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A "Dona do Raio" encarnada pela dama de prata

Maria Bethânia sobe ao palco resplandecente e guiada pelos ventos

 

 

“Até que nem tanto esotérica assim”, diria Gilberto Gil, mas não posso deixar de crer que todos os santos e orixás se reuniram para formar a silhueta da magnífica noite do último sábado, 2 de dezembro. A energia que pairava sobre o palco de Maria Bethânia e sua banda fez toda e qualquer “Fera Ferida” se deixar levar pelo corpo, alma e coração. Até o sistema de cadeiras numeradas foi burlado para que todos pudessem mexer seus corpos ferventes pelos refrões mais notórios destes 52 anos de carreira.

 

Logo na entrada do evento, uma exposição de diversos discos que marcaram a carreira da diva da noite, enquanto logo à frente, o bar anunciava chopp gelado. O grande momento, previsto para as 22h, teve início marcado pela pontualidade, construção e acústica invejáveis. Nesse instante, me dei conta dos inúmeros olhares marejados e percebi a imensurável honra de ter acesso ao grande espetáculo que começaria em segundos.

 

Brilhante, intensa e dona de uma voz indiscutivelmente consolidada, Maria Bethânia adentrou o palco de pés descalços, cabelos esvoaçantes e trajando um vestido longo prateado que imediatamente me remeteu à ideia de personificação de Iemanjá, como que recém-saída da Beira-mar de Florianópolis. Seu canto vibrando nos meus tímpanos era como rara magia, capaz de arrepiar cada centímetro do corpo. A sintonia da banda, somada à dramaticidade e talento inegáveis de Bethânia, foram os propulsionadores de toda a aura artística, ora eu sentia-me em um show musical, ora em uma peça de teatro.

 

Se a percussão quase me fazia flutuar daquelas cadeiras, o recitar das poesias trazia-me de volta para o chão do momento presente. Chorei, cantei, sorri e me entreguei... Já não era possível conter qualquer traço de emoção quando, sabidamente, a esmagadora maioria das composições de Bethânia são gatilhos para a memória de grandes amores. E quando as belas composições pausaram para dar espaço aos poemas escolhidos com astúcia, meus sorrisos misturavam-se com o sabor das lágrimas salgadas.

 

O cenário, por muitas vezes, era alterado diante de meus olhos, de acordo com o contexto de cada música. Como boa geminiana e com o plus de ter nascido em família de artistas, Maria Bethânia era capaz de realizar o que quisesse naquele palco. E assim o fez. Com uma presença de palco impecável, a plateia saiu voando pelos ares ouvindo clássicos da MPB, como a mencionada “Fera Ferida”, “O Quereres”, “Esotérico”, “Volta por Cima” e “Cálice” – canção composta por Chico Buarque na época da Ditadura e que, miseravelmente, muito se adequa à situação política atual de nosso país.

 

Além das faixas referidas, a deusa inspiradora da noite recitou outros grandes nomes da música e da poesia. Caminhou de “Soneto de Fidelidade”, de Vinicius de Moraes à “É o amor”, de Zezé Di Camargo e Luciano; exaltou e homenageou seu grande amigo Naná Vasconcelos, ao cantar “Frevo no 2 do Recife”; e não deixou de mencionar os catarinenses Guga Kuerten e Vera Fischer. Eu poderia fugir do misticismo, mas o ecletismo dessa mulher só reforça o Sol em Gêmeos que nós duas compartilhamos. Julguem-nos.

 

Multifacetada, cantora, compositora, atriz, sapatão! Há mais de cinco décadas, Maria Bethânia marca o contexto artístico do Brasil e reforça o papel da mulher na música. Falando em mulher, o público, mesmo variado, tinha a predominância marcante das mulheres na “faixa dos cinquentão”, todas eufóricas diante da representatividade pulsante, afinal de contas, não é todo dia que vemos uma mulher artista lésbica que resiste há tantos anos contra o sistema patriarcal, solidificando seu espaço a cada apresentação.

 

Ao final, formou-se um aglomerado de fãs em frente ao palco, porque a essa altura ninguém mais se manteve sentado. Todos em pé, dançando e cantando para lembrar que a vida “é bonita e é bonita”, enquanto Maria Bethânia sorria e saudava a todos como quem benze um filho. A longa espera pelos autógrafos só findou quando todos se convenceram de que a estrela já havia seguido seu caminho rumo ao aeroporto, após atender algumas de suas tietes mais antigas.

 

Doce e bárbara, Maria Bethânia e seu fogo de filha de Iansã desidrataram-me por completa. O calor proveniente do excesso de lágrimas e de cantorias esquentou o coração, energizou a vida e serviu de desculpa para encarar o chopp artesanal do hall de entrada... Já o efeito frenesi, causado por tamanha explosão de satisfação, não tem cura nem cachaça que apague. Ainda bem!

 

 

Foto:

Manuela Scarpa / Brasil News

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