sensacional. Criam-se as 36 Secretarias e se descentraliza o poder para que as pessoas tenham mais acesso ao Estado nas cidades do interior. A ideia é genial, mas não funciona. Não é política de atendimento à sociedade, é politica de curral, que põe amigos no poder. Isso é um malefício, porque tira verba do Estado e o serviço não chega. Pergunto: para onde vão os enfermos de São Miguel do Oeste, de Mafra? Respondo: vêm aqui para o Hospital Universitário de Florianópolis! Como se tem 36 Secretarias e não se resolve a questão da saúde no Estado?”, questiona Elaine.

 

A professora Elenira Vilela complementa essa questão. Ela visita a origem da reconhecida articulação que LHS promoveu em Santa Catarina, lamentando o fato de o político ter ressuscitado figuras que estavam à beira do ostracismo.

 

“A pior coisa que LHS fez para o Estado foi recuperar e dar fôlego ao coronelismo. O maior exemplo disso, para mim, foi a primeira eleição de Raimundo Colombo ao governo, ainda pelo Democratas em 2010. Essa sigla, filha da ditadura, elegeu no país inteiro apenas dois governadores, um deles foi o Colombo”, lamenta Elenira.

 

Elenira lembra, ainda, do ressurgimento de Jorge Bornhausen e de Paulo Bauer, que, para ela, estavam relegados ao esquecimento e ganharam sobrevida a convite de LHS quando ele objetivava derrotar Espiridião Amim.

 

“Para fazer isso e se ligar a esse povo, LHS construiu uma máquina de fisiologismo no Estado, as Secretarias Regionais, vergonhosamente chamadas de descentralização. Brinco que aquilo não é um cabide de emprego, mas, sim, um closet inteiro, no qual ele conseguiu colocar todos os seus cabos eleitorais na folha de pagamento do Estado e ajudou a fortalecer figuras como Ciro Rosa (Brusque), João Rodrigues (Chapecó), Marco Tebaldi e tantos outros. Essas figuras estavam praticamente mortas politicamente e, para se construir, LHS trouxe todas para o cenário novamente. O Bauer, por exemplo, foi seu Secretario de Educação e teve um papel perverso na relação com a rede de educação”, reforça a professora.

 

No estado democrático é legítimo e até louvável que uma figura pública tenha alta capacidade de articulação, característica que todos reconhecem na carreira política de Luiz Henrique, mas, diante disso, duas perguntas são necessárias: para quem e para quê? O que se sabe é que seus beneficiários não foram, por exemplo, os professores da rede estadual de educação, como lembra Elenira:

 

“A situação da rede estadual de educação não começou nele, porque na verdade ela nunca foi bem estruturada, mas LHS também é responsável pelo desmonte do serviço público estadual. Na educação, e até na saúde e na segurança pública, ele parou de contratar e promoveu rebaixamento de salários. Hoje, em Santa Catarina, 70% dos professores são contratados temporariamente. Para sustentar sua máquina fisiologista, foi necessário parar de pagar alguém”, critica Elenira.

 

CÓDIGO FLORESTAL

 

As mudanças no Código Florestal catarinense também representam um tema polêmico que envolve o bigode mais famoso do Estado. O modelo catarinense serviu, inclusive, de base para o nacional e LHS foi a mola propulsora dessa reviravolta. Aprovado em tumultuada votação na Assembleia Legislativa de Santa Catarina (ALESC), o Código é alvo de críticas de Elaine Tavares, e esta reportagem destacará apenas um aspecto:

 

“No antigo Código, até determinado ponto das margens dos rios, os produtores deveriam respeitar a mata ciliar e não plantar. Os grande latifundiários, entretanto, queriam plantar até dentro do rio e reverter isso. LHS jogou com os donos de pequenas propriedades. Mesmo eles tendo pequenas terras, também tinham de respeitar o limite antigo. Então a solução pra aprovar o novo código foi cooptar os donos de pequenas terras, tanto que no dia da votação, eles estavam na Alesc em peso. Os pequenos compraram essa ideia, sem entender que, se plantarem perto do rio, podem ganhar num primeiro momento, mas logo o rio vai assorear, tomar conta de sua plantação e ele vai perder tudo”, alerta a jornalista.

 

Ela lembra ainda que as regras antigas proporcionavam maior controle dos territórios e menos enchentes. Elaine afirma que quem conhece o beabá do meio ambiente sabe que um dos fatores que facilita a ocorrência de enchentes é a ausência de mata ciliar.

 

CONCHAVO COM A GRANDE MÍDIA

 

A imprensa catarinense errou na cobertura da morte de LHS? Para Elaine Tavares, é evidente que não, pois a grande imprensa se constitui como um espaço de voz do poder. Além disso, a jornalista destaca que durante os mandatos de Luiz Henrique no governo catarinense, a RBS, principal grupo de mídia do Estado, ganhou grandes fatias de verbas publicitárias, investimento que foi três vezes superior ao aplicado, por exemplo, na saúde.

 

“Se a imprensa tivesse tratado essa figura de modo diferente, é que teria errado. A imprensa catarinense é expressão de um espaço de poder do Estado. É uma imprensa que não dá voz a movimentos sociais, sindicatos, negros, índios, homossexuais. Eu acharia um absurdo se fizessem uma cobertura honesta. Por que motivo o DC apontaria os problemas de LHS? A imprensa não errou, apenas cumpriu seu papel” ressalta Elaine.

 

A professora Elenira colabora com essa análise, mas sob outra perspectiva, a dos recorrentes ataques da grande mídia contra a esquerda. Ela reflete, ainda, a respeito da crise de credibilidade da classe política e da campanha antipolítica, que diminuem, na visão dela, o poder de quem está na esquerda.

 

“Existe uma massa de ataque midiático contra a esquerda e a contraposição política dela é silenciosa. Existe um vácuo enorme deixado pela esquerda aqui e justamente neste Estado de perfil conservador. Além disso, existe a campanha contra a política, que enfraquece muito mais a esquerda, porque como os partidos de direita compram votos com cesta básica, se o eleitor estiver com ódio da política, a tendência de ele entregar o voto é muito grande. Agora, a maioria dos candidatos de esquerda não têm tanto dinheiro, alguns têm, é claro, e também corrompem, mas a maioria precisa conquistar o voto mesmo. Se o eleitor não quer nem ouvir, fica difícil dialogar”, reforça Elenira.

 

O VÁCUO POLÍTICO

 

A morte de Luiz Henrique deixou mais que uma cadeira vaga no Senado. Deixou um rombo, uma cratera na força política do seu partido, o PMDB. Um problema que esbarra em Raimundo Colombo e na aliança que o elegeu e o reelegeu, estruturada pelo finado em questão. LHS era um político de direita e do mais poderoso partido do país. Entretanto, levanta-se a seguinte questão: esse espaço por ele deixado pode ser preenchido pela esquerda? A pergunta foi feita a todos os entrevistados, confira:

 

Fábio Brüggemann - Acho que não. A esquerda em Santa Catarina peca pelo mesmo motivo. Não significa que acho a direita melhor. Pelo contrário, sempre estarei ao lado da distribuição de renda e contra o capitalismo tosco e antigo. Mas a esquerda aqui ainda é dogmática, católica, bom-mocista, não é de modo algum ousada em suas propostas e tem medo de mudar. Não podemos esquecer que quem ajudou a eleger o LHS em seu primeiro mandato foi a Ideli Salvatti, que, eleita senadora, levou-o ao palanque no segundo turno.

 

Elenira Vilela - Aqui no Estado, a esquerda foi forte no Oeste, de onde vêm alguns mandatos legislativos e é um dos lugares onde se produziu um dos movimentos mais significativos do país, como o MST, além do movimento de atingidos por barragens e também o de mulheres agrícolas. Mas grande parte da esquerda tem uma esperança enorme de se construir no mesmo esquema de LHS, fazendo articulações e negociações. Só que para nós não funcionará assim, porque não temos o poder econômico. Além disso, nossas ideias colidem com o poder econômico.

 

Elaine Tavares - O vácuo que se criou é na articulação do poder. Porque era isso que ele era. Sabia como usar o chicote, tinha técnica para controlar os correligionários. Só que esse vácuo não pode ser ocupado por nós, porque não somos isso. O que a esquerda pode fazer, aproveitando esse vácuo, é trabalhar na construção de seu projeto. Eu não vejo muita possibilidade de avanço da esquerda nesse vácuo. Nosso projeto é outro.

 

Assim, encerramos nossa homenagem a LHS, acreditando ter contribuído para a construção de sua memória política. Afinal, ela estava um tanto incompleta. Aqui, também residem suas escolhas políticas e a diferença é minúscula: a perspectiva.

 

Publicado originalmente no Facebook do Estopim em 19 de maio de 2015

 

 

Foto:

Foto manipulada pela equipe Estopim

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