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A alma livre de Beto das facas

18 Aug 2017

 

Antonio Martins, vulgo Beto das Facas, chegou a Florianópolis pela primeira vez em 1985 para se apresentar em uma roda de capoeira na Praça XV. Depois que descobriu a rua, no Centro de São Paulo, passou 40 anos viajando e rodou as 27 capitais do país. Aqui, atraiu toda espécie de transeunte. Atrasou a entrada dos estudantes na escola e dos trabalhadores no retorno do horário de almoço com uma promessa: pular dentro de um arco de facas e sair ileso.

 

Nascido no Ceará e criado na Bahia, Beto diz que viajou mais de 1000 cidades brasileiras como artista de rua. Ganhou a vida na ginga da capoeira, no pulo entre as facas ou vendendo utensílios como o atual ralador de verduras e um santo pote de pomada. Cura tudo!

 

O começo nas ruas

 

Envolvido com a capoeira, em Salvador, Beto viajou a São Paulo com amigos para se apresentar num hotel. O grupo resolveu gingar também na Praça da Sé e, assim, as ruas dos centros urbanos e as andanças Brasil adentro se tornaram comuns para ele.

 

"Muitas pessoas perguntavam se éramos índios. Não! Isso é capoeira. A gente não precisava reunir o povo. Eles se reuniam em volta da gente pra ver o toque do berimbau”, lembra o artista de rua.

 

O canto do berimbau, as cantigas da capoeira, a puxada de rede, a dança do fogo e o gingado de Beto e dos amigos chamaram a atenção dos paulistas. No final da roda, ele ousou pedir um cachê ao público e a solicitação foi generosamente aceita.

 

De volta a Salvador, com um emprego no banco, fez uma escolha incomum: em vez de optar pela segurança de uma carreira, pediu demissão e resolveu apostar na rua. Convidou amigos e se mudou para São Paulo onde gingou capoeira por oito anos.

 

“A minha vida pode até mudar de situação financeira uma hora, mas nunca vou esquecer aquilo que já fui, o que eu já fiz, o que passei. Pra mim a rua foi um aprendizado muito grande. A rua me tornou mais humano, mais compreensível. Me mudou completamente. A forma de ver, pensar, agir, tudo”, avalia Beto.

 

Alma livre

 

Acomodar Beto não foi tarefa fácil à mãe Terra. Ela teve que oferecer algo muito bom e o artifício foi uma ilha chamada Florianópolis. Beto e a capital se conheceram na década de 1980. O romance começou na Barra da Lagoa. Nessa época, Canasvieiras, bairro onde Beto atualmente mora com a família, era asfaltada apenas na avenida principal e as ruas transversais eram de estrada de chão. Assim era na maioria dos bairros.

 

Apesar do encantamento, o artista da rua não se entregou facilmente a Florianópolis. Foi nesse período que suas andanças pelo Brasil se intensificaram. Fixou residência em Londrina, no Paraná, e novamente convidou amigos para viajar o país se apresentando nas ruas.

 

“Depois, eu já pulava aquele aro com facas e decidi viajar sozinho. Andei mais ou menos 1200 cidades desse Brasil fazendo apresentações. Eu tinha uma vontade muito grande de andar, conhecer tudo. Não queria conhecer outros países, mas sim o próprio Brasil”, ressalta Beto.

 

Há oito anos essas andanças cessaram. Beto escolheu Florianópolis porque avaliou que a cidade era tranquila e segura. Popularizou-se nas ruas do centro com a apresentação das facas, mas há dois anos trocou de atividade. Agora, vende raladores de verdura a R$ 10.

 

 

Todo dia, faça chuva ou faça sol, chega por volta das 11h no Centro, compra R$ 20 em legumes que são ralados até o fim da tarde. Na verdade, para evitar o desperdício, às vezes, ele apenas passa o ralador do lado contrário e segue seu discurso persuasivo de vendas.

 

“Muita gente pergunta pra mim: ‘Ah, mas tu não consegue mais fazer aquilo que tu fazia?’ Não é isso. Eu dei um tempo. Não é que eu não consiga. Dei um tempo de pular as facas”, afirma e, na sequência, revela em tom de mistério: “na temporada posso até voltar a fazer. É que nem andar de bicicleta, a gente nunca esquece. Você pode até desaprumar um pouquinho na saída, mas depois pega o ritmo e vai.”

 

Laços

 

Querido por seus “clientes” do Centro da cidade, Beto também cativou muitos corações ao longo da vida. Casou-se diversas vezes e gerou oito filhos. A mais velha do atual casamento acabou de ser mãe e se mudou para Capão da Canoa no Rio Grande do Sul.

 

“Foi um choque, porque a gente agora tem uma netinha. Minha filha casou, mas sempre morou ali em Canasvieiras. Aí nasceu a netinha e de repente ela saiu de perto e a saudade é grande.”

 

Os laços familiares são muitos e, atualmente, a internet estreita a relação com parte da prole que ficou em outras cidades brasileiras por onde Beto passou.

 

“Tenho uma filha que mora em Vitória no Espírito Santo. Ela é advogada e me fala: ‘mas que loucura essa tua vida, pai’. Mas foi nessa loucura que eu consegui colocar você na faculdade”, brinca.

 

O esforço de toda sua vida foi conservar e fazer amizades. Talvez por isso, tantas vezes nossa conversa foi interrompida por um ou outro transeunte querendo cumprimentá-lo. Oferecendo sua ginga ou seu número principal com as facas, Beto conseguiu frear muitas vezes a pressa dos centros urbanos e se tornou patrimônio histórico, cultural e popular do nosso Centro.

 

 

Fotos:

Arquivo Pessoal de Beto

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