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Marcha contra o tabu

5 May 2017

Neste sábado, 6 de maio, ocorre a Marcha da Maconha Floripa 2017 em simultâneo a outras marchas em 10 cidades brasileiras, como São Paulo, Porto Alegre e Curitiba. Próximo da 10º edição em Florianópolis, o evento tenta avançar no debate e conscientização sobre a regulação da maconha, combatendo, entre outros problemas, o preconceito e a violência policial.

 

A edição deste ano tem uma novidade: a partir das 15h, ocorre a Batalha da Marcha, uma união de forças entre a Marcha da Maconha Floripa e a Batalha de Rap da Alfândega. Às 16h20, a Marcha começa a caminhada partindo do próprio Largo da Alfândega no Centro de Florianópolis.

Nesta entrevista, perguntamos aos organizadores da Marcha da Maconha Floripa sobre sua atuação na cidade, evidenciando o principal objetivo do movimento. Confira:

 

➤ Quando surgiu o movimento Marcha da Maconha em Florianópolis e como o grupo atua?

 

A Marcha começa na verdade com o movimento Million Marijuana March, que surgiu no Canadá nos anos 1990, se espalhou rapidamente pelos Estados Unidos e depois no mundo. No Brasil, começa em 2002, no Rio de Janeiro, e apenas em 2006 assume uma identidade mais nacional já com o nome atual.

 

Em Florianópolis, a primeira Marcha foi realizada em 2007, promovida pelo Instituto da Cannabis, instituição fundada nessa mesma época com objetivos científicos, políticos e culturais por estudantes da UFSC. Desde então, a Marcha é realizada todo ano, geralmente em maio ou começo de junho, seguindo o calendário nacional e já conta com diversos participantes e apoiadores além do Instituto que deu o pontapé inicial.

 

A organização se dá de maneira aberta e horizontal e atua com foco na difusão de informações sobre o tema e divulgação da pauta da legalização. Para isso, marcamos presença em eventos de caráter acadêmico e cultural onde através da venda de camisetas e cadernos são levantados fundos para as marchas anuais e quando é possível promovemos a vinda de especialistas do tema para a cidade, informando a população da possibilidade de outra política de drogas e quebrando os tabus que a desinformação proibicionista oferece.

 

➤ Qual o objetivo das marchas anuais?

 

O objetivo das marchas anuais é atentar para as crescentes injustiças e violações de direitos promovidas pela atual política que trata o tema como uma questão meramente policial, alimentando um modelo de proibição caro e que coloca em risco não apenas policiais, mas toda a população, e propor uma política alternativa, nomeadamente a legalização.

 

É importante ressaltar que economistas, juristas, policiais e profissionais da saúde já apresentaram não apenas argumentos, mas contundentes dados que apontam para o fracasso do atual modelo. A proibição aquece os mercados ilegais com a supervalorização dos produtos, promove a corrupção nos meios policiais, jurídicos e políticos, gera violência, insegurança e desrespeito nas comunidades afetadas pelo tráfico e impede o tratamento humano das pessoas com problemas com drogas que muitas vezes temem serem presos e não acessam devidamente o sistema de saúde.

 

Devido a isso pedimos através da Marcha que a sociedade abandone os tabus que o tema envolve e se disponha, através do diálogo, a construir um outro cenário, onde as liberdades de escolha dos usuários sejam respeitadas e os problemas que as drogas podem gerar sejam tratatos com educadores e profissionais da saúde, o que liberaria o esforço policial pra prevenir crimes mais sérios, traria agilidade para a justiça, atolada de acusações de tráfico, e impediria a superlotação de presídios, enfraquecendo assim instituições criminosas.

 

Em suma, o objetivo é mudar a política de drogas para que se torne mais baseada no diálogo e no respeito aos direitos e liberdade individuais e menos pautada na violência, pois essa última não resolve nada.

 

➤ Nesta edição, haverá uma parceria com a batalha de rap que ocorre na Alfândega. Como funcionará?

 

A parceria visa estimular o debate do tema entre as pessoas que já frequentam o centro da cidade em atividades culturais. O rap já é uma ferramenta de protesto e conscientização oriunda das periferias que é onde a violência policial é mais latente e, nesse sentido, fortalece também a pauta da Marcha.

 

A juventude atual já está atenta para as mentiras propagadas pelo discurso proibicionista e já se manifesta através da arte, principalmente da música, contra essa realidade de injustiças.

 

Nossa aproximação portanto apesar de ser novidade dessa marcha não é algo inusitado, trata-se de unir forças contra o obscurantismo e promover informação e cultura pela legalização da paz.

 

➤ O movimento atua de outras formas pra atingir seus objetivos? Quais?

 

Em boa medida é possível afirmar que a Marcha da Maconha é apenas a parte mais visível de um vasto movimento anti proibicionista que já se espalha pelo território nacional. Cada cidade possuí autonomia nesse movimento e organiza suas próprias atividades. Em Santa Catarina, além da Marcha da Maconha também há atividades culturais, como festas e apresentações artísticas, e de caráter acadêmico, como os Seminários do Instituto da Cannabis.

 

Neste ano, por exemplo, um dia antes da Marcha, teremos pesquisadores, militantes e interessados no tema debatendo na Roda de Conversa da Caminhada Anti Proibicionista no Instituto Arco Íris.

 

Além disso, durante os meses que antecederam a Marcha houve uma série de luais na Lagoa da Conceição onde pudemos conversar com a população e expor nossas ideias para uma sociedade mais justa e menos repressora promovendo a pauta da Marcha.

 

➤ Desde que iniciaram o movimento, percebem evolução significativa neste debate?

 

Sem dúvida. Quando a Marcha começou, no Rio, era marcada por forte violência policial e pela incompreensão da sociedade. Muitos pensavam tratar-se apenas de uma celebração do gozo que a canábis recreativa pode promover, mas com o passar dos anos a seriedade das propostas foi se tornando mais clara e o diálogo com as autoridades também amadureceu.

 

Ainda há forte resistência ao tema no meio policial, mas já existem muitos nesse meio que percebem o quão injusto é o atual modelo onde os soldados são feitos de bucha de canhão ou de carrascos da população pobre enquanto os políticos que se beneficiam da ilegalidade traficam vultosas quantias em famigerados helicópteros com tranquila impunidade.

 

Um ponto de virada na situação da Marcha ocorreu em junho de 2011, quando o Supremo Tribunal Federal conclui em unanimidade que falar sobre legalização não era ilegal e que não caberia portanto usar da força do Estado para reprimir a liberdade de expressão dos manifestantes na Marcha.

 

Infelizmente ainda há figuras retrógradas nos cargos de poder e essa determinação nem sempre é acatada, ainda assim, isso fortalece o movimento ao dar garantias jurídicas aos manifestantes.

 

Em Santa Catarina, nunca houve conflito durante as Marchas, mas já tivemos conflitos relacionados a maconha, com destaque para o violento ataque da polícia na UFSC em 2014.

 

A reação das pessoas que tentaram impedir que um jovem fosse preso por portar uma insignificante quantidade de maconha mostra que há certa consciência se desenvolvendo no sentido de que as pessoas já não aceitam que alguém vá preso só por fumar maconha, isso por si só já mostra como o debate avança.

 

➤ Por que consideram que a legalização da maconha será benéfica para a sociedade?

 

Inicialmente porque acabaria com o ciclo de violência promovido pelo sistema repressor. A atual proibição não é eficaz em proibir, mas sim em aumentar a especulação sobre o produto, o que sustenta toda uma mafia de bandidos e corruptos com lucros altos a custo de vidas humanas.

 

A legalização colocaria fim na escalada de violência, haveria menos policiais mortos, menos cidadãos pobres encarcerados por manterem esse mercado funcionando e menos dinheiro para a corrupção no meio político.

 

Além disso, a maconha tem uma série de aplicabilidades industriais e medicinais que não podem ser aproveitadas pela estupidez do discurso proibicionista que tenta associar qualquer cientista, médico ou capitalista que fale sobre o tema com as redes de tráfico internacional impedindo dessa forma um debate consciente e o esclarecimento sobre o tema afinal.

 

As sociedades onde a maconha foi legalizada provam isso, tanto na já clássica Holanda, quanto nos dinâmicos mercado do Colorado e da Califórnia e no simpático Uruguai os resultados da legalização já são claros: menos violência e mais dinheiro lícito circulando na sociedade.

 

➤ Quais os casos em que a maconha tem aplicabilidade medicinal?

 

É difícil mensurar exatamente porque as leis proibicionistas impedem a pesquisa em países como o Brasil. O que já sabemos através de experiências em realidades mais permissivas e de ousados médicos e cientistas visionários é que os canabinóides presentes nessa planta podem prevenir alguns tipos de tumores, podem aplacar efeitos de epilepsia e parkinson e que são capazes de estimular o apetite, o que a torna recomendável para o tratamento de uma série de males causados por doenças como a AIDS e durante procedimentos como a quimioterapia.

 

Também se sabe que podem prevenir enjoos e náuseas. Há casos também em que a maconha é usada por pessoas que pretendem abandonar vícios como o crack, a heroína, o álcool e o tabaco. Mas cabe ressaltar aos maconheiros de plantão que o uso médico da planta se dá geralmente por meio de plantas selecionadas para esse fim e através de óleos e compostos de via oral, isso porque os médicos reconhecem seus benefícios mas não vão prescrever fumaça quente nos pulmões de seus pacientes, além disso, a maconha industrializada no mercado ilegal possuí substâncias desconhecidas, o que pode não ser bom para pessoas com a imunidade já fragilizada.

 

➤ Que tipo de conhecimento se tem sobre os malefícios da maconha e como isso deve ser tratado?

 

Pelas mesmas razões citadas anteriormente isso ainda é difícil de mensurar. Somente com a legalização e a permissão para experiências mais sérias será possível saber com mais exatidão tantos os usos benéficos quanto os usos maléficos para o organismo humano.

 

Por ora, o que se sabe é que a maconha tem baixa capacidade de viciar, pois não altera tão significativamente o metabolismo como o álcool e o tabaco por exemplo. Também se sabe que não existe caso de overdose ou morte por maconha. Até o presente momento, o maior malefício constatado é a fumaça mesmo, pois os pulmões são órgãos sensíveis e os altos níveis de carbono e outras substâncias oriundas da combustão em altas temperaturas podem prejudicá-los.

 

Especialistas recomendam o uso de vaporizadores e bongues que permitem inalar fumaça fria, de forma a minimizar esses problemas. Quanto às alterações causadas pela maconha no cérebro, até onde se sabe essas são sutis e se dão porque o próprio organismo humano produz substâncias similares às inaladas (de forma que uma espécie de chave química funcione). Apesar de não ser uma substância totalmente inofensiva, boa parte das acusações sobre seus efeitos é puro mito, e é certamente mais inofensiva que café e açúcar por exemplo.

 

 

 

Foto:

Instituto Canabbis

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