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A dançarina e o cantador

Tatiana Cobbett e Marcoliva comemoram 15 anos de parceria com novidade na praça

 

 

A pedido da entrevistada, a conversa sobre as mais novas “bolachinhas” que celebram os 15 anos da Sonora Parceria seriam realizadas em um café ou em qualquer bar da cidade. Por unanimidade, acabamos optando pelo bar e, molhando o bico com cerveja, entramos num papo que tinha por objetivo revisitar a história da parceria artística de Tatiana Cobbett e Marcoliva.

 

Viajamos sobre suas ideias e refletimos sobre o poder da arte. Falamos de suas andanças pelo Brasil e de Sawabona Shikoba, o mais novo disco da Sonora parceria. No início desse mergulho na história da parceria, cujo baile de debutante foi celebrado entre amigos no Badesc em 2015, devemos nos voltar para o encontro dos cometas que ocorreu ainda na virada do milênio entre os anos 1999 e 2000. Foi a arte quem apresentou a Tata ao Nego, como são conhecidos e chamados entre os amigos mais íntimos.

 

Nos bastidores de um trabalho ao lado de outra artista, os cometas colidiram e se reinventaram. O resultado foi um sucesso e um produtor se interessou em gravar o trio. O terceiro elemento, entretanto, recuou e coube a Tatiana e Marcoliva dar continuidade ao projeto. Assim nasce a Sonora Parceria. O nó se atou!

 

“A Tata fazia a direção desse espetáculo e eu fazia os arranjos. Nós desenvolvemos esse trabalho por menos de um ano e já nas primeiras viagens para São Paulo começamos a compôr juntos”, lembra Marcoliva.

 

A parceria iniciada sem grandes pretensões se fortaleceu e o universo, no início dos anos 2000, resolveu amarrá-los um pouco mais. O motivo foi o Festival Estadual de Canção do SESC, que atraiu o interesse de Tatiana e Marcoliva. A dupla se inscreveu, se apresentou e abocanhou o segundo lugar com a canção “Procurando um lugar”. O nó enrijeceu!

 

“A pretensão não veio com relação a música especificamente. Ela estava muito mais voltada a possibilidade de a gente concretizar a parceria. Pelo divertido do processo”, explica Tatiana Cobbett.

 

Os primeiros colocados no evento do SESC foram convidados a participar de um festival em Governador Celso Ramos, mas como residiam em Chapecó, foram impedidos pela distância das cidades. Tatiana e Marcoliva herdaram a oportunidade e precisaram ampliar o repertório. Assim, a parceria foi ganhando pretensão. A dançarina incrementava as apresentações com seu gingado. O cantador atraia atenção do público com sua bela voz e contando “causos”.

 

Nos primeiros anos da Sonora Parceria, Tata e Marcoliva estudaram os duos emblemáticos da música brasileira repleta de protagonistas especiais, como Vinicius de Moraes e Baden Powell, ou Tom Jobim e Elis Regina. A receita é infalível. Cada um traz seus temperos e o sabor melhora. A parceria era o mote e logo virou a causa de artistas preocupados em entregar o melhor de si ao dobro.

 

“Arte é lida, munição e saudação. Demanda trabalho diário de pesquisa. Não é qualquer palavra. Não é qualquer nota, arranjo, não é qualquer instrumento. Essa é a lida. A arte tem muito poder de alcance. Ela fala do belo, da dor, de Deus, fala absolutamente de tudo. Você tem acesso a qualquer assunto, aprende sobre ele e alcança o outro”, aponta Tatiana Cobbett.

 

Artistas da ilha

 

Desde o início da carreira, Tatiana e Marcoliva desbravaram o país cantando e pesquisando a música brasileira em contato intenso com artistas de todo canto. Numa dessas andanças, Luiz Meira viu e ouviu os dois em ação e produziu “Parceiros”, o primeiro disco da Sonora Parceria.

 

“A Tata é uma artista muito experiente e tem um currículo fantástico. Quando conheci os dois, ela estava entrando de cabeça na ideia de cantar e compôr. Ela é uma poetisa espetacular, uma grande artista. E o Marcoliva, que já tinha mais experiência musical, tem uma voz linda. Esse casamento artístico deles foi muito promissor. Eles realmente embarcaram juntos nessa concepção artística musical”, ressalta Meira.

 

Depois do primeiro disco, foram mais sete anos de shows, pesquisas, ações, andanças, ideias e viagens do Norte ao Sul do país para construir “Bendita Companhia”, o segundo álbum. Em toda cidade por onde passavam, Tata e Marcoliva convidavam os artistas locais para fazer arte. O conceito de parceiros é amplo, não se restringe a dupla, reverbera em quem se aproxima. A Sonora Parceria é verdadeiro um intercâmbio musical e cultural brasileiro.

 

“Algo que fortaleceu muito nossa arte também, foi o fato de que outros artistas se interessaram pelo nosso trabalho. A gente teve essa sorte de grandes artistas, que admiramos muito, estarem do nosso lado agregando valor”, avalia Marcoliva.

 

Artistas da resistência, Tata e Nego extinguiram de seus dicionários o mercado e todos os termos a eles associados. Chegaram aos 15 anos sem se tornar reféns do poder público ou privado. Enfrentaram a sistemática das casas de show de Florianópolis, que não abriam suas portas para artistas dispostos a mostrar suas músicas autorais. Criaram suas oportunidades a fim de preservar a qualidade da arte que toca o outro.

 

Juntos viram as portas de todos os teatros de Florianópolis fechadas durante cinco anos num período amargo que fez o ilhéu esquecer o caminho para beber cultura. Uma situação que sufocou não somente eles, mas toda a classe artística da capital de um estado.

 

Hoje o cenário é outro. A própria Tatiana ressalta a importância de iniciativas do poder público, como o projeto TAC 7:30, de casas de show, como Coisas de Maria João, que apostou na música autoral e de músicos como Alegre Correa, criador do projeto Clube 55, que transforma sua casa em num point de artistas dispostos a fervilhar arte. Isso sem falar do Musicasa, projeto conduzido pela Sonora Parceria que recebe artistas de diversos cantos do país que vêm a Florianópolis mostrar sua arte.

 

“A música autoral não era aceita e esse é um legado que a gente deixa. Tomamos uma posição bem firme de fazer trabalho autoral e tão somente trabalho autoral. Essa postura fez outros artistas acreditarem que isso é possível. Outra questão é a reconstrução da cena artística. Somos um estado que historicamente não aparece para o Brasil. Estamos reconstruindo essa história, até pelo perfil da nossa capital, que é uma cidade cosmopolita, que faz uma música diversa e rica e que tem uma universidade que forma grandes músicos” ressalta Marcoliva.

 

Tatiana Cobbett e Marcoliva fazem música genuinamente ilhéu. Ela é uma manezinha natural do Rio de Janeiro e ele um manezinho nascido no Rio Grande do Sul. Em todo canto do país e do mundo se apresentam como artistas da ilha, porque artistas da ilha são. Sua obra enriquece a cultura local e Sawabona Shikoba tem 12 pedacinhos desse respeitável legado.

 

Sawabona Shikoba 

 

Nenhum obstáculo é maior que a vontade de Tatiana e Marcoliva de seguir a parceria enriquecida pelos batuques de Luis Gama na bateria, os tons graves de Rafael Calegari no contrabaixo e os acordes de Pedro Loch na guitarra. Parceiros que são, recepcionaram Debora Remor, Fidel Piñero e Larissa Galvão e o show de lançamento de Sawabona Shikoba, realizado no final de maio no Teatro Álvaro de Carvalho, em Florianópolis, teve o refinamento de um violino, a potência de um trompete, a sutileza de uma flauta transversal e a classe de um piano. Contribuição em alto nível, tal qual o violino de Gabriel Vieira e o piano de Luiz Zago haviam trazido na gravação do CD.

 

Diversificando linguagens, o show contou ainda com exposição gráfica de obras do artista congolês Gloire Llonde. Então o típico cumprimento africano Sawabona (eu te respeito, eu te valorizo, você é importante para mim) Shikoba (então eu existo para você) ganhou significado ainda mais real. Da primeira música ao fervoroso pedido de bis do público, a Sonora Parceria arrancou suspiros, aplausos e emoções.

 

Sawabona Shikoba foi gravado ao vivo com o público cativo da Sonora Parceria, no estúdio do Sesc Prainha. O disco será um presente carinhoso que chegará a muitas pessoas. Resultado de um financiamento coletivo no Catarse, ao menos uma “bolachinha” já foi entregue para quem doou cinco ou trezentos reais. As bolachinhas restantes serão espalhadas aos poucos pelo Clube de Distribuição Sawabona Shikoba.

 

Na capa do disco, um registro de João Markun durante intervenção urbana realizada na cidade de São Paulo. Nela, Tata e Nego circularam pelas ruas oferecendo canções para anônimos. Com figurino do acervo Nequesa, de Nina Hofmann, que também vestiu os artistas no lançamento no TAC, eles vivenciaram rica experiência e alguns momentos desse dia estão imortalizados na própria capa e em outras imagens no encarte do disco.

 

A visão artística da Sonora Parceria

 

A visão de Luiz Meira identificou um encontro de talentos. Sim, a Sonora Parceria é também um encontro de linguagens, de visões e ideias. A parceria é a essência e o resultado é um espetáculo para ser visto, porque é capaz de aguçar os sentidos auditivos, construído com primor sonoro, e visuais por meio de ousadia cênica.

 

“Arte é um organismo vivo e amplo e a dança muito me ensinou, porque nessa formação tive que conhecer pantomima, teatralização do movimento, tempo, ritmo, melodia e muita harmonia”, Tatiana Cobbett.

 

A Sonora Parceria é sensível e canta o próximo. Enquanto compunham uma canção sobre um Rio de Janeiro frio, Tata e Marcoliva foram tocados, como todo o mundo, pelo estouro das torres gêmeas nos EUA e Talibã se tornou a palavra certa para dialogar com a sensibilidade e a loucura do homem. O homem se fere, se agride, se mata! O processo criativo é impactado pelo cotidiano. Não pode ser diferente.

 

“As relações humanas são o fio condutor. Relações afetivas, sociais, políticas, o que permeia nosso trabalho é esse olhar e a música, a poesia, a expressão, o todo traduzem aquilo que a gente sente. A arte dentro desse conceito de parceria é interessada no próximo. Nas pessoas que você encontra no dia a dia, as pessoas com quem você interage dentro do seu pequeno universo”, defende Marcoliva.

 

Do flamenco ao jazz, vale de tudo. A Sonora Parceria não é obra acabada. É corpo em movimento. Com visão ampliada e abertura para receber o refinado tempero de outros talentos, Tatiana Cobbett e Marcoliva constroem seu trabalho.

 

“A música brasileira é extremamente rica em ritmo. Não existe em nenhum outro lugar do mundo música com mais variedade rítmica que no Brasil. Uma das nossas veias é nos lançar a toda e qualquer ritmo que possa parecer interessante. Tem música brasileira, mas a gente também bebe no flamenco, na música árabe”, explica Tatiana.

 

O show em Florianópolis foi apenas o estopim de uma série de outros eventos que lançará o mais novo disco em muitos cantos de Santa Catarina, do Brasil e do planeta a partir do segundo semestre. Novas oportunidades para o Clube de Distribuição Sawabona Shikoba entrar em ação e espalhar a bolachinha. Festas de 15 anos serviam para apresentar as moças a sociedade. Nesse caso, a moça é de grande talento musical, corajosa, rebelde e dona de um repertório sofisticado e diversificado, fino resultado do melhor da música brasileira.

 

Publicado originalmente no Facebook do Estopim em 03 de junho de 2016

 

 

Foto:

Nícolas David / Estopim Coletivo

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